Caso dos brasões. "Não é muito elegante andar a calcar sobre os símbolos"

António Barreto, um dos peticionários contra o fim dos brasões na Praça do Império, em Belém, não concorda com a proposta feita por Medina e Sá Fernandes de os incorporar na pedra da calçada.

Os peticionários contra o fim dos brasões florais na Praça do Império reuniram-se nesta semana, mais uma vez, com o presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML), Fernando Medina, e o vereador José Sá Fernandes, para conhecer a proposta para preservação daqueles símbolos. O DN apurou que a proposta feita é de os integrar na pedra da calçada entre o relvado onde atualmente existem e a Fonte Luminosa. O que desagrada aos peticionários, que queriam que essa reconstrução em pedra ficasse exatamente inserida no espaço onde os atuais buxos, já sem flor, existem.

A ideia da autarquia vai ainda ser estudada pela delegação dos peticionários - entre os quais Rafael Pinto Borges, líder do Movimento Nova Portugalidade - e haverá mais diálogo com Medina e Sá Fernandes sobre o assunto.

Mas há já um dos mais destacados subscritores do Manifesto contra o fim dos 32 brasões florais dos distritos portugueses, ilhas e ex-colónias, que manifesta discordância com a solução apresentada pelo executivo camarário. "Não é muito elegante andar a calcar sobre símbolos, nos Estados Unidos admite-se isso, na Europa não", frisa António Barreto, ao DN.

Argumenta que esta parece ser "uma meia medida" para responder aos cidadãos que se insurgiram contra a anterior decisão da câmara de requalificar a praça e acabar com os ditos brasões, para daqui a uns cinco anos "acabarem mesmo". Admite que a Câmara de Lisboa tem o direito de mudar coisas na vida da cidade, mas adverte que "em Portugal prepara-se uma operação de alteração do mobiliário urbano e dos sinais monumentais, com apagamento de alguns deles e criação de novos", deitando por terra a legitimidade histórica.

O sociólogo diz ter informação de que há instituições a fazer um "remapeamento" de Lisboa. "Se calhar estão a fazer uma lista de nomes a abater nas ruas e dos edifícios, porque há um objetivo metódico e estratégico."

Em fevereiro, poucos dias após ter entrado na Assembleia Municipal de Lisboa uma petição com 14 mil assinaturas contra o fim dos brasões florais, os peticionários reuniram-se com presidente da autarquia e o vereador com o pelouro do Ambiente e Espaços Verdes, Sá Fernandes, em que ficou acordado que aquela memória seria preservada na requalificação futura da praça.

Ao DN, em plena Praça do Império, José Sá Fernandes já tinha garantido estar aberto a soluções para preservar os brasões florais das capitais de distrito, das ilhas e ex-colónias portuguesas, plantados em 1961. Na altura, o vereador tentou desconstruir a ideia de que a requalificação daquele espaço e o fim dos tais arbustos nada têm que ver com a aversão à história do colonialismo português. "Não tenho preconceito ideológico nem nada, quero é arranjar isto! Deixem-me arranjar a praça e depois se logo vê", disse José Sá Fernandes.

Os brasões foram colocados em 1961, por ocasião da XI Exposição Nacional de Floricultura, tendo sido comemorados os cinco séculos da morte do infante D. Henrique no ano anterior, e não faziam parte da configuração inicial da praça, desenhada por Cottinelli Telmo, em 1940.

As sugestões para a preservação da memória daqueles brasões foram defendidas por Gonçalo Matos, fundador e coordenador do grupo de vizinhos de Belém que, em conversa com o DN, lembrou as propostas de Fernando Ribeiro Rosa, presidente da Junta de Freguesia de Belém, que têm sido debatidas na comunidade para que se integrem estes brasões na pedra da calçada ou sejam integrados num empedrado no relvado, ou então sejam reproduzidos em placas evocativas, colocadas no local onde existiam em flor.

A Praça do Império foi criada para a Exposição do Mundo Português, em 1940, que comemorou o duplo centenário da Independência de Portugal (1140) e da Restauração (1640). Foi projetada por Cottinelli Telmo, que além de arquiteto foi também cineasta. Sofreu alterações em 1961, por ocasião dos 500 anos da morte do infante D. Henrique e no âmbito da Exposição Nacional de Floricultura, em que foram projetados os brasões florais.

Os trabalhos de alteração da praça foram adjudicados pela CML à empresa Decoverdi - Plantas e Jardins, irão durar quatro meses e têm um custo a rondar os 778 mil euros, valor que já inclui manutenção pelo período de um ano após a conclusão da empreitada. O projeto é assinado pelo ateliê de arquitetura paisagista ACB, num projeto da arquiteta Cristina Caltel-Branco, e tem como primeiro objetivo "retomar o traçado de Cottinelli Telmo, recuperando o conceito original de 1940", e que já sofreu alterações ao longo dos tempos.

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