Proteção e esperança. O dia-a-dia dos supermercados e mercearias de bairro

"Proteção" é a palavra de ordem. De norte a sul, os supermercados e as mercearias de bairro continuam a difícil adaptação à nova realidade. Com luvas, máscaras e distância de segurança em tempos de estado de calamidade.

"Estimado cliente, faça as compras com a maior brevidade possível". Esta é a mensagem que se ouve com regularidade dentro dos supermercados do grupo Sonae. No Lumiar, a fila de espera para entrar chega a alcançar vários metros de comprimento. Os clientes reclamam do tempo de espera. Ninguém se aproxima de ninguém, mas todos os dias há desentendimentos entre clientes, ora seja por causa de um saco de plástico no local errado, ora pelo lugar que cada um ocupa na fila.Com o novo estado de calamidade, é possível que o panorama mude - mas, por enquanto, vive-se um período de incerteza.

"Não faltam ovos, leite ou pão, mas a afluência é tanta que chegam a faltar produtos mais específicos que antes havia em quantidade e que agora as pessoas compram para terem reservas de comida", conta Luíza, residente na freguesia.

Aduzinda Silva, de 45 anos, supervisora de caixas da mesma superfície comercial, reconhece que os novos hábitos de prevenção já se tornaram uma rotina: as luvas, as máscaras, o desinfetante, o acrílico que separa o cliente do operador. O medo, claro, continua à espreita - Aduzinda teme pela saúde de quem vive consigo. "No início da pandemia os clientes não tinham tanta paciência para estar aqui à espera que desinfetasse as mãos", remata a supervisora, que trabalha no atendimento ao público há 15 anos.

Para os operadores das superfícies comerciais, não há descanso. Uns despedem-se por medo ou por acharem que podem estar infetados. Já para outros, como é o caso de Aduzinda, trabalhar continua a ser a única opção.

No Bairro Alto, a Mercearia da Glória vive uma realidade diferente. Gerida por Maria da Glória, de 72 anos, o espaço permaneceu de portas abertas, mas com "poucos clientes".

As circunstâncias da pandemia obrigaram os pequenos negócios a adaptarem-se para sobreviver. "Fechamos mais cedo e o meu filho até leva as compras a casa das pessoas com mais idade", confessa a dona, que passou a usar máscara e a ter cuidados redobrados no contacto com os clientes. "As pessoas estão todas com medo, mas nós cá continuamos a trabalhar. As pessoas têm de comer", acrescenta.

O mesmo se passa na mercearia Loja da Comida, em Telheiras. "Parecem ter falta de coisas, mas serve para desenrascar quando precisamos de bolachas ou arroz, escuso de ir ao supermercado", confessa Pedro, um dos clientes deste espaço. A única medida de prevenção adotada foi limitar o número de clientes que entra na loja.

No entanto, a realidade do comercio local oscila, e não são só os supermercados a receber grandes fluxos de pessoas. António Borges, responsável pela mercearia do Molhe, no Porto, explica: "Temos tido mais movimento, principalmente de idosos que têm evitado sair".

Com a epidemia da covid-19, António Borges comenta que a sua mercearia "até ganhou um bocadinho". Apesar de ao balcão haver menos clientes, as entregas ao domicílio aumentaram. "Trabalha-se mais um bocadinho, de forma diferente", explicita. Se numa fase inicial se gerou grande rebuliço, com as pessoas a comprarem "muito de uma só vez", António apressa-se a esclarecer que agora "está tudo a regressar à normalidade, as pessoas estão mais calmas".

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