A revolução cubana chega à região

A Extremadura é vista como um bastião do bipartidarismo e PSOE e PP deverão fazer o pleno de deputados no domingo, na região mais pobre do país. Mas um político nascido em Havana, veterano das guerras de África, mostrou em Aldeacentenera que não há impossíveis

"Nós, os políticos, não estamos acima de ninguém. O verdadeiro poder está em vocês, não no alcaide", diz, alto e bom som, Carlos Cabrera e a seguir chega a chuva de aplausos. Dolores, Israel, Josefa ou Juana Maria, ninguém na sala do teatro de Aldeacentenera esconde o entusiasmo pelo cubano que conheceu uma filha desta aldeia extremenha, aqui se instalou e nas últimas eleições locais, em junho, derrotou o autarca socialista. Juan Francisco Monterroso, que há 32 anos punha e dispunha na terra, retirou-se da política e zangado.

Agora, Cabrera pede que voltem a votar nos Extremenhos, o partido regionalista que o apoia. E por isso a seguinte a discursar é Fernanda Ávila, candidata a deputada nas legislativas espanholas do próximo domingo. "O que nos interessa é defender os interesses da nossa terra", argumenta esta mulher jovem que trabalha no Museu Romano de Mérida, a capital daquela que é a região mais pobre de Espanha, vizinha do Alentejo e da Beira Baixa. "Não podemos continuar a ser os últimos. Não pode ser, não pode ser, não pode ser", insiste Ávila, que terá dificuldades em ser eleita, pois a Extremadura, com um milhão de habitantes, envia apenas dez deputados ao Congresso em Madrid.

"A partidocracia está esgotada", insiste Cabrera, já depois de terminado o comício, em conversa com o DN. Mas a verdade é que as sondagens mostram a Extremadura como um bastião do velho sistema partidário, com os deputados (seis pela província de Badajoz quatro pela de Cáceres) a serem para os socialistas do PSOE e para os conservadores do PP. Mesmo os fenómenos Podemos e Ciudadanos pouca expressão conseguem nesta região muito rural, de cidades pequenas. Uma sondagem dava certas hipóteses ao Ciudadanos de eleger um deputado em Badajoz.

Aqui as pessoas passaram a acreditar que é possível mudar quando se quer. E que o voto tem muita força

"Nada é definitivo em política", afirma o alcaide, um cubano que deixou a ilha natal zangado com o castrismo, mas que esteve com as tropas que Fidel enviou para Angola e Etiópia. Com 53 anos, e jornalista de profissão, Cabrera é neto de espanhóis das Astúrias e das Canárias e por isso tem dupla nacionalidade, o que lhe permite a carreira política. E está otimista sobre os bons resultados da coligação Extremenhos-Extremadura Unida, pelo menos na sua Aldeacentenera. "Aqui as pessoas passaram a acreditar que é possível mudar quando se quer. E que o voto tem muita força", explica o homem que em junho tirou quase metade dos votos aos socialistas e fez desaparecer o PP (teve três votos) para se fazer alcaide. "Foi uma revolução. Pequena, mas uma revolução", admite, enquanto picoteia tortilha, queijo e uns pedacitos de carne, tudo produto das terras à volta. Também o vinho é regional. "Podíamos ser a dispensa do mundo. Chineses e indianos passaram a comer duas vezes por dia e precisam de quem lhes venda. A Extremadura tem tudo. Precisa que se invista nela", afirma o marido de Mary.

"Cabrera é muito inteligente. Foi assessor de políticos do PP e trabalhou em Madrid. Depois, como a mulher é de Aldeacentenera, viu que havia a hipótese de derrotar o dinossauro do PSOE e como o PP não o tratou bem avançou pelos Extremenhos", explica Ángel Guerra, diretor do La Opinión, o jornal decano de Trujillo, a cidade vizinha de Aldeacentenera (que quer dizer "do centeio", não "a centenária").

