Beatriz, estudante do 4º ano de Medicina preferiu voltar para casa dos pais, em Leiria.  As aulas práticas

Isto é Lisboa

Uma residência universitária em tempos de pandemia

Em casa, mesmo longe de casa, uma residência de estudantes junto do Hospital de Santa Maria reorganiza-se e tenta manter os hábitos: estudo à distância, treinos e videochamadas.

"Casa" pode significar, por estes dias, a solidão, ou o conforto de uma família. Ou, no caso de uma residência universitária, uma solidão acompanhada. Assim são os novos dias na Residência Universitária Feminina da Universidade Católica, em Lisboa. Continua a haver estudo, mas também muitos jogos de cartas e, claro, videochamadas. Desde a noite de 11 de março, tudo mudou. Primeiro, desfilaram as malas de viagem uma atrás da outra, depois os corredores da residência universitária ficaram vazios e silenciosos.

Para os que não podiam sair, e para os que decidiram ficar. É o caso de Inwai, 20 anos, de Macau, e que há seis meses vive na residência. "O governo de Macau perguntou-me porque decidi ficar. Expliquei que seria mais seguro aqui e aceitaram. Tenho exame esta semana e seria muito difícil estudar em Macau se tivesse de ficar em quarentena", justifica. Se voltasse, tinha de ficar na quarentena imposta a quem chega ao território. Os exames de que Inwai fala passaram a ser feitos online - e por isso os dias desta quarentena são passados de olhos postos nos livros de gestão.

Outra das resistentes é a portuense Alda, 23 anos. Com mestrado em biologia molecular e genética, é violinista na Orquestra da Universidade de Lisboa e técnica de laboratório, numa empresa que funciona no Instituto de Medicina Molecular, edifício colado ao Hospital de Santa Maria. Por isso, não pode deixar de sair - mas apenas para ir trabalhar. Agora os dias encurtaram: "ao final do dia regressava à RUF e estava com as minhas colegas, e depois ia para os ensaios da orquestra. Já tentámos tocar por Skype, mas... não funciona" diz.

Uma casa com 76 pessoas não é de fácil gestão - e seria um lugar de risco, por estes dias. As novas regras foram apresentadas numa reunião logo a 11 de março. A RUF pertence à Universidade Católica e situa-se mesmo do outro lado da rua do Hospital de Santa Maria. Teresa Mendes, diretora, conta que uma das mudanças implementadas é o modo de fazer compras. "Todas as encomendas que chegam à residência passaram a ser desinfetadas, tal como todos os locais por onde passam várias mãos. As compras das residentes são feitas por mim, com lista, para evitar que cada uma tenha de ir ao supermercado." Como só restam cinco alunas, a cantina, que em dias normais, à hora do jantar, era mais parecida com um restaurante em noite animada, hoje é um lugar calmo e silencioso.

Alda inscreveu-se como voluntária na bolsa criada pela Ordem dos Biólogos, para trabalhar na realização de testes de diagnóstico do covid-19. Contudo, antes de ser chamada, a empresa onde trabalha como técnica de laboratório poderá antecipar-se e começar também a fazer os novos testes. Para a antiga estudante não é viável terminar um semestre através de aulas online, "as aulas laboratoriais, por exemplo, são impossíveis de dar pela Internet, terão de ser compensadas, mais cedo ou mais tarde".

"Um dia de cada vez", diz Alda. O pequeno ginásio inaugurado há poucas semanas tem ajudado bastante. "E também temos o Azeitona. Se formos para a sala fazer algum jogo ou ver um filme, o Azeitona está lá connosco" - é o cão que também ficou por aqui, e até tem um quarto nesta casa. Alda garante que o segredo para manter a saúde mental nesta altura é ocupar a mente e conversar com os que são próximos, fisicamente ou através de vídeo chamadas. "Aprender algo novo também ajuda. Eu por exemplo estou a aprender a tocar contrabaixo, que o meu namorado esqueceu-se cá. E assim volto para a orquestra com mais uma skill..."

De casa, à distância

Entre as que optaram por fazer a mala e sair da residência, sem data de regresso, está Beatriz, estudante do 4º ano de Medicina. "Na nossa faculdade, as aulas práticas terminaram por receio de que algum de nós pudesse transportar o vírus e transmiti-lo ao contactar com os doentes no hospital [de Santa Maria]". Atualmente, os alunos têm apenas aulas teóricas, transmitidas online ao final do dia.

Segundo Beatriz, os professores, alguns deles médicos no hospital, têm tranquilizado os alunos e dado conselhos: "Dizem-nos que estão cansados, mas que devemos ficar em casa, cumprir as ordens das autoridades de saúde e informar família e amigos. Caso contrário, tornar-se-á ainda mais difícil o trabalho dentro do hospital".

Mas ainda não há uma solução para a falta de aulas práticas, e, para Beatriz, só a componente teórica não é suficiente. "Preferia ficar mais um mês, no verão, a compensar as horas de contacto com os doentes, em vez de acabar no tempo previsto", desabafa.

Além disso, Beatriz já se inscreveu como voluntária para apoiar o Serviço Nacional de Saúde. Com o intuito de reforçar as linhas de atendimento médico por causa do covid-19. Até agora, não obteve resposta. Mas não se sente com formação suficiente para ajudar no terreno. "é uma responsabilidade enorme e não estamos preparados. Não conhecemos a organização dos hospitais, talvez fossemos atrapalhar, mais do que ajudar".

Na sua casa, em Leiria, pode passar o dia com a irmã, tem mais tempo para ajudar os pais, e tem feito "treinos transmitidos em direto no Instagram", conta. "Não posso estar só a fazer uma vida de pijama". Apesar do conforto da casa dos pais, sente falta do contacto direto com os doentes que, neste momento do curso, seria imprescindível.

O sentimento geral, de quem ficou na residência ou quem foi para casa, é que todos se voltarão a reunir, a seu tempo. A mesa de jantar voltará a estar cheia e os abraços apertados sem fim. Até lá, espera-se em casa, mesmo que longe de casa.

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