A cidade de Pedro, o Grande à espera do Mundial de futebol

A um mês do início do Campeonato do Mundo de Futebol, quem passeia por São Petersburgo não escapa ao merchandising - seja nas montras, ao lado das matrioskas ou na loja do Museu Fabergé, onde se encontram até ovos com uma réplica da taça dentro. A cidade fundada em 1703 e que foi capital da Rússia até à revolução bolchevique de 1917 vai receber sete jogos, incluindo uma meia-final. "Esperamos ter muitos portugueses", garante Petr Arseniev, do Comité do Turismo.

Quem visita o Museu Fabergé em São Petersburgo pode ver 13 da meia centena de ovos que o joalheiro fez para os czares russos. O primeiro - simples, em esmalte branco, com uma gema em ouro e uma galinha lá dentro - e o último, oferecido por Nicolau II à mãe um ano antes da revolução bolchevique que derrubaria a monarquia. Mas é na loja do museu que o visitante é trazido de volta à atualidade quando no meio das réplicas dos ovos, surgem uns de várias cores com, no interior, uma miniatura da taça que vai ser entregue ao vencedor do Mundial de Futebol, a decorrer na Rússia de 14 de junho a 15 de julho. Azul, vermelho ou verde, o fã pode escolher a cor de que mais gosta e a recordação é dele por 6500 rublos (pouco mais de 88 euros).

É Moscovo que recebe o jogo inaugural - entre a anfitriã Rússia e a Arábia Saudita - mas o estádio Krestovsky em São Petersburgo será palco de um Rússia-Egito logo no dia 17 e recebe o frente-a-frente entre o Irão de Carlos Queiroz e a seleção marroquina. Será ainda ali, numas instalações inauguradas em 2017 e que custaram mais de mil milhões de dólares, que vai ter lugar uma das meias-finais. "Eu comprei bilhetes para o jogo Irão-Marrocos", explica Olga Smirnova enquanto aponta para as obras que dificultam o acesso ao estádio. Guia há dez anos, é num português excelente que garante que a escolha das equipa não é a mais óbvia, mas teve de ser: o pai faz anos em junho, queria muito ir ao Mundial e todos os outros jogos na cidade estavam esgotados. Quanto a ainda haver obras, apesar de o estádio estar a funcionar há vários meses, é um pouco como por toda a cidade: os últimos preparativos para que tudo esteja perfeito para o Mundial estão a entravar o trânsito "mas no último momento tudo vai estar pronto", garante Olga.

E basta percorrer as principais ruas da cidade fundada em 1703 pelo czar Pedro, o Grande para perceber que o Mundial está presente em todo o lado. Nas montras da Casa Singer, a livraria que ocupa o edifício de estilo Arte Nova erigido no início do século XX para receber a sede russa da empresa de máquinas de costura, os chapéus com o logótipo da competição rivalizam com as matrioskas. E no interior, é logo à entrada que se exibem os copos, garrafas, bonecos e mascotes do Mundial, numa prateleira por baixo de dois livros sobre as estrelas da competição - o argentino Lionel Messi e o português Cristiano Ronaldo.

"Esperamos ter muitos portugueses por causa do Mundial", explica Petr Arseniev. Nascido e criado em São Petersburgo, o representante do Comité para o Desenvolvimento do Turismo do governo da cidade garante que já em 2017 foram muitos os portugueses que viajaram até ali para assistir ao jogo Portugal-Nova Zelândia durante a Taça das Confederações. "O estádio estava quase cheio para verem o Ronaldo", explica em inglês, sentado no restaurante italiano Arancino - um exemplo do cosmopolitismo da cidade. Afastando a franja loura dos olhos, Petr vai dizendo que a cidade recebe sobretudo turistas chineses e alemães, mas também americanos. Muitos vêm nos cruzeiros, uma vez que quem chega por essa via à cidade não precisa de visto se a visita não exceder os três dias.

Durante o Mundial, os detentores de bilhetes para os jogos também não precisam de visto. Basta preencherem online a sua Fan ID (www.fan-id.ru), que, além de acesso ao país, dá também vantagens nos transportes entre cidades organizadoras e na rede de cada uma delas, sendo mesmo gratuitos em dia de jogo.

Em termos gerais, no último ano, foi o crescente número de iranianos a visitar a cidade o que mais surpreendeu Petr. Talvez, explica, porque têm voos diretos. Para atrair os portugueses, o funcionário do Comité para o Desenvolvimento do Turismo afirmou estarem a negociar com a TAP retomar, durante o ano todo, a rota direta.