Situada a uns 30 quilómetros de Trujillo, não longe de uma das saídas da autoestrada que liga Portugal a Madrid, Aldeacentenera tem uma velha igreja junto ao edifício do ayuntamiento, a câmara municipal, e o resto são casas simples, de dois andares no máximo, todas bem cuidadas, com as fachadas pintadas de cores suaves, algumas também de vermelho. Junto às portas, vasos com flores. Tirando uma serralharia, não se nota nenhuma atividade económica. A maioria vive do trabalho no campo e "estamos na época da apanha da azeitona", explica Juana Maria, que esteve no comício, gosta de Cabrera, mas recorda que tem de se levantar cedo. Trabalhou muitos anos no País Basco, onde criou os filhos, mas voltou à Extremadura. "E a família veio toda. Sempre adoraram a Extremadura", conta esta mulher já na casa dos 60. Aliás, foi a filha que noutras eleições tentou pela primeira vez derrubar o PSOE.

"As pessoas estavam cansadas. Não trabalhamos bem lá. E é isso que explica o que se passou em Aldeacentenera. Mas domingo a maioria vai voltar a votar no PSOE", diz Ricardo Jimenez, da comissão executiva dos socialistas extremenhos. Sentado no café Miura, na Plaza Mayor de Trujillo, de frente para a estátua de Pizarro, conquistador do Peru, o socialista acredita até que o seu partido vai governar em Madrid, "talvez com acordos com o Podemos e o Ciudadanos".

Alberto Casero chega e cumprimenta todos. É o alcaide de Trujillo e senador pelo PP em Madrid. "Acredito que vamos ganhar as legislativas, mas sem maioria absoluta mesmo que a economia já esteja a crescer", diz este jurista de 37 anos, dirigente do partido de Mariano Rajoy na Extremadura. "Mas devemos precisar do Ciudadanos".

Albert Rivera é o marido que as mulheres querem, o filho que as mães querem, o genro de sonho. E isso dá-lhe votos

Dado em algumas sondagens como podendo conseguir 20%, o Ciudadanos é uma direita mais moderna que o PP do primeiro-ministro Rajoy e está a conquistar votos ao centro, muito graças ao líder, um catalão. "Albert Rivera é o marido que as mulheres querem, o filho que as mães querem, o genro de sonho. E isso dá-lhe votos", ironiza Ángel Guerra. Já sobre o Podemos o jornalista não tem dúvidas: "Congrega todos os radicais de esquerda, dos desiludidos do comunismo aos republicanos", comenta, enquanto pede um segundo copo de Paiva, vinho de Badajoz que, garante, "é uma maravilha".

Em Aldeacentenera, o bipartidarismo foi humilhado nas locais. O PSOE passou dos 290 votos de 2011 para 176 e o PP dos 184 para menos do que os dedos de uma mão. Hoje são cinco os vereadores do Extremenhos e dois socialistas. "As pessoas tinham medo. Se desafiassem o alcaide podiam perder o emprego ou o subsídio. Isso acabou", diz Cabrera, que tem usado a sua experiência para melhorar a gestão do ayuntamiento e também para incentivar os jovens da terra a criar empresas. Israel é um deles. Criou uma empresa de jardinagem, fez contrato com o ayuntamiento para cuidar dos espaços verdes da aldeia e já conseguiu outros clientes. "Um dia destes tenho de contratar um empregado", diz.

Com mais de 25% de desemprego, trabalho é mesmo o que faz falta na Extremadura. E em Aldeacentenera muito. Hoje com 650 habitantes, a aldeia tem vindo há décadas a perder gente. "Aqui não há nada para fazer", queixa-se David, que é da terra, mas trabalha em Badajoz. Sentados numa espécie de pátio que pertence ao Bar El Teatro, são vários os jovens que bebem uma cerveja para matar o tempo neste final de tarde, mas nem pensar que estão a fazer tempo para o comício ali ao lado. "Somos todos do PSOE", diz Johnny, que explora o café. E não só desvaloriza a força dos Extremenhos como o Podemos e o Ciudadanos: "Isso é coisa que não há aqui". Todos parecem concordar. Marcos, estudante, acena com a cabeça. Mas Vítor, que anda na Universidade em Badajoz e quer ser engenheiro químico, surpreende os amigos declarando que talvez vote Podemos. "Ainda não me decidi". Risos e mais uma rodada de cañas. Ali não há vivas à revolução cubana. À pequena, a da aldeia.

* em em Trujillo e Aldeacentenera

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