A prova de fogo da onda Macron em Paris

Na primeira volta das legislativas, que se realiza hoje, a vitória está garantida para o movimento do presidente. Mas em Paris a direita ainda espera conservar um dos seus bastiões.

A segunda circunscrição de Paris, ganha em 2012 por François Fillon, malfadado candidato da direita à Presidência da República, é uma das mais cobiçadas para chegar à Assembleia Nacional. Não só é uma das zonas mais ricas de França - o preço do metro quadrado é em média de 11 780 euros -, mas também é aí que se situa o Palais Bourbon, edifício onde fica a própria Assembleia Nacional. É aqui que o République en Marche, movimento criado pelo agora presidente Emmanuel Macron, terá uma das suas provas de fogo face a uma direita que luta para se manter à tona da água.

"Quem não sonha ser eleito pelos 5.º, 6.º e 7.º arrondissements de Paris? São bairros bobo [burguês--boémio], confortáveis e que agradam a toda a gente." É a pergunta que Marcianne, parisiense de 65 anos, que está a fazer compras e passeia o cão Trésor nas imediações do mercado Saint-Germain, coloca ao DN.

Paris está dividido em 20 arrondissements, retalhados em 18 circunscrições eleitorais. Assim, a capital elege no total 18 deputados e cada uma destas circunscrições equivale a cerca de 125 mil eleitores. Quis a demografia e as leis eleitorais que a segunda circunscrição agrupasse alguns dos bairros mais chiques da capital, incluindo a Boulevard Saint-Germain, os Invalides e a Sorbonne.

Há 24 concorrentes ao lugar de Fillon. Entre eles está o candidato apoiado pelo République en Marche, Gilles Le Gendre, antigo jornalista e diretor de comunicação da Fnac, e Nathalie Kosciusko-Morizet, candidata às primárias da direita e esperança dos Republicanos para manter o lugar na Assembleia Nacional. Há ainda Jean-Pierre Lecoq, o equivalente ao presidente da junta do 6.º arrondissement, que decidiu candidatar-se à revelia do seu partido, Os Republicanos, complicando assim a vida da candidata oficial.

Kosciusko-Morizet já qualificou a sua candidatura como "estando no meio de fogo cruzado" entre os dissidentes de direita e o candidato do En Marche!. Nils, 72 anos, dá conta disto mesmo. Regressado à capital expressamente para votar nas legislativas, este francês que divide o ano entre Paris, onde tem casa perto da Place Saint Sulpice, e Chamonix, uma cidade no sopé do monte Branco, afirmou ao DN que a direita está fragmentada e que Gilles Le Gendre é alguém completamente desconhecido pela vizinhança. "Eu não o conheço e até acredito que tenha os seus méritos, mas não vou votar num desconhecido. Eu vou votar na Nathalie Kosciusko-Morizet, com quem me identifico e com quem partilho convicções na defesa do ambiente, na defesa nacional e na condução dos negócios estrangeiros."

Legislativas à volta do presidente

Acompanhando a tendência nacional, as sondagens neste canto de Paris dão vantagem a Gilles Le Gendre, com cerca de 40% na primeira volta e até 60% na segunda. Um golpe para Os Republicanos, que veem em Kosciusko-Morizet uma das figuras que mais podem contribuir para a renovação da direita. No entanto, um dos critérios para votar nas legislativas, independentemente das preferências partidárias ou dos candidatos, parece ser mesmo o nível de apoio ao presidente.

"Como Macron é agora presidente, temos de apoiar o seu projeto e votar no deputado do seu partido. Tive só curiosidade de ver quem era a pessoa, mas admito que não sei muito sobre ele. Se foi investido por Macron, eu confio", confessou Pascal, 54 anos, que vive perto do Bon Marché, uma das lojas mais famosas da margem esquerda do Sena. Com uma inclinação à direita, este parisiense chegou a votar nas primárias em Fillon. No entanto, após virem a lume as acusações de uma alegada fraude ao empregar a mulher como assistente parlamentar, Pascal ficou convencido pelo discurso de Macron.

Só a maioria possibilitará ao novo inquilino do Eliseu desenvolver o seu projeto político. As mudanças desejadas - e prometidas na campanha - pelo agora presidente incluem grandes reformas no mercado laboral, mas também uma nova lei antiterrorismo, que deverá chegar à Assembleia Nacional antes do fim do verão. Temas sensíveis e que, na opinião de Marcianne, requerem mais experiência do que aquela apresentada pelos candidatos do movimento de Macron, onde mais de metade dos candidatos nunca exerceu nenhum cargo político.

"Vai haver uma maioria absoluta para o République en Marche e vão ser só novatos na Assembleia Nacional, pessoas que não conhecem nada da organização do país nem como as leis são feitas", diz a parisiense, afirmando estar "infeliz" pelo estado da vida política no seu país.

Primeiras inquietações no Eliseu

A popularidade de Macron continua a subir em flecha, especialmente depois da sua intervenção crítica face a Donald Trump sobre o abandono dos Estados Unidos do Acordo de Paris sobre o clima. "Tem feito tudo bem até agora e não me arrependo de ter votado nele", assegura Pascal.

No entanto, o seu recém-empossado governo já mostra algumas fraturas. Dois dos seus principais ministros estão em xeque devido a problemas com a justiça: François Bayrou, ministro da Justiça, viu nesta semana o seu partido, Mouvement Démocrate (MoDem), ser acusado de usar fundos do Parlamento Europeu para pagar trabalho do partido nacional; e Richard Ferrand, ministro da Coesão do Território, terá servido durante o seu mandato como deputado os interesses das seguradoras da região da Bretanha. Sem demissões à vista, as críticas já se fazem ouvir.

"As pessoas estão tão fascinadas por este presidente que não veem que, apesar da sua inteligência e astúcia, ele não responde aos temas quentes da atualidade. Evita as perguntas dos jornalistas e pode tornar-se facilmente um déspota", conclui Marcianne.

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