PSP com desafios acrescidos porque a criminalidade não desapareceu

A fiscalização do cumprimento das restrições do estado de emergência e as alterações legislativas aumentaram o trabalho da polícia, até porque continuam a existir outras ocorrências.

Apesar da pandemia nós continuamos a trabalhar. Nós não deixamos de acorrer a uma denúncia, seja de violência doméstica, seja de ofensa à integridade física, seja um furto... Qualquer tipo de ocorrência, a PSP vai continuar a responder", garante o chefe João Dias, da 1.º Divisão da PSP de Lisboa, imediatamente antes de fazer um briefing aos elementos que de seguida irão para o terreno, ali perto, para mais uma ação de fiscalização de cumprimento das regras impostas pelo SARS-CoV-2. O destino é a praça do Martim Moniz e a Rua do Benformoso. O objetivo é verificar o cumprimento das normas, tanto pelas pessoas como pelos estabelecimentos comerciais.

"A pandemia trouxe-nos desafios acrescidos ao nível do serviço que normalmente fazíamos. Continuamos a fazê-lo, as ocorrências continuam a acontecer, e ainda fazemos trabalho acrescido relacionado com a covid-19, com constantes alterações legislativas", salienta o chefe. Mas, numa altura em que a curva do número de infetados ainda não tinha descido para níveis minimamente tranquilizadores, as operações policiais no âmbito do estado de emergência foram intensificadas. "Inicialmente, numa fase inicial da pandemia, de uma forma mais pedagógica e de sensibilização. Atualmente, além da pedagogia, de forma assertiva também. Temos levantado dezenas de autos de contraordenação por infrações várias à legislação covid", nota, sem avançar números.

Coube ao ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, revelar, que só em janeiro e fevereiro deste ano foram aplicadas 13 300 contraordenações, enquanto em todo o ano de 2000 foram registadas 5000. Um dado que mostra o "esforço" das forças de segurança para ajudar a conter a covid-19. Na praça do Martim Moniz, que fica mais vazia mal chegam os carros da PSP, é necessário interpelar algumas pessoas que teimam em não obedecer às regras, nomeadamente à proibição de ali não permanecer. Numa situação ou noutra, a chamada de atenção deriva numa conversa mais acalorada. Nem todos cumprem de bom grado a legislação em vigor. "Uns por desconhecimento, outros porque não acreditam na crise que estamos todos a enfrentar, outros porque discordam das alterações legislativas...", comenta o chefe João Dias.

Na rua do Benformoso, inspeciona-se a lotação dos estabelecimentos, a existência de álcool gel à entrada, o uso de máscaras, se há ou não venda ao postigo de artigos proibidos, o consumo de álcool na via pública, mas aproveita-se para verificar outras exigências, como a sinalética legal ou a altura a que está colocado um extintor. "Nós, como qualquer bom polícia, temos de conhecer a nossa área", neste caso as freguesias de Arroios, Santa Maria Maior, Santo António e Misericórdia.

"Hoje estamos a fazer uma operação desde manhã bem cedo e já foram levantados vários autos relacionados com infrações ao covid", indica o chefe João Dias. No entanto, salienta: "A criminalidade não desapareceu, vai-se modificando". O furto por carteiristas tornou-se "residual" dada a diminuição de pessoas a circular na via pública, mas o furto em automóveis, por exemplo, aumentou, refere.

Confinamento pode potenciar violência

Os dados avançados por Eduardo Cabrita indicam que em 2020 houve uma redução de cerca de 12% na criminalidade geral e uma redução em 14% na criminalidade violenta e grave. O ministro deu também conta de que o crime de violência doméstica diminuiu 6% em 2020 em relação a 2019, tendo registado "uma significativa redução" durante o confinamento.

Factos que não iludem o chefe João Dias. "Eu sempre disse aos colegas que as ocorrências não tinham diminuído, o que tinha diminuído era o número de denúncias. Paulatinamente, tem vindo a aumentar todos os meses e está a aproximar-se dos valores que havia nos anos anteriores", diz ele, que coordena a equipa da PSP no Espaço Júlia, equipamento de intervenção e acompanhamento às vítimas de violência doméstica situado junto ao Hospital dos Capuchos.

"Eu acredito que o próprio confinamento pode potenciar situações de tensão e conflito intrafamiliar. Se calhar até em situações em que nunca tinham acontecido problemas de violência doméstica, eles vão aparecer. Sempre que há problemas e há tensão, problemas económicos, o facto de ficarem fechados em casa, casas pequenas, pode potenciar a situação", avalia, apelando à população para denunciar situações de violência doméstica.

Um apelo que repete quando se fala de violência sobre menores. "Neste momento estamos outra vez numa fase em que as escolas estão encerradas e era um local onde antes eram detetadas situações de maus tratos e de abusos sobre as crianças. As crianças estão fechadas em casa, se não forem os vizinhos a denunciar ou algum familiar, ninguém sabe o que acontece com estas crianças", realça.

Para quem acha que o foco das forças de segurança está agora na legislação anti-covid, o chefe repete: "Continuamos a responder todos os dias a qualquer ocorrência. Qualquer pessoa que peça o auxílio da PSP nós estamos prontos para ajudar".

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