Turismo. Há nova vida no Tejo e até os golfinhos aparecem

Na ausência de turistas, as centenas de embarcações que ofereciam passeios no rio ficaram sem clientes. Agora, com o fim do estado de emergência, as empresas piscam o olho aos nacionais com promoções nos passeios e outros atrativos para reforçar a ligação ao Tejo.

Para quem se diz "biólogo marinho falhado" esta vida que leva, aos comandos de um dos mais antigos operadores náuticos e marítimo-turísticos do Tejo, não é nada má: navega no rio, apanha sol, sente o vento na cara e até vê golfinhos. Bernardo Queiroz, diretor-geral da Terra Incónita, tem-se fartado de publicar nas redes sociais fotografias e vídeos dos golfinhos que tem visto nas águas do estuário e essa é uma das novas apostas da sua empresa, que se tem ressentido da falta de turistas por causa da pandemia. "Temos vivido das nossas reservas", conta este amante da vida selvagem que se formou em economia para ficar com uma "sachola" para o futuro.

"Trabalhei três meses numa consultora e chegou-me. Pus logo o fato e gravata de lado. E venha o fato de banho, o sol, os barcos e o mar", lembra Bernardo, que há 25 anos abriu a Terra Incógnita com um amigo, depois de cada um deles ter pedido ao banco um empréstimo de "três mil contos" (o equivalente a 15 mil euros) para comprarem o primeiro barco. Nessa época tudo era diferente. Praticamente não havia escolas de vela e as que existiam não tinham barcos cabinados para adultos. Foram até França, que era o país de referência da náutica na Europa, viram como se fazia por lá e escolheram os First Class 8, da Beneteau, "que eram uns barcos muito sólidos, rápidos e divertidos de andar".

Daí aos eventos corporativos, com atividades em barcos à vela para empresas, foi um instante. "Ainda não havia boom turístico em Lisboa, mas havia turismo empresarial", lembra, sem problemas em admitir que quando se deu a grande explosão de turistas na capital, há cerca de seis anos, não se renderam imediatamente. "Não era o que nós queríamos. É um bocadinho encher camionetas, levar pessoas a passear e descarregá-las. Nós somos amantes da vela, do mar, e não é tanto o beber o copo de vinho e comer queijinho a ver o Padrão dos Descobrimentos e a Torre de Belém", justifica.

Mas a dada altura o negócio à volta do turismo era tão grande no Tejo, com dezenas de operadores a surgir, que a Terra Incógnita acabou por alinhar. "Tínhamos os meios, tínhamos o staff, fazia sentido", diz Bernardo Queiroz. "E foi uma parte importante do nosso negócio nos três anos antes da pandemia. Os eventos corporativos e o turismo individual eram uma componente muito forte da nossa faturação e que foram completamente ao ar. Representava 70/75% da nossa faturação", conta. Com a pandemia, essa componente ficou a zeros.

Menos operadores e menos barcos no rio

Cláudia Martins, uma das sócias da Tagus Cruises, situada na Doca do Bom Sucesso, lembra-se bem da falta de movimento na empresa e ali na zona de Belém quando lá começou a trabalhar. De repente, tudo mudou. Os turistas atropelavam-se e os operadores náuticos e marítimo-turísticos no Tejo multiplicaram-se. "Todos os anos apareciam barcos novos, eu já nem conseguia acompanhar.

Provavelmente com a pandemia alguns podem ter fechado atividade", especula. Ricardo Medeiros, administrador do Porto de Lisboa para a área marítimo-turística, tem os números: em 2020 havia 75 operadores e um total de 146 embarcações dedicadas a este setor de atividade no Tejo (menos 20 operadores e menos 37 embarcações que no ano anterior).

"Esta área sofreu muito com a pandemia. A atividade esteve praticamente suspensa entre março e junho", diz o administrador, referindo-se ao confinamento do ano passado, após o qual o setor conseguiu "reimaginar-se" e apresentar novas ofertas. Com as medidas da Administração do Porto de Lisboa para apoiar este setor, entre elas a isenção de estacionamento em doca durante quatro meses e nivelamento das taxas nas quatro docas, as expetativas de Ricardo Medeiros para 2021 são otimistas, contando este responsável que os números de operadores e embarcações se aproximem dos que existiam antes da pandemia.

Mas as dificuldades têm sido grandes. Com a maior parte da faturação a vir dos passeios fluviais no Tejo, com três horários por dia praticamente todos preenchidos por turistas estrangeiros, a Tagus Cruises, sofreu quebras na ordem dos 70% em 2020. "Se calhar mais", admite Cláudia Martins.

"Quando começou a pandemia nós já tínhamos muitos passeios confirmados para o futuro. Tivemos de cancelar tudo, reembolsámos completamente as pessoas e às vezes até demos descontos para voltarem", explica. Além dos passeios de barco que permitem ver os ex-libris de Lisboa a partir do Tejo por preços que variam entre os 25 e os 45 euros, a empresa permite o aluguer de veleiros ou catamarãs para ocasiões especiais. "Há despedidas de solteiras que têm sido constantemente adiadas e as pessoas acabam por desistir e vão fazer outra atividade", constata Cláudia Martins.

