"Um dia chegaram a vir oito pides à minha procura. Só 50 anos depois soube porquê"

À conversa com Dennis Redmont, antigo correspondente da Associated Press em Portugal.

As fotografias com Eusébio equipado a rigor, um Mário Soares jovem e uma Amália balzaquiana estão expostas numa parede da casa lisboeta onde Dennis Redmont hoje vive e testemunham a primeira passagem por Portugal, na década de 1960, quando foi correspondente da Associated Press, a famosa AP. Também há um recorte de jornal que mostra uma imagem de um Dennis de 20 e poucos anos com António de Oliveira Salazar, sob o olhar de Silva Pais, o chefe da PIDE.

Um dia chegaram a vir oito pides à minha procura na nossa sede, que ficava na Praça da Alegria. Pedi proteção à embaixada, mas compareci na António Maria Cardoso para ser interrogado. A típica cena do bad cop, good cop", relembra o jornalista, recorrendo aqui a uma expressão em inglês apesar de estar a conversar em bom português, aprendido entre Portugal e o Brasil. Um general não tinha gostado nada de um artigo a comparar as mortes de soldados nos primeiros meses de guerra em Angola e no Vietname e pressionara para o americano ser mandado embora do país. Mas protegido pela nacionalidade - afinal os Estados Unidos e Portugal eram aliados fundadores da NATO - , nem as oito horas de interrogatório degeneraram em violência física nem a expulsão aconteceu.

"Só percebi o que se passou mesmo meio século depois, quando consultei na Torre do Tombo o meu processo na PIDE", acrescenta o homem que na parede tem ainda fotografias com Henry Kissinger, João Paulo II ou Paul McCartney, testemunho de uma carreira longa e brilhante, sempre ao serviço da agência noticiosa americana. Dessa vontade de esclarecer algumas zonas cinzentas da sua primeira passagem por cá faz parte também uma visita em Setúbal a Rui d'Espiney, estudante cuja tortura pela ditadura foi notícia no International Herald Tribune e no Le Monde graças ao trabalho de Dennis para a AP. O encontro passados 50 anos entre o jornalista e o "o último guerrilheiro maoista da Europa" foi contado por Dennis no Expresso em 2016, quando D'Espiney morreu.

Foi insistência do próprio Dennis a rápida visita à casa onde vive com Zeynep Tinaz, a turca com quem é casado e que continua a trabalhar para a AP como executiva depois de ter sido jornalista durante 20 anos. Aconteceu já no fim do nosso brunch na Boulangerie, que fica mesmo "só a dois minutinhos" da casa. E foi um culminar perfeito de uma conversa de duas horas com o Museu Nacional de Arte Antiga como vista principal.

Reencontrei o Dennis uns dias antes desta conversa num concerto pela pianista Gulsin Onay na embaixada turca em Lisboa. E logo o desafiei para esta conversa, pois há uns 30 anos, tantos como os que tenho de carreira, que ouço pronunciar com admiração o seu nome, mesmo que o primeiro contacto cara a cara seja bem mais recente. É que quando entrei para o DN, a nossa correspondente em Roma era a Manuela Paixão, mãe de Miguel e de Rodrigo, os dois filhos de Dennis. E até foi graças à minha camarada a viver em Itália que, numa ida aos Estados Unidos em 2004, para cobrir as eleições, conheci em Boston os pais de Dennis, o Bernard e a Joan. Eu queria escrever um artigo sobre as elites da Nova Inglaterra, que desejavam ver John Kerry substituir George W. Bush como presidente, e aquele casal liberal de origem judaica (Redmont originalmente era Rothenberg), habituado a viver no mundo inteiro, confortável em várias línguas, era o ideal.

"O meu pai foi um grande jornalista, dos que trabalharam diretamente com Walter Cronkite. Em Portugal, no 25 de Abril, assistiu ao regresso de Mário Soares." De repente recordei-me também de uma parede que Bernard Redmont, então com 86 anos, me mostrou com as fotos emblemáticas da carreira. Em grande plano estava uma dele a caminhar lado a lado com John Kennedy em Paris.

Dennis nasceu em Washington em 1942. Os pais tinham-se casado dois anos antes no México, onde Bernard tinha ido para fazer a reportagem sobre o assassínio de Trotsky, o arquirrival de Estaline. Dennis não esconde a admiração pelo pai, que viveu ainda mais uma década depois da minha visita, e diz-me que ele chegou a ser condecorado por ferimentos na Segunda Guerra Mundial, quando era jornalista incorporado nos marines.

A carreira internacional de Bernard refletiu-se na educação de Dennis. Nascido na América, cresceu primeiro na Argentina de Perón e depois na França, onde estudou até com 18 anos ir para uma universidade americana. "Era a época da Guerra do Vietname, como tinha o pé chato foram adiando a incorporação. Quando parecia ter chegado a hora, e a AP quis mandar-me para lá como repórter de guerra, eu tinha acabado de ser pai e então disseram-me que não valia a pena", conta com absoluta normalidade, enquanto bebe um pouco de água com gás, que já tinha na mesa quando cheguei. Pede depois um croissant, para acompanhar-me enquanto bebo um chá preto e um scone com manteiga.

