À boleia da queda do metical cada um vende ao preço que quer

Governo e Renamo de costas voltadas e produtos de primeira necessidade a subir de preço. Uma dupla crise que pesa na tranquilidade de espírito. E no bolso dos moçambicanos.

Moçambique já teve melhores dias. Os preços dos produtos de primeira necessidade sobem em flecha e os bolsos dos cidadãos estão vazios. Tudo por causa do fortalecimento do dólar norte-americano. No plano político o governo e a Renamo estão de costas voltadas. O diálogo entre as partes é cada vez mais difícil e isso torna o amanhã imprevisível para o moçambicano.

Quando tudo dava a entender que o presidente e o líder da Renamo estavam em vias de se encontrar para desanuviar a tensão, as coisas complicaram-se. Tudo começou com o desaparecimento do líder da Renamo, Afonso Dhlakama, da sua residência na Beira, dias depois de uma operação secreta de desarmamento da sua guarda pessoal.

Alguns homens de Dhlakama entregam-se às autoridades, mas o líder da Renamo não parece preocupado com isso. O governo falou em pouco mais de 200 homens, mas os que foram apresentados à imprensa não chegam a dez. Um comunicado atribuído às Forças Armadas de Moçambique lido pela rádio pública acusou frontalmente as embaixadas de Portugal e dos EUA de estarem na origem da tensão. Nos canais diplomáticos nada surgiu sobre o assunto. O embaixador português, José Augusto Duarte, em contacto com o DN em Maputo, diz não querer falar sobre o assunto, alegando falta de autorização por parte do Ministério dos Negócios Estrangeiros, mas não se mostra preocupado. Os norte-americanos preferiram manter-se em silêncio.

O presidente Filipe Nyusi, que parece distanciar-se do que acontece no teatro das operações militares, com um discurso colorido e próprio de um amante da paz, mandou recado às chefias militares dizendo que as Forças Armadas não devem meter-se na política. Os observadores nacionais que têm sido facilitadores do diálogo entre governo e Renamo preferem não fazer declarações à imprensa.

Nyusi queixou-se de dificuldades para contactar o líder da Renamo. Dhlakama ensaiou a quebra do silêncio de quase dois meses e discursou via telefone para a juventude do seu partido, garantindo que os moçambicanos passariam as festas em paz mas advertindo que, em março, governará o Centro e Norte do país, onde diz ter ganho nas eleições de 15 de outubro de 2014.

A Assembleia da República aprovou uma lei sobre escutas telefónicas sem precisar de autorização expressa de um juiz, com votos da bancada maioritária da Frelimo e fortes protestos da oposição. Algumas correntes de opinião advogam que esta medida visa Dhlakama. Os bispos católicos, preocupados, pediram um encontro com Nyusi.

O dólar baixou ligeiramente, no mercado cambial moçambicano, ao passar de 60 para 47 meticais, mas está em níveis históricos. Os preços não param de disparar e o bolso do cidadão já está roto. São momentos difíceis de aperto do cinto e sem certezas. Ninguém sabe ao certo o que se passa. O governo pouco comunica sobre a crise e tudo o que acontece no mercado está ao nível da especulação, com uma dose de oportunismo à mistura. "Não sou eu. Foi o dólar que subiu", diz um vendedor sobre os preços exorbitantes dos seus produtos.

Até os que nada têm a ver com o fortalecimento do dólar subiram, incluindo cacana, um tipo de verdura que nasce e cresce na natureza, alface, tomate e cebola produzidos nas zonas verdes, na cintura da cidade de Maputo, e no Chókwe, a pouco mais de 200 km da capital moçambicana. A Inspeção-Geral das Atividades Económicas dá tolerância zero à especulação e anunciou penalizações aos infratores, mas nada aconteceu nesse sentido. Cada um vende ao preço que quer em nome da desvalorização da moeda moçambicana em 50% .

O governador do Banco Central, Ernesto Goveia Gove, que aumentou duas vezes em menos de um mês as taxas de juros na tentativa de travar a desvalorização do metical, anunciou um pacote de medidas de curto, médio e longo prazo. Na sequência disso, o dólar abrandou, mas a crise económica não. Em janeiro é esperada uma nova onda de reajustamentos.

No início de 2016, poderão subir as tarifas dos my love, carrinhas de caixa aberta cujos passageiros viajam colados uns aos outros. Estes operadores privados asseguram o transporte de 80% das 900 mil pessoas que afluem diariamente às paragens e ainda não revelaram a proporção do agravamento, mas já deixaram claro que o negócio está a ficar insustentável e que a única via para aliviarem o sufoco será a do aumento dos preços.

O governo já deixou claro que em 2016 vai acabar com o subsídio de combustível. O Orçamento de Estado aprovado pelo Parlamento não prevê este item. Os bancos moçambicanos não têm dólares. O ministro da Economia e Finanças, Adriano Maleiane, falou da limitação do uso de cartões para o pagamento de despesas no exterior, mas ainda não avançou números.

Devido à crise, as exportações caíram cerca de 9% e as importações também. O gás natural e o alumínio, produtos estratégicos, caíram de preço no mercado. Por isso a economia moçambicana vai crescer menos em 2016, dos 7,8% inicialmente previstos para 7%.

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