A bióloga independente que foi a sétima escolha para presidir a Estónia

Kersti Kaljulaid, de 46 anos, é a primeira mulher no cargo. Esteve mais de uma década no Tribunal de Contas Europeu

Não se pode dizer que Kersti Kaljulaid tenha sido a primeira ou a segunda escolha para a presidência da Estónia. De facto, a até agora representante de Tallinn no Tribunal de Contas Europeu só surgiu como candidata de consenso depois de outros seis nomes (dois dos quais femininos) não terem conseguido o apoio mínimo de 68 deputados para serem eleitos para o cargo. Aos 46 anos, Kaljulaid sucede a nove homens e toma hoje posse como a primeira mulher presidente deste país de 1,3 milhões de habitantes.

Durante mais de uma década, Kaljulaid dividiu o seu tempo entre a Estónia e o Luxemburgo, onde fica a sede do Tribunal de Contas Europeu, sendo menos conhecida no seu país do que a maioria dos candidatos que desde agosto tentavam ser eleitos para a presidência. Ciente disto, multiplicou as entrevistas, prometendo "falar com as pessoas" e prestar mais atenção às políticas internas que o antecessor. Toomas Hendrik Ilves, ex-presidente do Partido Social Democrata (centro-esquerda) que cumpriu dois mandatos de cinco anos, foi um porta-voz do ambicioso programa de e-governação do país, defensor da transparência e da responsabilização na nova era digital, além de um crítico da Rússia de Vladimir Putin.

Kaljulaid define-se politicamente como conservadora no que diz respeito à economia e liberal em assuntos sociais, como os direitos da comunidade homossexual ou a imigração. Depois de ter militado entre 2001 e 2004 no partido conservador Pro Pátria, sem nunca contudo ter sido candidata a qualquer eleição, voltou a ser independente.

Sobre o papel de presidente, um cargo que é principalmente cerimonial - o poder executivo pertence ao primeiro-ministro, atualmente o liberal Taavi Rõivas -, diz que deve ser uma pessoa presente. "O presidente não será capaz de providenciar uma solução para cada problema, mas se for capaz de reconhecer, perceber e comunicar o problema, isso já é um grande passo para encontrar a solução. Isto pode ser feito e o presidente precisa de o fazer, de forma responsável e imparcial", indicou, citada pela Estonian World, uma revista online em língua inglesa sobre a Estónia.

Depois de meses de impasse, a nova presidente surgiu como a candidata de consenso do Conselho dos Anciãos do Parlamento (que reúne um representante de cada um dos seis partidos e os líderes da assembleia). A 3 de outubro foi eleita com o voto favorável de 81 dos 101 deputados, não tendo recebido nenhum voto contra.

Bióloga e avó

Kaljulaid nasceu a 30 de dezembro de 1969 em Tartu, a segunda maior cidade da Estónia, tendo tirado o curso de Biologia na universidade local em 1992. A sua paixão era a ornitologia, o estudo das aves, mas cedo percebeu que essa carreira não lhe iria dar a estabilidade económica que necessitava. Enveredou então pela área financeira, trabalhando primeiro como gerente de vendas na empresa estatal de teleco- municações e mais tarde no departamento de investimentos no banco Hansapank, o maior do país.

Em 1999, o primeiro-ministro Mart Laar, que já ia para o segundo mandato, convidou-a para ser sua conselheira económica, cargo que ela ocupou durante três anos. Já depois de tirar um MBA na universidade de Tartu, tornou-se diretora da central elétrica de Iru, que pertence à empresa estatal de energia, tornando-se a primeira mulher a assumir esse cargo, em 2002.

Dois anos depois, quando a Estónia entrou para a União Europeia, Kaljulaid foi escolhida para ser a representante do país no Tribunal de Contas Europeu - responsável por verificar de forma independente a aplicação dos orçamentos dos 28 Estados membros. Um cargo que ocupava até agora (o governo devia ter nomeado um sucessor em maio, mas ainda não o tinha feito) e que conjugava com a de membro da direção da Universidade de Tartu.

A nível pessoal, a nova presidente é casada em segundas núpcias, tendo dois filhos do primeiro casamento e outros dois do segundo. Também já é avó.

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