Pandemia empurra música para a TV. Mas chega para os artistas e para a indústria?

Os documentários sobre cantores, bandas e géneros musicais multiplicam-se fora de portas e com estreias marcadas a partir de 2021. Um género que está longe de compensar as perdas originadas pela pandemia, antecipa quem conhece o setor.

Os documentários sobre música e artistas estão mesmo para ficar e as apostas de filmes e de streaming para 2021 estão concentradas nas narrativas que recriam a vida e obra de artistas e bandas. E não é só de pop que se fala, pelo contrário, há todos os géneros e gostos musicais.

E se esta opção já vinha a ser explorada, ganhou forte impulso com a pandemia, com a restrição dos concertos e com a necessidade de encontrar novos caminhos para quem vive da música. A solução? Ir para onde estava o público, retido em casa, na sala diante da TV ou do telemóvel e pronto para ver - porque não - música.

Billie Eilish é uma das primeiras a chegar ao streaming, este ano. A Apple TV+ terá pago 26 milhões de dólares (21,5 milhões de euros) pelo filme em torno da intérprete e autora de Bad Guy. The World"s a Little Blurry propõe-se contar a história e ascensão da adolescente até ao topo da indústria. Esperadas são também as produções em torno de Rihanna - estimam-se mais de 1200 horas de imagens da estrela da Pop, da atriz e do trabalho na sua própria marca, a Fenty, a caminho da Amazon - e de Tina Turner, para a HBO. Mas há mais estreias a chegar em 2021 no streaming. Entre elas, The Beatles ou Velvet Underground.

E nem só de artistas ou de bandas icónicas se faz esta reforçada aposta na música que chega através dos distribuidores dos media. Em diversas fases de produção, com agendamentos distintos e a apontar para o futuro, esperam-se mais documentários, que querem explorar, em documentários ou mesmo séries de curta duração, géneros musicais, fenómenos e festivais: o punk rock, o grunge de Seattle, nos Estados Unidos da América, e de onde emergiram nomes como Nirvana ou Foo Fighters, ou mesmo a história do célebre festival Coachella são projetos que estão a ser preparados.

Escolhas nacionais ainda são poucas e olham para o passado

Por cá, também começam a avolumar-se as apostas por parte dos canais em produções biográficas ou temáticas em torno da música. Mas elas são ainda escassas, incomparavelmente menores quando comparadas com a indústria de ficção nacional. Muitas têm decorrido, com frequência, de filmes que se transformam em séries, como se espera, por exemplo, da história feita em torno da primeira girlsband nacional, as Doce. A estreia de Bem Bom tem vindo a ser adiada devido à pandemia, mas tem agregada a si a promessa de uma série de sete episódios a ser exibida na RTP.

Mas esta não é a única aposta neste género. A estação pública revela, no seu Plano de Atividades para 2021, estar a trabalhar com produtores independentes que pretendem explorar o lado da música nacional em documentários. Dos dez projetos enunciados no documento para este ano, um é sobre um artista, Zé Pedro Rock and Roll, e outro sobre o género: Histórias do Fado, relatos feitos por nomes recentes da música nacional, recordando de lugares de memória, em seis episódios. Depois de Eu, Amália, a RTP Memória prepara mais trabalhos biográficos com figuras da música nacional já desaparecidas, como o de Zeca Afonso e Carlos Paião.

Mas porquê o passado? Para lá do acervo de imagens que a RTP tem, há o ciclo vicioso a que a televisão tem de responder: fazer conteúdos para o maior auditório possível. Ora, se este é tendencialmente envelhecido, acaba por se procurar soluções que mais lhes agradem ou nas quais se arrisque menos.

Dos privados, os ecos neste setor são menos audíveis. Pelo menos, por enquanto. E quando o fazem, parecem estar a olhar mais para as novas gerações e para artistas inequivocamente populares. A título de exemplo, o percurso e o trabalho sobre David Carreira, cantor e filho de Tony Carreira, está disponível na nova plataforma de conteúdos de SIC, a OPTO, mas não foi originalmente pensada para essa estrutura, que está a desenvolver acervo documental sobre outras personalidades, entre elas o chef Ljubomir Stanisic.

De volta à música, se lá fora a aposta estes conteúdos televisivos dificilmente vão compensar as perdas económicas dos artistas provocadas pela pandemia, cá tal nem sequer se aplica porque a maioria das estrelas nacionais recentes não gozará dessa oportunidade de rendimento, restando-lhes as redes sociais, os projetos paralelos ou, em pouquíssimos casos, os programas de música nos quais se sentam para serem jurados. Mas e o que ganham com as músicas que são transmitidas nos programas de caça-talentos? "Formatos como o The Voice, o X Factor ou A Máscara têm audiências muito interessantes, mas não se tratam exatamente de programas musicais, têm antes a músico incorporada", distingue o diretor-geral da Audiogest, associação gestora de direitos de autor, Miguel Carretas. Ora, são devidos direitos, claro, aos autores quando a música é cantada ao vivo e aos produtores e artista quando gravada.

