A rosa radioativa

Nada os preparara para tal inferno. Há 75 anos, as bombas atómicas lançadas sobre Hiroxima e Nagasáqui venceram o que restava da resistência japonesa e puseram um termo brutal à guerra no Pacífico. Mas o sofrimento causado a largos milhares de pessoas prolongar-se-ia ainda por muitas décadas

"Em Hiroxima tu nada viste.", diz o homem japonês à sua amante francesa. Ela responde-lhe que caminhou pelas ruas, que foi ao hospital e várias vezes ao museu em que ficou registada a tragédia ocorrida a 6 de agosto de 1945, quando o bombardeiro norte-americano Enola Gay lançou a primeira bomba atómica da História sobre a cidade japonesa. Vira as fotografias, o alheamento de quem as observava, os escombros das casas e de quem as habitava, mas nada vira, insistia ele. Assim se desenvolve o diálogo de Hiroshima, mon amour, filme de Alain Resnais, com argumento da escritora Marguerite Duras, que, em 1959, deixou em choque o Festival de Cannes.

E não vira. Nem sentira porque o que ali aconteceu só pode ser realmente atingido pelos que lá estavam e sobreviveram. Uma experiência de tal modo infernal para a qual nada - nem mesmo os sacrifícios de quase seis anos de guerra contínua, o elevado número de baixas ou a antecâmara da derrota - os pudera realmente preparar.

Verbalizar o horror

Ao longo das décadas, o clima de perplexidade que a protagonista feminina de Resnais ainda encontrara foi dando lugar à verbalização do horror. Muitos sobreviventes, a maior parte crianças e adolescentes em 1945, aceitaram falar para documentários, livros, trabalhos de investigação realizados por organizações internacionais ou pelo próprio Museu da Paz de Hiroxima. Todos recordam o que faziam no preciso momento em que tudo aconteceu.

Yoshi Muraki era ainda menina e preparava-se para começar mais um dia de aulas. Estava já dentro do edifício da escola quando ouviu o barulho dos aviões B-29 e, em seguida, foi surpreendida por um clarão amarelo muito intenso (parecia talvez uma rosa ou um cogumelo gigantesco) e uma explosão ensurdecedora. Foi projetada no ar e perdeu a consciência. Já Teru Furuta não chegou a desmaiar. Adolescente, integrava então um grupo de estudantes que desenvolvia trabalho cívico de apoio ao esforço de guerra, e preparava-se para iniciar as atividades do dia, quando viu o clarão e ouviu um estrondo que não conseguiu identificar. Foi atirado ao chão, onde ficou deitado protegendo olhos e ouvidos até ter coragem de se mexer. O que viu, ouviu e sentiu mudá-lo-iam para sempre.

A pequena Yoshi Muraki retomou a consciência e demorou um pouco até compreender onde estava. Já não se encontrava na escola onde entrara há apenas alguns minutos e, no entanto, num mundo irremediavelmente perdido. Olhou para o lado e viu um estudante inconsciente com os olhos vazados por estilhaços de vidro. Mas foi ao conseguir libertar-se do monte de escombros para que fora lançada que alcançou a verdadeira dimensão do horror. Desnorteada, começou a caminhar e viu pessoas caminhando em filas, umas atrás das outras, de olhares baços e sem consciência, aparentemente sem saberem para onde iam. Apenas caminhavam em silêncio, por reflexo motor. Quando as olhou com mais atenção, surpreendeu-se ao perceber que todos os que caminhavam estavam nus ou cobertos por farrapos.

O caráter espectral dos sobreviventes à deriva, como náufragos em terra, foi também o que mais impressionou Minoru Yoshikane, que vira o clarão de relance. Aos 18 anos, terminava o ensino secundário e sonhava tornar-se professor, mas a guerra levara-o a colaborar com o esforço produtivo do país, trabalhando numa fábrica. Quando a bomba explodiu, ele e os colegas refugiaram-se no sótão, pensando que se tratava "apenas" de mais um bombardeamento americano: "Cerca de duas horas mais tarde, um dos nossos professores disse-nos que a escola corria perigo e tínhamos que sair para oferecer ajuda, e então dirigimo-nos ao centro." Mas como o encontrar, quando tudo não era mais do que escuridão e pó? "Não restavam casas de pé. Cerca de 90% dos edifícios de Hiroxima ficaram destruídos pela explosão e pelos incêndios que se seguiram."