Cidade dos muitos nomes

Em São Petersburgo, futebol é sinónimo de Zenit. O clube da cidade joga no estádio Krestovsky (também conhecido como Zenit Arena) por detrás do qual espreita a torre da Gazprom. Oficialmente chamada Centro Lakhta, esta é o edifício mais alto da cidade, com 462 metros, e acolhe a sede da petrolífera russa. Mas entre os adeptos, o ambiente é sombrio por estes dias, depois de um golo do português Éder aos 87 minutos ao serviço do Lokomotiv de Moscovo ter tirado o campeonato à equipa da terra.

Mas nem só de futebol se faz a cidade. Mesmo se por todo o lado espreitam os sinais de que o campeonato do Mundo está aí a chegar - das esculturas em forma de bola até ao merchandising que enche as montras das lojas de recordações. Nada, no entanto, capaz de ofuscar o brilho e a imponência daquela que foi a capital do império russo entre 1713 e 1728, e de novo desde 1732 até 1918. Esta é a cidade dos vários nomes - São Petersburgo, em 1914, devido à sonoridade demasiado germânica naquele início de I Guerra Mundial, foi mudado para Petrogrado. Dez anos depois passou a chamar-se Leninegrado, em homenagem a Vladimir Lenine, o líder da revolução bolchevique que pôs fim à monarquia dos Romanov. E em 1991, após a queda da União Soviética, um referendo determinou que se voltasse a chamar São Petersburgo.

"Muitas pessoas mais velhas continuam a dizer Leninegrado. A minha avó, por exemplo", explica Maria Prynkova. Nascida em 1992, um ano depois da queda da União Soviética, a intérprete admite que ainda há uma grande nostalgia daqueles tempos, sobretudo entre os mais velhos. Mas está convencida que, mais do que da ideologia, do que estas pessoas sentem mesmo falta é "dos tempos em que eram jovens".

Um passeio pela cidade é uma oportunidade para um regresso ao passado. A começar pelos tempos da União Soviética - basta pensar na estátua de Lenine que se ergue na Praça de Moscovo, diante da Casa dos Sovietes, o edifício planeado para receber o governo de Leninegrado, mas que a invasão nazi em setembro de 1941 ditou que nunca cumprisse a função. As tropas de Hitler cercaram a cidade durante 872 dias, com o número de mortos a rondar os 800 mil, muitos deles à fome. Mas sobretudo um regresso à época de Pedro, o Grande, cujas reformas e desejo de virar a Rússia para a Europa lhe valeram o nome tanto quanto os seus 2,04 metros de altura. O esplendor de mais de 300 pontes que ligam as 42 ilhas, as 19 catedrais e os oito mil monumentos históricos bastam para explicar o seu estatuto de Património Mundial da UNESCO.

"Tudo o que luz é mesmo ouro"

"Costumamos brincar que aqui tudo o que luz é mesmo ouro", ri-se Maria. E da cúpula da catedral de Santo Isaac à fortaleza de Pedro e Paulo, passando pelas estátuas do palácio de Peterhof (residência de verão dos czares a 25 quilómetros de São Petersburgo) a realidade confirma as palavras da intérprete. Um dos maiores símbolos da cidade é o Hermitage, sobretudo o Palácio de Inverno, residência da czarina Catarina, a Grande que hoje, com a sua fachada verde água, acolhe uma parte do museu.

Com três milhões de peças, diz-se em São Petersburgo que seriam necessários cinco anos para ver a totalidade do Hermitage, mesmo passando só um minuto diante de cada peça. Seja a sala do trono com os seus veludos vermelhos, a escadaria por onde os bolcheviques invadiram o palácio, a coleção de peças em ouro, os objetos do Antigo Egito ou as obras de mestres da pintura e da escultura, de Van Gogh ou Monet a Rembrandt ou Goya, passando por Miguel Ângelo ou Rafael, é impossível enumerar todas as maravilhas postas à disposição do visitante nos cinco edifícios que compõem o museu.

Com o verão a chegar, uma ida a São Petersburgo é não só oportunidade para ver os ovos do Museu Fabergé ou as obras de arte contemporânea russa do Erarta como permite ainda assistir ao espetáculo das noites brancas. Neste início de maio, às 23.00 ainda se pode ver uma faixa de claridade no horizonte, mas em junho o sol quase não se põe.

Em época de Mundial, não falta o que fazer numa cidade com cinco milhões de habitantes e antiga capital do império. Chegada a hora do jogo, quem não tem bilhete pode aproveitar a Fan Zone da praça Konyushennaya, junto à Igreja da Ressurreição do Salvador sobre o Sangue Derramado. Talvez para ver um Rússia-Portugal?

O DN viajou a convite do governo de São Petersburgo

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