Oliveira do Hospital. Ciência no centro renova região

O Campus de Tecnologia e Inovação de Oliveira do Hospital é bom exemplo de como é possível atrair jovens talentos científicos para o interior do país, como Hélia Sales.

Os três arcos isolados e pendurados no ar dão um ar insólito ao local. Depois da estrada sinuosa, que atravessa uma paisagem bela e assombrosa, até Lagares da Beira, ficamos ali a olhar para aqueles arcos suspensos, sozinhos, sem função aparente. Do lado de lá da cancela, existem vários pavilhões brancos em torno de um edifício muito maior, com ar tosco e inacabado. Os arcos e o edifício, destoam da modernidade dos restantes edifícios, são vestígios do anterior ocupante deste local: um antigo centro de negócios que falhou. "Mas acho que em breve será recuperado", diz-nos Hélia Sales, coordenadora de investigação em biotecnologia florestal na BLC3.

Conheceu este projeto enquanto frequentava o mestrado em Biodiversidade e Biotecnologia Vegetal na Universidade de Coimbra e teve de desenvolver um trabalho sobre a valorização de recursos da Beira Interior. Na realidade, dificilmente se encontra na região outro projeto desta dimensão em torno da investigação científica. A Associação BLC3 - Campus de Tecnologia e Inovação, foi fundada em maio de 2010 e não tem fins lucrativos. Um espaço que cresceu em torno de projetos científicos que abordam o tema da bioeconomia e da economia circular. Ou seja, investigação que visa criar uma economia mais respeitadora do meio ambiente. Os princípios básicos assentam em redução, reutilização, recuperação e reciclagem de materiais e energia. Aliás, o acrónimo BLC3 deriva da expressão "Biomassa Lenho-Celulósica", que é o principal recurso existente em Portugal. E o "3" vem de terceira geração de biorrefinarias: numa forma simplista, podemos descrever como a produção de combustíveis ligados às microalgas. Aqui, em Oliveira do Hospital, a uma hora e meia de Coimbra, procura-se fazer ciência com o foco em soluções que incluam na mesma equação a cidadania, o território e a natureza.

Este tipo de projetos consegue criar mais-valia económica e social, num território que é muito afetado pelo envelhecimento. A BLC3 tem conseguido o mais difícil nesta região: fixar massa crítica. Muitos deles jovens cientistas, como Hélia Sales que começou por estagiar aqui. Num processo que considera muito "natural", foi ficando nesta "estrutura de investigação, que está sempre a colocar novos desafios enriquecedores". Hoje em dia é coordenadora de investigação na área da biotecnologia florestal e está a desenvolver um trabalho, no plano do doutoramento, em torno da oliveira galega vulgar.

A espécie é predominante no nosso país e tem diversos exemplares magníficos como a oliveira do mouchão, no concelho de Abrantes - que de acordo com as últimas análises, é a árvore mais antiga da Península Ibérica, com uns "singelos" 3500 anos. Mas a oliveira mais tradicional no nosso país, a galega, está a perder terreno para outras variedades.

A entrada em Portugal da cultura de olival intensivo tem provocado a substituição das antigas oliveiras que ocupavam o território nacional. "Estão a ser deixadas para trás porque são pouco resistentes às doenças, pragas e, além disso, não podem ser usadas nos olivais super intensivos por causa da mecanização", explica Hélia. Estas características dos olivais tradicionais do nosso país vão deixando espaço para a entrada no nosso território de outro tipo de espécies, como a oliveira Arbequina, muito comum em Espanha. Este trabalho de Hélia, tem-na levado ao estudo da espécie por todo o país, a fim de entender a variedade genética e conseguir depois desenvolver ensaios moleculares. Espera conferir mais resistência e produtividade à oliveira galega, mas este é um trabalho que pode ser empregue noutras espécies.

Como os olivais estão disseminados por todo o país, "estar ali no centro até tem dado jeito" para as constantes deslocações. São este tipo de projetos que contribuem para fixar cada vez mais cientistas neste polo, conseguindo construir "uma equipa muito jovem" que frequentemente se consolida em amizades fora do campus da BLC3. Estamos num "município de portas abertas que tenta captar jovens" e, tal como Hélia Sales salienta, "muitos jovens não experimentam vir viver para aqui por falta de informação ou informação errada. Mas o interior tem muito para oferecer".

Oliveira do Hospital

Cidade e sede de município, no distrito de Coimbra, região da Beira Alta, Oliveira do Hospital tem uma população de aproximadamente 7500 pessoas. A paisagem é marcada pela passagem de dois rios, o Alva e o Alvôco.

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