Hiroshi Hara, de 13 anos, estava numa ilha próxima procurando comida para o seu tio doente quando ocorreu a detonação. No dia seguinte, tentou chegar à escola, no centro de Hiroxima: "O rio estava cheio de corpos. Muitos feridos, queimados, com as orelhas derretidas. Imploravam por água, alguma coisa para beber. Ao verem que eu era estudante, perguntaram para que escola estava indo, se conhecia os seus filhos e filhas. No momento da explosão, muitas crianças, agrupadas por idade e escola, estavam no centro a trabalhar em fábricas ou a construir abrigos. Muitas morreram."

Kumie Kuramoto presenciou o ataque aos 16 anos de idade e guardou impressões muito vivas daquela manhã de puro horror: "Pouco depois das 8 da manhã houve um estrondo, uma explosão luminosa e, no mesmo instante, um clarão de luz amarelo-alaranjado entrou pelo vidro do telhado. Ficou tudo tão escuro como se fosse noite. Um golpe de vento atirou-me ao ar e, em seguida, ao chão, contra as pedras. A dor estava apenas a começar quando o prédio começou a ruir em torno de mim. Quando consegui sair, as ruas estavam tão quentes que queimavam os meus pés."

Um armistício medonho

Com a rendição da Alemanha em maio de 1945, a Guerra na Europa chegava ao fim, mas, no Pacífico, americanos e japoneses continuavam a combater entre si. Por outro lado, entre os ainda aliados Estados Unidos e União Soviética, começava a desenhar-se já o clima de suspeição que haveria de marcar toda a Guerra Fria. A administração Truman era pressionada para pôr um final categórico ao conflito ao mesmo tempo que deveria apresentar ao mundo uma demonstração de força. Na corrida ao nuclear conseguira-se vencer os nazis, importava agora bater os russos, sabendo de antemão que os seus cientistas já trabalhavam nesta área. As décadas seguintes seriam dominadas pelo terror nuclear que teria repercussões na Literatura, no Cinema e nos pesadelos de várias gerações, ensinadas a temer e a odiar os seus semelhantes do outro bloco.

Às 8.09 da manhã de 6 de agosto, o tenente coronel Paul Tibbets, de 30 anos, a bordo do bombardeiro Enola Gay (assim batizado em homenagem à sua própria mãe),que descolara horas antes do arquipélago das Marianas, começou a armar as bombas e entregou o controle do avião ao major Thomas Ferebee. O lançamento às 08:15 (horário de Hiroxima) correu como planeado e a bomba (com o nome de código Little Boy), com cerca de 64 quilos de urânio, levou 44,4 segundos para cair do avião, voando a cerca de 9 mil metros de altitude, e atingir o solo. Três dias mais tarde, a 9 de agosto, às 11h02 da manhã, outro B-29, Bockscar, lançava outra bomba, desta vez de plutónio. Nos meses que se seguiram aos ataques atómicos, os efeitos agudos das explosões mataram entre 90 mil e 166 mil pessoas em Hiroxima e 60 mil e 80 mil em Nagasáqui. Durante anos, muitos outros morreram no maior sofrimento, na sequência de queimaduras, envenenamento radioativos e outros ferimentos. Chamado a pronunciar-se sobre a decisão de lançar tão terríveis armas sobre o Japão, o Presidente Henry Truman, que substituíra, no cargo, Roosevelt, morto em Abril de 1945, terá dito: "Eu percebo o significado trágico da bomba atómica ... É uma responsabilidade terrível que chegou até nós ... Agradecemos a Deus que veio a nós, em vez de ir para os nossos inimigos; e oramos para que Ele nos guie para usá-la em Seus caminhos e para Seus propósitos."

Por sua vez, Paul Tibbets, o homem que comandava a triste missão do Enola Gay, afirmou até ao final da vida que esta era fora um mal necessário para acabar com a guerra. Mas acrescentando que, ao contrário dele, nenhum dos seus homens, naquela madrugada fatídica, conhecia o potencial destruidor do que transportavam. A 15 de agosto, o Imperador Hirohito anunciou finalmente a rendição do seu império. Mas o mundo, que tanto esperara o final da guerra, não voltaria a ter paz.

Mais Notícias