Redescobrir o ar livre e o desejo de fazer diferente

Esta sócia da Tagus Cruises não tem dúvidas de que "2021 está pior que 2020". "Não temos muitas reservas para o futuro. As pessoas já têm medo de arriscar, não sabem como estará a situação. O cenário está mais negro porque não há previsões", diz. Por isso, agora contam mais com o mercado nacional e com a vontade dos portugueses em descobrir novas atividades ao ar livre, como a vela. "Há muita procura. As pessoas estão desejosas de sair, fazer coisas diferentes, mas também vai haver muita competição de preços baixos para captar o negócio", adianta esta responsável da Tagus Cruises.

Mal a escola de vela teve ordem para reiniciar, Bernardo Queiroz sentiu essa "apetência muito grande dos portugueses e de expatriados que vivem em Portugal" para a modalidade. Só que esta vertente apenas representava 25% da faturação da Terra Incónita e sem os turistas estrangeiros para fazer os passeios turísticos no Tejo, os golfinhos foram a forma deste operador piscar o olho aos nacionais. Em miúdo, o diretor-geral da empresa sonhava em ir às Bahamas para nadar com estes cetáceos e agora tem-nos visto praticamente todos os dias no estuário do rio, onde a água está mais limpa, há alimento com fartura e tem havido menos movimento e ruído de embarcações.

Em 2020 havia 75 operadores e um total de 146 embarcações dedicadas a este setor de atividade no Tejo.

"Posso dizer que a taxa de avistamento é de 95%. Se não for dentro do rio, porque depende das marés e outros fatores, entre Costa da Caparica, Fonte da Telha, Cascais, a saída da barra, aqui nesta zona há sempre animais, encontramos sempre", garante Bernardo Queiroz, que pretende desenvolver parcerias e projetos que ajudem a preservar os golfinhos do Tejo. Os passeios de dolphin watching acontecem às sextas, sábados e domingos de manhã com o preço promocional de 48 euros por adulto.

Para rentabilizar a frota, atracada na doca de Santo Amaro, a Terra Incógnita aposta noutra novidade, a pensar nestes tempos em que se vive numa bolha: o aluguer de barcos para férias. "Não há nada melhor que estar com a família dentro do barco, não há elementos externos, os únicos são as tripulação e são testados", diz Bernardo Queiroz. O preço total pode oscilar entre os 3500 e os 5500 euros para dez pessoas. "Estamos a falar de 550 euros a pessoa por semana. O valor 5500 é alto, o valor 550 por uma pessoa durante uma semana já é possível para a classe média, para os portugueses, e temos tido uma aceitação bastante grande", diz.

Barcos com imagem de marca

A Nossa Tejo tinha apenas dois barcos, peças de museu, e ainda antes da pandemia já estava a preparar uma novidade que chegou agora: três exemplares de uma embarcação desenhada à imagem dos elétricos de Lisboa. Os Water Tram vão funcionar em várias modalidades: como hop-on hop-of, como barco-táxi e como carreira vai-vem entre a recém inaugurada estação sul e sueste, no Terreiro do Paço, e Belém. Além disso, ao pôr do sol, farão passeios no Tejo.

"Com estas embarcações queríamos piscar o olho mais ao público nacional", admite Diogo Costa, um dos sócios da Nosso Tejo, fundada em 2016. O negócio dependia completamente do turista estrangeiro - só 2% dos clientes eram nacionais -, pelo que o impacto da pandemia foi gigantesco. "Em 2020 tivemos o melhor primeiro trimestre de sempre e ainda assim tivemos uma quebra de 85%. Se não tivessemos tido este melhor primeiro trimestre de sempre e tivessemos tido um trimestre exatamente igual ao de 2019 teríamos tido uma quebra de 91%", constata o gestor, que mudou de vida após três anos de serviço numa multinacional no Luxemburgo.

O sócio, Rui Rosado, formado em engenharia do ambiente, viveu e trabalhou 13 anos em Angola e quando voltou a Portugal seguiu a tradição marítima do avô e bisavô. Juntos, na Nosso Tejo, apostaram num "produto único e ímpar", as embarcações tradicionais do rio. "O Tejo era a grande autoestrada de comunicação e transporte de mercadorias e pessoas, e estas eram as embarcações que abasteciam a cidade. Havia cerca de 400 tipos de barcos diferentes, com diferentes funções. Com a construção da ponte 25 de Abril as embarcações deixaram de ser necessárias, houve uma evolução do transporte rodoviário e cairam em desuso", conta.

Atualmente, existem apenas sete embarcações de grande porte e duas são da empresa: um bote-fragata de 1947 e um varino do século XIX. Estão registadas como polo vivo do Museu da Marinha e aguardam o regresso dos turistas para recomeçarem os três passeios diários pelo Tejo. Os portugueses também são bem-vindos, mas, sabe-se lá porquê, não têm mostrado interesse pelos barcos de antigamente.

Chegar às duas margens do rio

À imagem daquilo que aconteceu na capital, com quatro docas de recreio, a Administração do Porto de Lisboa pretende alargar o crescimento da atividade marítimo-turistíca a outros concelhos banhados pelo Tejo, tanto na margem norte como na margem sul.

"Queremos levar operadores para o lado de lá e criar pontos de atracação", diz Ricardo Medeiros, administrador da APL para este setor de atividade, lembrando que já há mais de um ano foi assinado um protocolo que permite às embarcações tradicionais de outros concelhos atracarem gratuitamente em Lisboa. "A pandemia atrasou ou abrandou algumas iniciativas, mas acho que não travou a linha de fundo deste projeto", admite o responsável.

sofia.fonseca@vdigital.pt

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