Larry King, o americano que entrevistou o mundo em suspensórios

A saúde já frágil de um dos mais célebres apresentadores de televisão norte-americanos não aguentou as complicações da covid-19. Tinha 87 anos e passou 25 na CNN. Deixa horas e horas de entrevistas com os mais importantes nomes da política, artes e entretenimento.

A imagem era icónica e ajudou à lenda: enxuto, mangas arregaçados e suspensórios. Larry King fez escola com as suas entrevistas na CNN, em que preferia a sedução ao ataque. Falou com toda a gente que importava. E houve quem passasse a importar por se ter sentado à frente dele do outro lado da mesa.

Morreu este sábado, aos 87 anos, vítima de complicações decorrentes da covid-19, depois de ter sido internado na última semana de dezembro de 2020 no hospital Cedars-Sinai, em Los Angeles, Califórnia. A saúde do apresentador era já frágil. Na última década superou um ataque cardíaco que o deixou em coma por várias semanas, dois cancros - do pulmão e da próstata - e sofria de diabetes.

A notícia da morte de Larry King foi confirmada pela Ora TV, a estação de televisão online que ajudou a fundar em 2012 e onde continuou as suas entrevistas, após 25 anos na CNN.

Como lembra o comunicado da Ora TV, Larry King passou 63 anos ao serviço da comunicação - entre rádio, televisão e media digitais. "Embora o seu nome aparecesse no título dos programas, Larry olhava sempre para os entrevistados como as verdadeiras estrelas e para si mesmo como um mero condutor entre convidado e audiência". Lembram o que é impossível refutar: "As entrevistas de Larry, seja no Larry King Live, na CNN, ou nos seus programas na Ora Media Larry King Now ou ou Politicking with Larry King são referidos por meios de comunicação de todo o mundo como parte da história do final do século XX e início do século XXI. Realizou 50 mil entrevistas.

Nos tempos áureos, "Larry King Live" chegava, todos os dias, a 1,5 milhões de espectadores. Quando terminou, em 2010, as audiências tinham encolhido, mas era o programa da CNN mais antigo da televisão sempre com o mesmo anfitrião. Na derradeira noite, o então presidente dos EUA Barack Obama deixou o elogio a King: "Abriu-nos os olhos para o mundo para lá das nossas salas de estar".

Não frequentou a universidade, aprendeu o que podia na rádio.

Lawrence Harvey Zeiger nasceu em Brooklyn, Nova Iorque, em 1933, numa família judia de emigrantes austríacos e bielorrussos. Cresceu na sinagoga, mas, já adulto, assumiu-se agnóstico. Com 11 anos perdeu o pai e a família passou a viver de ajudas estatais. Começou a trabalhar para ajudar a família após o secundário. Não frequentou a universidade, aprendeu o que podia na rádio.

A vontade de trabalhar como apresentador de rádio levou-a até à Florida quando tinha pouco mais de 20 anos. Reza a história que minutos antes de falar aos microfones, lhe pediram que mudasse o apelido para algo "menos étnico". Um anúncio num jornal ao King"s Wholesale Liquor deu-lhe a resposta. Ficou King (rei).

Foi a ele que políticos e celebridades recorreram para contar o que não revelavam a ninguém

O currículo do apresentador inclui todos os presidentes dos EUA desde Gerald Ford (o presidente que sucedeu a Richard Nixon depois da demissão deste), a conversa conjunta entre o líder palestiniano Yasser Arafat, o primeiro-ministro Yitzhak Rabin e o rei Hussein da Jordânia, entrevistas a Martin Luther King, Vladimir Putin, Jerry Seinfeld, Bill Gates, Lady Gaga, LeBron James, Paris Hilton ou Margaret Thatcher.

Larry King nunca se assumiu como jornalista (e os jornalistas, críticos da sua forma branda de entrevistar, agradeciam), mas foi a ele que políticos e celebridades recorreram para contar o que não revelavam a ninguém - Ross Perot anunciou-lhe a candidatura à Casa Branca, Martha Stewart deu-lhe a última entrevista antes do julgamento por fraude que a condenou a uma pena de prisão.

Foi também a Larry King que Frank Sinatra e Marlon Brando, muito ciosos da sua privacidade, aceitaram dar entrevistas. Dois marcos na sua carreira, dizia Larry King.

Gostava de fazer perguntas curtas e dizia que raramente preparava entrevistas preferindo assumir-se como uma pessoa curiosa diante de outra. "Há muitos apresentadores que recitam três minutos de factos antes de fazer uma pergunta. Eu acho que o convidado deve ser o especialista", escreveu no livro de memórias, "My Remarkable Journey" (2009). Quando deixou a CNN em 2010, o lugar de Larry King foi ocupado pelo britânico Piers Morgan. Não gostou e fê-lo saber. Acusou o sucessor de se ter "vendido" às audiências e de o programa ser demasiado sobre ele próprio.

Piers Morgan, cujo programa só viveu três anos, lembrou o episódio este sábado no Twitter. "Larry King foi um dos meus heróis até que nos desentendemos quando o substituí na CNN ele disse sobre meu programa que era como ver a sogra atirar-se num abismo com o novo Bentley (ele casou-se oito vezes portanto era um especialista em sogras). Mas era um brilhante apresentador e entrevistador".

Depois da CNN, Larry King co-fundou a Ora TV, colaborou a plataforma de streaming Hulu e com a RT, a cadeia de televisão estatal da Rússia.

Casou-se oito vezes

Fora do ecrã, a sua vida era tão ou mais interessante do que a daqueles que entrevistava. Nos anos 70, viciado em jogo, declarou falência por duas vezes e foi acusado de fraude fiscal. Por causa disso, a carreira na rádio sofreu um revés do qual só recuperou em 1978. Em 1985, Ted Turner convida-o para fazer o "Larry King Live" na CNN.

Casou-se oito vezes (com sete mulheres), divorciou-se outras tantas, e teve cinco filhos. Dois morreram no espaço de menos de um mês em 2020 - Chaia, 51 anos, de cancro do pulmão, em julho; Andy, 65, de ataque cardíaco, em agosto. Sobrevivem Larry Jr, Chance e Cannon, guardiões do legado do rei das entrevistas.

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