As vidas incríveis dos vencedores dos prémios Pulitzer

Começaram em pequenos jornais regionais ou desportivos, mas foi no meio de conflitos armados que mostraram a excelência. Estas são as histórias dos nomes maiores do jornalismo em 2016

São jornalistas e fotojornalistas, cartoonistas, homens e mulheres, casados e pais de família, oriundos da Grande Maçã mas também do Kansas e do Minnesota, ou até de São Paulo, no Brasil. É raro encontrá-los na morada que consta nos seus cartões de identificação.

Mais fácil será encontrá-los no centro dos conflitos armados ou, agora, a acompanhar os refugiados na sua fuga agonizante em direção à Europa. No centenário dos prémios Pulitzer - que premeiam a excelência no jornalismo norte-americano - são estes os nomes - e as histórias - de pessoas simples que fazem um trabalho extraordinário.

Maurício Lima, Sergey Ponomarev, Tyler Hicks e Daniel Etter, do jornal The New York Times, venceram o prémio de melhor fotografia de notícias de última hora. Todos são fotógrafos já premiados - alguns já tinham sido indicados para vencerem o prémio no passado - e ganharam com imagens relacionadas com a crise dos refugiados.

Alissa J. Rubin, também do The New York Times, venceu o prémio de reportagem internacional ao contar as histórias de vida das mulheres afegãs - o resultado de vários anos a cobrir os conflitos no Médio Oriente. Alissa, que foi correspondente do jornal norte-americano em Bagdade e Cabul, é praticamente uma veterana de guerra. Em 2014, quase morreu quando o helicóptero em que viajava - acompanhava então a guerra no Norte do Iraque - se despenhou, causando a morte do piloto e causando ferimentos graves em todos os ocupantes. Apesar de gravemente ferida, Alissa não deixou de enviar a sua reportagem. Ao seu lado, no helicóptero, seguia também Vian Dakhil, atualmente a única representante da minoria étnica yazidi no Parlamento iraquiano.

Alissa não foi sempre uma reputada jornalista a trabalhar para um dos mais influentes jornais da imprensa mundial. Durante quatro anos trabalhou como repórter num jornal do Kansas. Foi sempre genial e peculiar. Nascida e criada em Nova Iorque, faz parte da Phi Beta Kappa, a mais antiga sociedade de honra nas áreas da ciência e artes liberais dos EUA. Este prémio vem juntar-se a muitos outros, que venceu com trabalhos acerca de mulheres bombistas suicidas ou sobre o aborto.
Houve mais mulheres distinguidas: Leonora LaPeter Anton venceu na categoria de reportagem de investigação, com um trabalho sobre a escalada de violência e negligência em hospitais psiquiátricos da Florida. Repórter no Tampa Bay Times, as suas histórias abordam temas surpreendentes, como a do casal falido que aluga quartos na sua mansão de luxo ou o rapaz que acusa a namorada de o ter violado. Cresceu entre o Connecticut, nos EUA, e a Grécia.

Depois do ataque terrorista ao jornal satírico Charlie Hebdo, a 7 de janeiro de 2015, o mundo ficou mais atento ao poder dos cartoons. Os desenhos criados por Jack Ohman para o The Sacramento Bee - num "estilo sofisticado que combina linhas a negrito com cores e texturas subtis" (como descreve o júri) - valeram-lhe o Pulitzer na categoria de cartoon editorial - um dos seus trabalhos premiados foi publicado um dia após o ataque. No desenho pode ver-se um grupo de terroristas armados em frente ao profeta Maomé que segura o Alcorão na mão e questiona: "Mostrem-me a página onde diz que é para matar cartoonistas." Nascido no Minnesota, já escreveu dez livros, quatro deles sobre pesca à linha e os seus cartoons são publicados em 200 jornais.

Maurício Lima, que já compararam ao lendário fotógrafo Henri Cartier-Bresson, é fotógrafo documental e muitos dos seus trabalhos têm sido publicados no The New York Times. Nasceu no Brasil, mas tem viajado por todo mundo: Afeganistão, Iraque, Líbia, Portugal, Ucrânia e Síria, onde acompanhou os refugiados na sua fuga para a Europa - foram estas as imagens que lhe valeram o Pulitzer. A sua carreira começou em 1999, num jornal local em São Paulo. Finalista do Pulitzer, em 2015, com a série de fotografias "Fragmentados: O custo humano da guerra na Ucrânia", as suas imagens foram por diversas vezes consideradas imagens internacionais do ano.

Em 2003, no Iraque, conheceu um rapaz - Ayad - que tinha perdido 80 por cento da visão, durante um ataque dos soldados norte-americanos. Fotografou-o. Em 2005 soube que, após a publicação das fotos, uma família americana foi ao Iraque buscar Ayad e pagou a sua operação nos olhos. Nunca mais o viu, mas guarda as imagens que lhe tirou, ampliadas, para lhas entregar.

Tyler Hicks, vencedor na mesma categoria de Maurício, é fotógrafo sénior do The New York Times. Hicks começou com um contrato em 1999, como correspondente no Quénia. Foi depois de ver as atrocidades no Kosovo que decidiu deixar o seu trabalho no The Wilmington Star- News para tentar uma carreira internacional. Viveu com uma família kosovar e esteve e cobriu a guerra entre a Eritreia e a Etiópia.

Em março de 2001, o nome de Tyler Hicks era um de quatro jornalistas desaparecidos na Líbia. Estavam ao serviço do The New York Times, a cobrir a revolução. Depois de seis dias de cativeiro, foram libertados. No ano seguinte, em fevereiro de 2012, em trabalho na Síria, Hicks trabalhava ao lado de Anthony Shadid, o correspondente de Beirute para o jornal norte-americano, quando Shadid morreu de um ataque de asma, devido a uma forte alergia a cavalos, desconhecida até então. Hicks ajudou a transportar o corpo do jornalista e amigo até à fronteira da Turquia e escreveu, com base nas anotações do colega, o artigo que este ansiava enviar. Em homenagem e porque o trabalho de um jornalista não é em vão.

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