Os novos caminhos da música para a sobrevivência

Os documentários feitos fora de portas dão margem aos artistas para rentabilizarem as suas carreiras em tempo de restrições aos espetáculos, mas compensam o que se perdeu em tempo de pandemia? Miguel Carretas crê que não. "A televisão está muito longe de compensar a atividade regular do artista", analisa.

Os espetáculos ao vivo desapareceram e a multiplicidade de concertos transmitidos nas redes sociais, tão comuns no primeiro confinamento, desvaneceu-se neste segundo período de recolhimento. "É evidente que esta pandemia originou, muito pela necessidade, uma busca pela forma como os artistas chegavam digitalmente ao seu público. No início, o que se procurou fazer de uma forma simples foi tentar transpor para o mundo digital um concerto ao vivo tal como ele é", recorda. Soluções que, antecipa o especialista em Direitos de Autor, "não funcionam no pós-pandemia", em que "as pessoas não terão a mesma disponibilidade para remunerar da mesma forma um concerto ao vivo e imitação digital do mesmo".

Por isso, prossegue o diretor-geral da Audiogest, o caminho tem sido o de "aproveitar esta oportunidade para lançar propostas para a comunidade com conteúdos exclusivos". Miguel Carretas fala, com curiosidade, da recente oferta lançada pelos The Gift, a plataforma REV, como uma aposta a ser explorada e analisada. "É uma experiência que é monetizada, uma forma de subscrição para a comunidade que se revê na linha estética dos The Gift, os fãs, que, a preços distintos, têm acesso a conteúdos musicais e não musicais, documentos históricos, sessões de estúdios, seleções musicais e podcasts e entrevistas".

O papel dos documentários nas lutas de Britney e Paris Hilton

É a produção mais badalada do momento e chega a Portugal amanhã, 22 de fevereiro. Framing Britney Spears é o polémico documentário produzido pelo The New York Times para o serviço de streaming Hulu e estreia-se no canal Odisseia, a partir das 22 horas. Um trabalho que revela o tratamento misógino dos media sobre a carreira da princesa da pop e detalhes sobre a disputa legal da artista contra o pai. Jamie Spears, recorde-se, tem detido a tutela legal sobre a carreira, fortuna e mesmo vida pessoal da filha desde 2008, quando foi arredada devido a episódios de instabilidade mental.

Em fevereiro deste ano, o tribunal de Los Angeles deu uma vitória parcial à cantora de êxitos como Baby One More Time ou Ooops! I Did it Again, de 39 anos, obrigando o pai a dividir, em igual medida, a função de tutor legal do património com a empresa de fundos fiduciários, a Bessemer Trust. Esta empresa já tinha sido nomeada para o efeito em novembro de 2020, mantendo o pai como co-tutor. Agora a decisão foi reconfirmada, mas ainda longe dos interesses de Spears: afastar totalmente o progenitor.

Um processo legal longo que, nos últimos sete meses, tem levado dezenas de fãs da cantora a manifestarem-se diante do tribunal e a pedirem justiça para a artista, tendo sido criada inclusivamente o hastag #freebritney (libertem Britney, numa tradução literal).

Um longo processo que está também a ser trabalhado pela Netflix. A plataforma conta com a realizadora Erin Lee Carr, especializada em documentários sobre crimes e que explora a justiça criminal e feminilidade, para abordar o complexo processo que envolve a pop star, mas ainda sem data de estreia.

E se um documentário trouxe, com estrondo, nova luz ao polémico caso de Britney Spears em vésperas de nova decisão do tribunal, um outro, ainda que de forma diferente, fez o mesmo por Paris Hilton, de 40 anos. Em This is Paris, lançado em setembro de 2020, a socialite, herdeira da cadeia de hotéis Hilton, ia além da sua persona nos media e contava detalhes traumáticos da infância. Revelações que, menos de meio ano depois, a sentaram no State Legislature do Utah para pedir aos legisladores que mudassem o enquadramento jurídico que rege as instituições educativas.

Num processo que interpôs ao internato que frequentou, a Provo Canyon School, Paris revelou, com detalhe, que tinha sido "abusada verbal, mental e psicologicamente todos os dias". "Fui isolada do mundo exterior e dos meus direitos humanos. Sem prescrição médica, fui obrigada a tomar medicação que me deixava tonta e exausta", contou. E acrescentou: "Não respirei ar puro ou vi a luz do sol durante 11 meses. Não havia privacidade, cada vez que queria ir à casa de banho ou tomar banho era controlada." A socialite pediu, naquela audiência, para que o recém-empossado presidente, Joe Biden, tome medidas claras para regular e fiscalizar as instituições de forma a que outras crianças não passemos traumas semelhantes.

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