A Itália entre a abstenção e a maioria impossível

A única certeza é que o resultado das eleições de amanhã é uma total incerteza. O Movimento 5 Estrelas tem 28% de intenções de voto, o Partido Democrático, 22%, a Força Itália e aliados de direita, 38%. Ninguém chega aos 40%, maioria necessária para um governo estável, definida pela nova lei eleitoral. Novas eleições não são de excluir

Força Itália: António Tajani ou a arma secreta de Berlusconi

Foi uma confirmação na noite de quinta-feira que pode pesar no desfecho das eleições de domingo. O atual presidente do Parlamento Europeu, António Tajani, aceitou ser o candidato do partido liderado por Silvio Berlusconi ao cargo de primeiro-ministro, caso a coligação encabeçada por este chegue à maioria. Tajani, de 64 anos, tem a dupla vantagem de ser incondicional de Berlusconi (este está impedido de exercer cargos públicos, e assim terá uma palavra na estratégia do futuro executivo) e de ser um reputado tecnocrata. As sondagens estão interditas desde 16 de fevereiro, mas as últimas colocavam a coligação de direita FI-Liga Norte e Irmãos de Itália com cerca de 38%, a dois pontos da maioria, que é de 40%. O elevado número de indecisos e abstencionistas (45%) pode jogar a favor da coligação, resolvendo a questão de governo. A não concretizar-se este cenário, Tajani está bem colocado para tentar uma grande coligação com o PD, de Renzi, o que já foi feito por breve período em 2013-2014. Sem grande sucesso. Agora, o fracasso teria alto preço para os partidos e para Itália.

5 Estrelas: O dilema de Di Maio: sozinho ou coligado

Está à frente nas sondagens, com cerca de 28% das intenções de voto e o seu candidato a primeiro-ministro, Luigi di Maio, acredita piamente na vitória: "os italianos dar-nos-ão 40% de votos neste domingo", assegurou ao apresentar na quinta-feira a composição do futuro governo. O otimismo de Di Maio tem, todavia, pela frente a parede da génese do 5 Estrelas, que nasceu como movimento antissistema e que, até ao início desta campanha, recusava a ideia de governar em coligação. Di Maio abriu caminho a esta opção e citou até possível parceiro de coligação: a Liga Norte (15%). Pelos números das sondagens, esta não seria uma solução impossível e teria até garantida a maioria. Só que a natureza do 5 Estrelas (dividido entre uma fação populista e outra mais institucional como entre correntes de direita e outras de centro-esquerda) e da Liga Norte, também populista e eurocética e claramente de direita, não deixa antever um executivo estável. O único conforto para o 5 Estrelas é que, para um partido nascido há uma década, ainda não parou de crescer. A dúvida é se saberá gerir esse sucesso.

Partido Democrático: O irresistível declínio de Matteo Renzi

Começou a campanha com cerca de 27% das intenções de voto; nas últimas sondagens estava nos 22%. Melhor não estava o candidato a primeiro-ministro, Matteo Renzi, que viu menos de 25% dos italianos considerarem-no como líder político credível enquanto para o atual chefe do governo, do PD e aliado de Renzi, Paolo Gentiloni, esse valor ultrapassava os 35%. Os problemas de Renzi não ficam por aqui: mesmo com o apoio de partidos de centro-esquerda, como o Mais Europa (3,5%), de Emma Bonino, ou o Livre e Iguais (5,6%), de Pietro Grasso, fica longe da maioria. A alternativa para ser governo representa uma pesada dor de cabeça para Renzi e passa pela constituição de uma grande coligação com a Força Itália (17%). A opção foi tentada em 2013 num executivo presidido por Enrico Letta, do PD, e que Renzi fez tudo para torpedear. Agora, com o risco de uma Itália ingovernável, e novas eleições, ou de um governo de iniciativa presidencial, que pode ser o de Gentiloni ou o de uma coligação transversal, Renzi poderá dar por não dito tudo o que disse no passado.

Liga Norte: Salvini ou o discurso xenófobo e anti-europeu

Tinha 15% das intenções de voto nas últimas sondagens e, durante a campanha, em alguns inquéritos de opinião chegou a surgir à frente da Força Itália. Deste facto, resultou um acordo prévio entre Berlusconi e o candidato e dirigente da Liga, Matteo Salvini, em que ficou acertado que será o partido mais votado a indicar o nome do chefe do governo, sendo que o líder da FI já tem candidato. A Liga cultiva um discurso profundamente anti-imigração e anti-União Europeia (pretende a realização de um referendo sobre o euro) e advoga uma política securitária forte. Um programa muito semelhante ao do outro partido que integra o polo de direita (e extrema-direita) liderado pela Força Itália, os Irmãos de Itália (5%), de Giorgia Meloni. O resultado combinado destes partidos será decisivo para se apurar se é possível um governo liderado por António Tajani ou se a alternativa está na grande coligação Força Itália-Partido Democrático. A Liga deve obter bons resultados no norte do país enquanto os Irmãos de Itália devem alcançar uma votação significativa nas regiões do sul.

Livres e Iguais: Grasso, da luta contra a mafia ao combate político

As últimas sondagens davam 5,6% a esta aliança de partidos de esquerda e sociais-democratas, liderada pelo ex-juiz Pietro Grasso, que se distinguiu no combate às organizações mafiosas no sul de Itália. Grasso é ainda presidente do Senado italiano, tendo sido eleito pelo Partido Democrático, de que se distanciou posteriormente. Formada pelos Democratas e Progressistas, pela Esquerda Italiana e pelo Possibile (Possível), esta aliança apresenta-se como a antítese da restante esquerda e, em particular do partido de Renzi, que consideram estar refém do atual líder. Aliás, uma série de personalidades na aliança deixaram aquele partido, exatamente em rutura com Renzi. Apesar das divergências, os Livres e Iguais poderiam ser aliados do Partido Democrático, se este conseguisse um resultado que o aproximasse da formação do governo. É a primeira vez que a coligação se apresenta a votos e o nível de aceitação que recolhe nas sondagens revela até que ponto existe desilusão nos eleitores italianos face aos partidos existentes. O que explica também os 45% de indecisos e de potenciais abstencionistas.

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