Comércio local de Lisboa ganha plataforma digital para vender produtos

Iniciativa nasce no âmbito do programa camarário Lisboa Protege, em parceria com os CTT e a UACS. Comerciantes da baixa lamentam "falta de capacidade" do governo.

O comércio local de Lisboa passará a poder vender produtos numa plataforma digital, durante o período de pandemia, através de uma parceira com os CTT e a União de Associações do Comércio e Serviços (UACS), anunciou ontem o município. Em comunicado, o executivo liderado pelo socialista Fernando Medina indica que a medida resulta da disponibilização de uma aplicação dos CTT para o comércio local, no âmbito do Programa "Lisboa Protege", orçado em 90 milhões de euros.

"Com recurso à nova aplicação dos CTT para o comércio local - CTT Comércio Local - desenvolvida para prover a digitalização do setor durante este período ainda indefinido de pandemia, produtores locais e pequenos comerciantes, que tradicionalmente têm apenas atividade comercial física, passam a ter acesso a uma plataforma eletrónica onde podem vender os seus produtos, bem como a uma solução simples para os fazer chegar aos consumidores finais", adiantou a autarquia.

De acordo com o vereador da Economia e Inovação, Miguel Gaspar, citado no comunicado, a parceria vai permitir "ajudar o tecido comercial da cidade e aumentar a sua resiliência à crise", criando "um novo canal para os clientes poderem continuar a comprar nas suas lojas preferidas, e receberem as suas compras em casa, em segurança". "O Lisboa Protege é um programa criado pela Câmara Municipal de Lisboa para apoiar as empresas, famílias e os setores social e cultural. São 90 milhões de euros de investimento da autarquia para minorar o impacto da pandemia na economia e emprego e assim preparar o futuro da cidade", explicou o autarca.

Por sua vez, o administrador dos CTT, João Sousa, garantiu que a nova aplicação para ajudar o comércio local tem como missão "apoiar a transição digital das empresas e produtores que, de outra forma, dificilmente teriam acesso a uma plataforma online para venda dos seus produtos". Também a presidente da UACS considerou que a iniciativa da Câmara de Lisboa e dos CTT servirá para apoiar e envolver os comerciantes na criação de uma nova loja virtual. "Esta é uma grande oportunidade de ajudar o setor e converter este período (de fecho de lojas ainda em vigor na quarentena em curso) para uma rápida transformação digital", realçou Lourdes Fonseca.

A CTT Comércio Local foi desenvolvida em parceria com a empresa Localshop e é disponibilizada aos municípios e às associações empresariais, que a fornecem aos comerciantes e produtores locais, passando a ter os seus produtos disponíveis "online". Através de um telemóvel e da localização, os consumidores poderão "ver que comerciantes e produtores da região estão presentes na aplicação, entrar em cada uma das lojas, efetuar as compras e pagar através de MB Way, cartão de crédito ou cartão de débito". A Câmara de Lisboa recordou que, nos próximos dias, os comerciantes já vão poder aceder à aplicação e que, na quinta-feira pelas 17.00, realizar-se-á um webinar para explicar todo o processo de adesão e funcionamento aos empresários.

Comerciantes dizem que falta capacidade ao Governo

Entretanto, os comerciantes da Baixa de Lisboa consideram que o Governo não tem capacidade para apoiar as empresas, garantindo que cerca de 80% dos estabelecimentos comerciais não consegue chegar aos apoios, afirmou o presidente da Associação de Valorização do Chiado (AVChiado).

"Não houve apoios. Erradamente, passa a imagem de que as empresas estão a receber apoios a fundo perdido e isso não é real", avançou Victor Silva, em declarações à agência Lusa. De acordo com o dirigente, várias pequenas empresas estão a ser empurradas para a falência, porque não "têm escala internacional e "não têm como se segurar", frisando que as imposições de encerramento, devido à pandemia, não são "acompanhadas de apoios reais".

"No inverno, as restrições foram imensas e os stocks podiam ser equilibrados em janeiro com os saldos, mas nós não conseguimos chegar aos saldos, ou seja, as lojas estão cheias de stock com coisas de inverno, que não vão conseguir comercializar. [...] Isto é muito grave", observou. Demonstrando alguma revolta por não compreender o porquê de o comércio ainda estar fechado, Victor Silva alertou que os "comerciantes estão a definhar" e "o poder político não tem noção do que se está a passar no terreno", pedindo a reabertura das lojas até 200 metros quadrados no dia 17 de março.

"Vai ser dramático. Nós estamos a chegar a quase três meses. Não há empresas portuguesas que consigam aguentar este embate e nós estamos a temer que o nosso comércio desapareça", avisou o presidente da AVChiado, reiterando que as consequências estão a ser gravosas para a vida das famílias e dos pequenos empresários. Segundo o responsável, apenas 20% das empresas da zona histórica de Lisboa foram apoiadas e muitas já não vão conseguir abrir, por perda de faturação.

"O Estado [...] não tem capacidade de apoiar as empresas na realidade, 80% estão a ficar de fora. Se [o Estado] não tem capacidade [para apoiar as empresas], deve deixá-las funcionar. Nós pagamos rendas, pagamos eletricidade, pagamos água, pagamos seguros, temos de pagar os stocks que estão dentro de portas e temos de pagar aos fornecedores... Não podemos ter comprado a mercadoria e não a pagar", sustentou.

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