10 dolorosas verdades sobre o terrorismo

Quando o terrorismo volta a atacar o coração da Europa - desta vez com um atentado no mercado de Natal em Estrasburgo - é de lembrar os avisos da perita norte-americana Rosa Brooks

No livro "Estratégia de Segurança Nacional", apresentado em maio passado na Universidade Nova de Lisboa, os autores Nelson Lourenço e Agostinho Costa, recordaram as conclusões sobre a ameaça terrorista, de Rosa Brooks, professora da Universidade de Georgetown, ex-conselheira do Departamento de Estado norte-americano e colunista em vários jornais e revistas sobre temas de Segurança.

As 10 dolorosas realidades

1- Não conseguimos manter os "maus" fora das fronteiras

As fronteiras são permeáveis, num mundo globalizado, onde a Europa e os Estados Unidos têm milhares de quilómetros de fronteiras de controlo complexo - pode-se entrar a pé do Iraque e da Síria para a Turquia e daqui para a Bulgária, por exemplo - e quase dois mil milhões de pessoas voaram para aeroportos europeus. Segundo a Europol cerca de cinco mil combatentes europeus do Daesh terão regressado aos seus países, com treino e experiência de combate;

2- A ameaça já está cá dentro

Em 2005 os ataques terroristas de Londres foram realizados por cidadãos britânicos; o ataque na maratona de Boston, por cidadãos norte-americanos e um imigrante com residência permanente; e os sangrentos atentados de Paris, em novembro de 2015, envolveram também cidadãos franceses. Todos os países terão os seus jovens revoltados e a internet oferece-lhes muitas ideologias para justificar o seu ressentimento. Reforçar a segurança nas fronteiras - ou afastar os refugiados que fogem da miséria e da guerra - não ajuda quando a ameaça já está cá dentro;

3- Mais vigilância não nos livra do terrorismo

Aumentar a vigilância tecnológica não resolve por si o problema. Quanto mais informação se recolhe - satélites, drones, emails, telefonemas, internet - mais difícil é separar o ruído do sinal. A Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos interceta milhões de comunicações todos os dias, de acordo com uma investigação do Washington Post, mas apesar de terem programas sofisticados para detetar atividade suspeita, nem tudo é analisado - e muitas vezes perdem tempo com "falsos positivos".

4- Derrotar os Estado Islâmico não acaba com o terrorismo

O Estado Islâmico nem é o grupo terrorista mais mortífero que ataca atualmente: o Boko Haram da Nigéria tem esse título. Por outro lado, antes do daesh havia a Al-Qaeda e antes o Hezzbollah e o Hamas. Além disso, o Estado Islâmico tem as suas "filiais" na Líbia e no norte de África. O Estado Islâmico pode ser atualmente o favorito dos jovens zangados com o mundo, mas se todos estes jihadistas fossem eliminados, o terrorismo não acabaria. Basta lembrar também que os atentados da extrema-direita nos Estados Unidos já mataram mais pessoas que os jihadistas. Em 2011, na Noruega, foram assassinadas 77 pessoas por um extremista de direita Behring Breivik.

5- O terrorismo ainda representa, estatisticamente, uma ameaça menor

Pode não servir de consolação às vítimas ou aos seus familiares, mas pode servir para não alarmar demais todos os outros. De acordo com as estatísticas internacionais menos de 3% das vítimas de terrorismo vivem em países ocidentais. Ficar fora das zonas de conflito - Síria, Iraque, Nigéria e Afeganistão - e a probabilidade de morrer de um acidente de viação ou, nos EUA vítima de um tiro, por exemplo, é muito maior;

6- As coisas podem ficar ainda piores

A inconsequência das políticas ocidentais tem agravado a situação, beneficiando o daesh com algumas opções estratégicas tomadas, em particular a forma com a União Europeia tem gerido a questão dos refugiados. Imagine-se o que poderá acontecer dentro de alguns anos, com as alterações climáticas a provocarem novos conflitos relacionados com recursos naturais e um vasta população a querer procurar no ocidente uma vida melhor;

7- Intervenções militares com resultado duvidoso

A força militar pode ter um papel importante na prevenção e resposta de ataques terroristas, mas quando não se compreende totalmente a dinâmica regional, esse papel pode ser pequeno. Se respondermos aos atentados mandando batalhões de tropas para a Síria e Iraque, tornamo-nos de novo ocupantes estrangeiros e grandes alvos. Se respondermos bombardeando todos os alvos do estado islâmico que pudermos encontrar, o ódio vai crescer ainda mais e chegar a pessoas que nunca tinham pensado em atacar o ocidente - e isto não vai ajudar-nos a fazer novos amigos;

8- Não se pode ganhar a "guerra" contra o terrorismo

Tal como em relação à droga ou à pobreza, a "guerra" contra o terrorismo também não pode ser ganha. É um problema que obriga a uma gestão adequada, em termos de método de atuação e de definição de políticas públicas. Ou seja, apesar de não podermos eliminar totalmente o terrorismo, podem ser adotadas políticas sensíveis para reduzir o risco e os estragos causados pelos atentados. Existem organizações muçulmanas moderadas que oferecem alternativas a interpretações extremistas do Islão, por exemplo; ou aumentar o policiamento de proximidade nas comunidades que são maior alvo para os recrutadores jihadistas; ou ainda procurar formas de incentivar as comunidades e denunciar atividades suspeitas;

9- Mais transparência

Há que adotar políticas de transparência, informação e verdade sobre as políticas de combate ao terrorismo - falar honestamente sobre o custo/benefício das opções tomadas. Podemos atirar contra o terrorismo mais guardas para as fronteiras, bombas, polícias, agentes da NSA e alguns ou todas estas possibilidades podem até, a curto prazo, comprar o risco. Mas qualquer uma destas medidas tem custos também, financeiros, humanos e políticos. Dezassete anos depois do ataque às Torres Gémeas, ainda se sabe pouco sobre qual é a medida de contraterrorismo mais eficaz. Temos de deixar de ser sentimentais e ser tão objetivos e duros a escolher as políticas de contraterrorismo, como as políticas de prevenção dos acidentes rodoviários, que matam milhares de pessoas todos os anos. Quando conseguiremos dizer que somos capazes de reduzir em 85% o risco de atentados se, por exemplo, transformarmos a França ou os Estados Unidos em Estados policiais, mas que preferimos aceitar algum risco de curto prazo do que abandonar os valores que tornaram os nossos países naquilo que são?

10- Não fazer o jogo dos terroristas

É preciso parar de fazer o jogo dos terroristas, pondo de parte políticas emocionais, abandonando discursos de vitimização e deixando de empolar os acontecimentos, noticiando-os até à náusea. A forma mais barata e simples de reduzir os benefícios dos terroristas é mesmo deixar de reagir exageradamente. 137 pessoas morreram nos atentados de Paris, em 2015, mas todos os anos são mortas nos EUA 16 mil pessoas em homicídios, 30 mil em quedas, 35 mil em acidentes rodoviários. Devemos chorar todas as mortes, tomar as medidas adequadas para as prevenir e punir aqueles que intencionalmente as provocam. Mais do que responder a esta ameaça através do hard power (soluções militares, por exemplo) é preciso lidar com este assunto, numa perspetiva de justiça.

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