"Comecei na AP, no turno da noite, em 1963", conta Dennis. "Foi no ano da morte do presidente Kennedy", não resisto a notar. "Sim", diz o jornalista, para logo acrescentar que só soube do assassínio em Dallas horas depois, pois tinha ido dormir a seguir a mais uma longa noitada de trabalho. Tinha sido a facilidade com línguas que empurrara Dennis para o tal turno noturno, muito alimentado por noticiário internacional. Foram também as línguas que o fizeram candidatar-se a correspondente, com Cuba e Portugal como hipóteses e finalmente a escolha a ser Lisboa, confiante de que os conhecimentos de espanhol dariam para os primeiros tempos, até aprender português. E foi em 1965, três anos antes de Salazar cair da cadeira, que Dennis Redmont desembarcou de um avião no aeroporto de Lisboa, hoje chamado Humberto Delgado, em homenagem ao general da Força Aérea que desafiou a ditadura nas presidenciais de 1958. Ora, foi a descoberta do cadáver do oposicionista numa terra espanhola junto à fronteira o primeiro trabalho de fôlego do novo correspondente da AP. Acompanhando até Villanueva del Fresno Mário Soares, jovem advogado que estava ligado a Delgado, Dennis vê o local onde os corpos do general e da sua secretária brasileira tinham sido enterrados pela PIDE e entretanto descobertos. Certamente este episódio e a amizade com Soares explicam a vigilância pela polícia política que culminou com o tal interrogatório do polícia bom e do polícia mau.

Sobre o futuro fundador do PS, que viria a ser primeiro-ministro e Presidente da República depois do 25 de Abril, Dennis realça que na década de 1960 "Soares já mostrava carisma e uma grande coragem física". Dessa época fica também a amizade com Snu Abecassis, fundadora da D. Quixote, a futura paixão dinamarquesa de Francisco Sá Carneiro, vítima como o primeiro-ministro da queda do Cessna em Camarate, em 1980. Por causa dessa amizade, e das ligações também a Natália Correia e Vera Lagoa, Dennis teve direito a originar uma personagem na série televisiva portuguesa Três Mulheres, interpretado ("bem", diz) por Simão Cayatte.

Em 1967, Dennis torna-se correspondente em Itália, e uns anos depois correspondente no Brasil. E é na América do Sul que a revolução portuguesa de 1974 o surpreende: "Pedi para vir cobrir os acontecimentos em Portugal, o fim da mais velha ditadura da Europa. Aleguei que os meus laços com Portugal e falar a língua iriam ajudar. Mas os grandes chefes em New York acharam que eu fazia mais falta no Brasil onde havia uma ditadura militar e se adivinhavam outras nos países vizinhos. Assim a minha vingança foi conseguir uma entrevista exclusiva em 1975 com o general António de Spínola, exilado em Espanha e depois no Brasil. Sabíamos que Spínola viajaria do Rio de Janeiro para Buenos Aires enquanto esperava a resposta brasileira e eu decidi comprar um bilhete em executiva, na altura na AP podia gastar-se esse dinheiro, e viajei com ele na primeira classe. Quando o abordei em português e expliquei quem era, simpatizou comigo e foi a única entrevista que deu sobre o 11 de Março. Os outros correspondentes, que esperavam no aeroporto pelo general nada conseguiram."

De regresso à Europa, Dennis ficou baseado em Roma, chefiando a AP em toda a Europa do Sul. Nunca deixou de fazer reportagem e nos anos 1990 cobriu as guerras na ex-Jugoslávia. A conversa vai longa, e peço um café e a conta, mas ainda há tempo para me contar como passou a acompanhar os temas do Vaticano e a acompanhar o Papa em muitas viagens pelo mundo fora. Pergunto que Papa ou Papas e Dennis responde sem hesitar: "O Papa." É enorme a sua admiração por João Paulo II, Karol Wojtyla, o Papa polaco que teve um papel importante na derrocada do bloco comunista. E Francisco?, pergunto. A resposta é um pouco a fugir, mas chega para perceber que nem o atual Papa argentino nem o seu antecessor, o Papa emérito alemão Bento XVI são para ele figuras ao nível do polaco.

A chegada de Zeynep à esplanada da Boulangerie, cumprimentando-nos antes de se sentar à conversa noutra mesa com umas amigas, turcas como ela, leva-me a desviar um pouco a conversa para o tema do Império Otomano, que, conto a Dennis, teve um historial longo de choque com Portugal, gerador de batalhas em terras distantes. Tudo, acrescento, por causa do comércio de especiarias, que a chegada de Vasco da Gama à Índia em 1498 desviou da tradicional rota terrestre, que atravessava as possessões turcas, para a nova rota marítima, direta a Lisboa, para fortuna de D. Manuel I e desagrado dos sultões. Fico surpreendido por Dennis tomar algumas notas e pedir-me até que repita datas. "Estou a tentar aprender mais sobre a história de Portugal. Também por isso me inscrevi nos Amigos do Museu Nacional de Arte Antiga, pois gosto de por lá passear, entre os quadros, e tentar perceber o passado deste país." Fico a saber ainda que viver em Portugal se deve ainda mais à mulher do que a ele, pois Zeynep adora o Tejo e as colinas de Lisboa, que lhe recordam o Bósforo e a paisagem de Istambul.

A conversa, e isto apesar de ainda irmos a casa ver as famosas fotos, acaba comigo a perguntar a Dennis, americano estrangeirado, o que acha de Joe Biden (nascido como ele em 1942), como presidente dos Estados Unidos e da melhoria de imagem da América. É evidente que prefere o antigo vice-presidente de Barack Obama a Donald Trump, mas mais do que isso: brinca com a fama de Biden de estar velho e um pouco mole, daí a etiqueta de Sleepy Joe, e diz que vale a pena esperar resultados do atual inquilino da Casa Branca, com quem chegou a cruzar-se. E fica combinado enviar-me por mail um artigo que publicou em 2008 sobre Biden, quando este e Obama prometiam melhorar a imagem internacional dos Estados Unidos depois dos dois mandatos de George W. Bush. Quem quiser ver o que Dennis anda a escrever e a comentar sobre a atualidade - tal como Biden, não são os 78 anos que o vão parar - é só ir a www.dennisredmont.com.

leonidio.ferreira@dn.pt

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