A bibliotecária, o jornalista, o matemático e outros num Parlamento inexperiente

A nova Legislatura francesa conta com 75% de rostos novos. Uma lufada de ar fresco para uns, mas outros receiam pôr o governo do país nas mãos de tantos deputados novatos.

Typhanie Degois tem 24 anos, está a tirar o mestrado em Direito Internacional e nas legislativas francesas de 18 de junho foi eleita deputada pelo La République en Marche! (LREN) na primeira circunscrição da Savoie. Se não é a mais jovem na Assembleia Nacional - a honra cabe a Ludovic Pajot, da Frente Nacional (FN), 23 anos -, é o exemplo perfeito da "renovação" que o presidente Emmanuel Macron prometeu: é jovem, mulher e vem da sociedade civil. Um perfil que marca a XV legislatura da Quinta República francesa, onde 75% dos eleitos são estreantes, muitos deles eleitos por um partido criado há pouco mais de um ano. Mas se alguns elogiam a chegada de novas ideias, outros questionam tanta inexperiência.

São 424 (num total de 577) os novatos, portanto, no Parlamento francês. Um facto para o qual contribuiu não só a promessa de Macron de dar lugar a representantes da sociedade civil, mas também uma mudança na lei que impede os deputados de acumularem o mandato na Assembleia com outro cargo público. Era comum em França, ter deputados que eram, por exemplo, presidentes de Câmara.

Com tanta gente nova, o perfil do deputado mudou muito em relação a 2012: a média de idade baixou seis anos, de 54 para 48 anos, e há um recorde de mulheres - 224 (38,8%)contra 155, mesmo assim ainda longe da paridade. Também nas profissões há uma mudança: só 29 deputados são políticos profissionais, quando há cinco anos eram 60. Quem ganha são as profissões liberais, incluindo algumas menos comuns no mundo da política, seja jornalista, matemático, enfermeira ou bibliotecária.

Se houve algo que ficou claro tanto nas presidenciais como nas legislativas foi que os franceses estão desejos de mudança. Como se pode ver pelos mais resultados dos partidos tradicionais - mais o PS ainda do que Os Republicanos. E "o que Macron conseguiu foi uma mudança sem violência, uma revolução democrática", admitia ao L"Express o deputado socialista Gilles Savary. Diante das dúvidas de alguns, Annie Chapelier, eleita pelo LREN e no Gard, garantiu à mesma revista que "mesmo sem experiência política, temos consciência da necessidade d agir no interesse dos cidadãos e do papel que nos cabe".

Num editorial, o Le Monde referia-se a esta "soft dégagisme" - a opção dos franceses por afastar os representantes da velha política, sem contudo escolher o extremismo. No mesmo texto, o jornal interroga-se sobre a capacidade dos novos eleitos para "fazer soprar um vento de mudança". Mas recorda que "ninguém nasce deputado, é preciso tornar-se deputado".

Talvez para começar essa formação, os deputados do LREN estiveram ontem reunidos num "seminário de coesão" em Paris, tendo eleito o ex-ministro Richard Ferrand como líder do grupo parlamentar do partido.

Chegada dos tribunos

Em contraponto a tanta juventude e inexperiência, esta Assembleia assiste também à chegada de alguns veteranos da política. Marine Le Pen pode até estar a estrear-se no Parlamento - foi eleita no Pas-de-Calais -, mas a líder da Frente Nacional tem longa experiência política, tendo sido, entre outros, eurodeputada desde 2009.

Quem também conseguiu pela primeira vez assento no Palácio Bourbon foi Jean-Luc Mélenchon. O líder da França Insubmissa, quarto nas presidenciais, com quase 20% dos votos, foi eleito agora por Marselha. Mas a política é a sua vida desde finais dos anos 70, tendo sido senador, ministro e eurodeputado. Tribuno de dotes reconhecidos, muitos analistas antecipam os seus confrontos com Marine Le Pen.

Para já, o primeiro alvo de Mélenchon foi mesmo um novato. Logo nos primeiros dias da nova sessão legislativa, o líder da França Insubmissa decidiu desafiar Cédric Villani, eleito pelo LREN pela 5.ª circunscrição de Essone. "Vi o matemático, vou explicar-lhe o contrato de trabalho, ele vai ficar de queixo caído. Ele não faz ideia o que isso é, não sabe que a jornada de oito horas são cem anos de trabalho", lançou o veterano. Ao que Villani, vencedor da medalha Fields, espécie de prémio Nobel da Matemática, dono de um visual excêntrico (desde 1993 que o usa cabelo comprido, plastrão de seda ao pescoço e alfinete de peito em forma de aranha) respondeu no Twitter. "Caro JLMélenchon, como diretor do IHP [Instituto Henri Poincaré] já vi contratos de trabalho, mas agradeço as aulas particulares!", escreveu o deputado, de 43 anos.

Outros estreantes são François Ruffin, jornalista e documentaristas, que venceu na Somme para a França Insubmissa, o mesmo partido que elegeu Danièle Obono, um bibliotecária parisiense de 36 anos. A ex-toureira Marie Sara, candidata do LREN e uma das que mais atenção mediática teve, perdeu no Gard.

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