O Brasil pós-Jô. Geração de humoristas toma o comando

Fábio Porchat e Marcelo Adnet estreiam os seus novos talk shows hoje e amanhã na TV brasileira. Danilo Gentili lidera programa há apenas dois anos. Todos reverenciam o "Gordo"

"O Jô Soares é tão incrível que precisa de três para ocuparem o lugar dele", disse recentemente Fábio Porchat, a propósito dos novos talk shows da televisão aberta no Brasil, em mais um sinal de reverência ao decano titular do icónico Programa do Jô, a meses do fim da sua 28.ª e última temporada. Porchat, de 33 anos, estreia-se hoje na Rede Record, segundo canal mais visto no país, com o Programa do Porchat. No dia seguinte, começa o Adnight, novo projeto de Marcelo Adnet, 34 anos, na líder TV Globo, a mesma de Jô. Juntam-se os dois a Danilo Gentili, 36 anos, apresentador do The Noite, do SBT, terceira emissora no ranking das audiências, em exibição desde 2014.
Mas não é só Porchat que tira o chapéu ao "Gordo", como Jô Soares é carinhosamente conhecido e tratado. "É o meu apresentador de referência em talk e late shows, gosto também do John Oliver [apresentador inglês do americano de Last Week Tonight with John Oliver, da HBO] pela inteligência, e de Jimmy Fallon [do The Tonight Show, da NBC] pela dinâmica", diz Marcelo Adnet, ator formado em jornalismo. "Dá uma dor no coração saber que é a última temporada dele. Se hoje tenho um talk show é porque cresci a assistir ao Jô", afirma, por sua vez, Danilo Gentili, que antes do The Noite, no SBT, já apresentara entre 2011 e 2013 o entretanto extinto Agora É Tarde, na Rede Bandeirantes.
Para Maurício Stycer, crítico de televisão do grupo UOL, nenhum dos três tem, porém, o estilo de Jô. "O estilo de todos, dos dois que começam e do Gentili, que já está em ação, será diferente do do Jô, um apresentador mais tradicional, que comandava, acima de tudo, um programa de entrevistas, porque o Programa do Jô era mais um talk do que um show e os dos três é mais um show do que um talk", frisa o crítico.
De facto, em entrevista ao suplemento Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo, Adnet concorda com a definição do seu programa. "É humor com muito amor e, sim, será mais show do que talk", mas ainda assim com cinco minutos de "bate-papo" com um convidado, intercalado por 40 minutos de músicas, sátiras e brincadeiras. Considerado pela imprensa e pela opinião pública como o substituto de Jô, tanto ele como a própria Globo fizeram questão de o contestar. Por isso, além do formato diferente, o programa de Adnet será semanal e não diário, como é o Programa do Jô, e complementar, durante os primeiros meses, ao do veterano apresentador na grelha da estação.
O Programa do Porchat, por seu lado, desperta curiosidade porque o perfil do ator, cocriador e roteirista do bloco humorístico Porta dos Fundos - irreverente, incorreto, transgressor - não condiz com a conservadora Rede Record, propriedade da Igreja Universal do Reino de Deus. "A assinatura do contrato foi uma novela bíblica", disse Porchat no dia do anúncio, brincando com a temática habitual da dramaturgia do canal - Os Dez Mandamentos, Sansão e Dalila ou A Terra Prometida. "A Record conversou comigo, a perguntar se eu tinha interesse. A princípio não tinha mas, depois, um talk show diário do meu jeito na TV aberta interessou-me para atingir um público que não me conhece do Porta dos Fundos ou da minha peça Meu Passado Me Condena", justificou o humorista.
Mais do que pertencerem à mesma geração, Porchat, Adnet e Gentili são amigos, o que atenua o clima de rivalidade criado desde já em seu redor. É provável, por isso, que até dialoguem entre si, de programa para programa. "Eu e o Porchat vamos manter o diálogo, quanto mais não seja pelo WhatsApp. Adoro o Fábio, conhecemo-nos há anos, é superengraçado, sempre tivemos uma boa relação. Agora não será diferente", frisa Adnet. Os dois tiraram até uma foto juntos, difundida sem parar nas redes sociais em dezembro último, com a legenda "feliz 2016, Gentili", numa provocação ao já estabelecido apresentador do The Noite.
"Vou fazer piada com o Porchat, de certeza. Começar por perguntar se ele ficou crente", respondeu Gentili, aludindo ao carácter religioso da Record. "Mas no Brasil não há muito a cultura dos EUA, onde os programas conversam uns com os outros, o [Jimmy] Kimmel com o [Jay] Leno, o [Conan] O"Brien no programa do [David] Letterman...", conclui.
Curiosamente, Adnet e Porchat foram os primeiros convidados de Gentili no Agora É Tarde e no The Noite, respetivamente. "São meus amigos e excelentes profissionais, vou assistir aos seus programas e torcer por eles de verdade", diz à imprensa no estúdio do SBT, onde grava o seu programa. O mesmo estúdio onde Jô começou a onda de talk shows à brasileira, nos anos 90 do século passado, com Jô Soares, Onze e Meia, antes de trocar a TV do magnata Sílvio Santos pela Globo.

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