A longa marcha da Frente Nacional

Partido nasceu nos anos 1970. Jean-Marie Le Pen causou um "sismo político" ao chegar à segunda volta das presidenciais. Feito repetido agora pela filha

A Frente Nacional (FN) pode ter 15 a 25 deputados na próxima Assembleia Nacional, a ser eleita em junho, segundo uma sondagem OpinionWay-SLPV divulgada no final da semana. O partido de Marine Le Pen voltará assim a ter um grupo parlamentar, o que não sucedia desde 1986. A confirmarem-se estes resultados será o culminar de uma longa marcha do partido da extrema-direita francesa fundado no início dos anos 70.

Quando, pela primeira vez, se apresentou a legislativas, em 1973, a FN obteve pouco mais de 120 mil votos. E nas presidenciais do ano seguinte, o seu presidente, Jean-Marie Le Pen, não terá tido mais de 190 mil votos. Em eleições seguintes, é o declínio, chegando a cair para um terço nas legislativas de 1981, onde não teve mais do que 44 mil votos.

No entanto, com a nomeação de Jean-Pierre Stirbois para o cargo de secretário-geral, a FN começará lentamente a crescer em número de militantes e em implantação eleitoral. Stirbois morre em 1988 num acidente de viação.

Em março de 1983, Jean-Marie Le Pen, que se afirma como líder indiscutível do partido, obtém 11,3% em eleições municipais em Paris. A FN começa a afirmar-se a nível nacional e nas europeias do ano seguinte terá um resultado histórico: 10,9% dos votos, ou seja, 2,2 milhões de eleitores e dez eurodeputados. É uma surpresa e um choque. Que se confirmam nas legislativas de 1986, onde, com 9,6% dos votos, a FN elege 35 deputados. Se em votos o partido de Le Pen obtém 2,7 milhões, o elevado número de deputados explica-se pela alteração do modo de escrutínio, que foi nesta eleição pelo método proporcional. O grupo parlamentar da FN terá, todavia, existência efémera. Após a reeleição em 1988, François Mitterrand, na origem da mudança no método de escrutínio em 1986, dissolve a Assembleia e convoca novas eleições. Desta vez, restabelece-se o método de escrutínio - será o uninominal maioritário a duas voltas - e a FN só consegue um eleito. Mas a implantação do partido prossegue e entre 1988 e 1999 nunca terá menos de 10% dos votos em legislativas, europeias e regionais. E nas presidenciais de 1995, Le Pen alcança 15% dos votos.

A FN vai viver a sua mais grave crise em 1999, quando um dos seus dirigentes, Bruno Mégret entra em rutura com Le Pen e acabará por sair, provocando uma cisão que terá consequências nas europeias daquele ano, em que o partido cai para pouco mais de um milhão de votos ou 5,9%. Mas o movimento criado por Mégret nunca terá sucesso e este acabará por deixar a política ativa.

Em contrapartida, a FN acaba por se tornar uma força política relevante, contando numerosos eleitos a nível local e regional e Le Pen vai estar na origem de um "sismo político", como é habitualmente designada a sua passagem à segunda volta nas presidenciais de 2002, com 16,8%. Na segunda volta, não terá mais de 17,7% mas, pela primeira vez, a extrema-direita tem mais de 5,5 milhões de votos. Um resultado só agora superado por Marine Le Pen, que assumiu a direção do partido em 2011, com 7,6 milhões. Mas após 2002, a FN mantendo resultados eleitorais significativos, cai em número de votos e o próprio Le Pen, nas presidenciais de 2007, não terá mais de 10,5%. Só nas europeias de 2014, a FN volta a aproximar-se dos cinco milhões de votos enquanto nas legislativas de 2012 teve pouco mais de 3,5 milhões de franceses a votarem no partido. Falta agora ver que resultado espera amanhã Marine e a FN em junho para saber se a sua estratégia de "desdiabolização" - uma nova imagem - produz efeito.

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