"A Casa do Alentejo corre muito o risco de encerrar"

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"A Casa do Alentejo corre muito o risco de encerrar"

Manuel Verdugo, vice-presidente da associação regionalista com quase 100 anos, disse ao DN que sem apoios a Casa do Alentejo pode mesmo encerrar portas no início do próximo ano.

Numa Rua de Santo Antão despida de turistas e dos típicos empregados a persistir na entrada nos seus restaurantes, a Casa do Alentejo de Lisboa tenta resistir à hecatombe financeira que a pandemia da covid-19 lhe trouxe. Mas não está fácil. O alentejano Manuel Verdugo, vice-presidente da associação regionalista, conta ao Diário de Notícias como é incerto o futuro quer do espaço quer dos seus 30 trabalhadores.

"Sem moratórias ou apoios a fundo perdido a Casa do Alentejo, tal como a conhecemos, corre muito o risco de encerrar", afirma. "Não é esse o nosso desejo. Queremos manter os postos de trabalho, mas com a pandemia e a falta de receitas ficamos com a tesouraria quase a zero", explica.

O vice-presidente conta que a associação regionalista pediu, com a crise trazida pela pandemia de covid-19, um empréstimo de 400 mil euros, que tem servido para pagar aos trabalhadores, fornecedores, gastos com os edifícios, entre outras despesas. Contudo, sublinha que, com a falta de receitas e os impostos a pagar, o montante não irá chegar para as despesas no final de janeiro. "Ou pagamos os impostos e não pagamos aos empregados ou vice-versa", reforça.

Os efeitos da pandemia

A situação agravou-se com a segunda vaga de covid. "Pensávamos que depois do verão iríamos recuperar mesmo que devagar, mas não. Desde outubro que tem sido terrível, com quebras de receitas na ordem dos 80 por cento. Passamos a servir duas a três refeições por dia. E as pessoas que vêm cá comer têm no feito por solidariedade".

Para além da falta de apoios, culpa o medo que existe no contágio da covid. "Temos um espaço amplo, com todas as medidas de segurança, mas está instalado um clima de medo e as pessoas não vêm com medo de apanhar covid. Como associação iremos continuar, mas ter uma casa aberta como temos até hoje vai ser muito difícil".

Quase sem respirar, Manuel Verdugo justifica que "muitos podem perguntar o que foi feito às receitas dos últimos anos". Diz que é fácil de explicar: "Em recuperação de telhado, pinturas, recuperação de móveis e frescos gastamos cerca de 1 milhão de euros, sem quaisquer apoios".

Aproveita o tema e insiste em mostrar o espaço onde foi investido o dinheiro. Guia-nos pelos corredores labirínticos do outrora Palácio Alverca, mandado construir no final do século XVII pelos Viscondes de Alverca que durante quase duzentos anos o habitaram.

Depois dos Viscondes, a família, Paes do Amaral, terem saído do local nasceu o primeiro Casino de Lisboa, o Majestic Club, que entre 1919 e 1920 trouxe a sorte e o azar aos que o frequentavam. O sucesso do espaço levou ao seu encerramento para mais tarde reabrir como Monumental Club - até o Estado Novo proibir os jogos de azar e mandar fechar o casino.

Depois disso, o Grémio Alentejano instalou-se no local em 1932. Aliás, a sua decoração com muitos estilos à mistura mas onde sobressai o hispano-árabe é, muitas vezes, confundida com alguma herança do sul e do Alentejo, mas na realidade nada tem a ver. Foi mesmo o traço do arquiteto António Rodrigues da Silva Júnior que criou o espaço para um casino diferente, ainda antes da chegada dos alentejanos.

Pelas várias salas do antigo palácio, ainda se encontram vestígios dos jogos de sorte e azar. Das mesas de jogo, aos candeeiros, às meticulosamente ornamentadas salas recatadas onde se diz, sem certeza, que os mais abastados recebiam senhoras para companhia mais íntima.

"Tudo é original, tudo foi mandado recuperar, desde as secretárias às cadeiras que têm quase 100 ou mais anos", diz ao DN, enquanto mostra o seu gabinete, numa das tais salas privadas dos tempos do casino.

Portas escancaradas para a cidade

"Somos uma casa completamente escancarada para Lisboa, com muito uso. Quem quiser entra, senta-se, visita, lê, usa as casas de banho e dorme a sesta se quiser. Queremos continuar a ser assim. Veja, antes da pandemia, recebíamos cerca de 300 pessoas por dia", explica o vice-presidente.

Nos últimos anos a Casa do Alentejo tem vivido do turismo, como a "invasão" regular de espanhóis na Páscoa, grupos de estrangeiros que visitavam o edifício durante a semana e ali tomavam o seu almoço ou jantar. Ao fim de semana, e sobretudo no Natal, a clientela era mais nacional com jantares de grupo ou eventos culturais.

A associação conta atualmente com 1500 sócios (com quotas mensais de 2 euros). E apesar de só poderem ser diretores quem de facto nasceu no Alentejo, há outras categorias de amigos da região que também têm direito ao associativismo numa determinada categoria. Por exemplo, numa das paredes do centro interpretativo do Alentejo, criado há meses para receber as hordas de turistas antes da pandemia, está um placar com cartões de associados desses "não alentejanos" amigos da casa, como Baltasar Rebelo de Sousa, pai do atual presidente da República, e que em tempos também ajudou a Casa do Alentejo.


Luz ao fundo do túnel?

Apesar da situação atual, Manuel Verdugo tem esperança de manter as portas abertas do local. Os contactos têm sido vários. "Para ver se conseguimos manter a casa aberta e os postos de trabalho, estamos a tentar ter o layoff tradicional". Mas há mais. Já foram recebidos na Assembleia da República pelo PCP e PEV e contactaram os restantes grupos parlamentares. Falaram também a Ministra da Segurança Social e com o Ministério da Economia têm uma reunião agendada por estes dias com o Gabinete do Secretário de Estado da Economia.

Com a Câmara Municipal de Lisboa têm mantido comunicação com o vereador para a Economia, Miguel Gaspar e vão, em breve, reunir a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo, conta ao DN.

"Não queremos nenhum favor. Todos os empréstimos que venhamos a receber queremos pagar e cumprir com as nossas obrigações. Queremos sim que olhem para nós como uma associação cultural com um papel fundamental para a cidade de Lisboa".

E reforça: "Não queremos esmolas, mas queremos dentro dos instrumentos e apoios ao alcance do Governo que nos ajudem a manter à tona de água, para entrarmos em 2021 com outra perspetiva. Se os apoios não vierem, o encerramento está mesmo em cima da mesa".

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