"Por favor, não nos abandonem". O apelo dos sem-abrigo de Lisboa

O apelo de muitos, que vivem na rua, em situação de sem abrigo, é este. O fecho de cafés e restaurantes, a falta de automóveis para estacionar - e ganhar uma moeda - está criar ainda mais dificuldades. Os voluntários da Comunidade Vida e Paz, veem a situação a piorar.

"Por favor, não nos abandonem." Foi assim, com um apelo forte e desesperado, que um sem-abrigo se despediu de Guilherme Fontes, voluntário da Comunidade Vida e Paz, numa das noites do fim de semana. O facto de a maioria das pessoas se fechar nas suas casas, em segurança, tem um segundo efeito: há menos gente para ajudar quem precisa, e vive da moeda ocasional dada pelo arrumar de um carro, ou mesmo de esmola. E há cada vez mais pessoas vulneráveis nas ruas de Lisboa. "Pela primeira vez em muito tempo, vi fome", assume Guilherme.

A Comunidade Vida e Paz tem reunido esforços para garantir que, todas as noites, os sem-abrigo de Lisboa têm direito à sua ceia. O foco da organização, como explica Celestino Cunha, responsável pelas equipas de voluntariado, sempre foi "a relação entre as pessoas" - mas, nesta fase, rapidamente se percebeu que "os alimentos passaram para primeiro lugar".

Desde o início da semana que a realidade dos sem-abrigo mudou. Fecharam cafés e alguns restaurantes e já não há carros para ajudar a estacionar e arrecadar uma moeda ou outra. Além disso, são muitas as instituições que deixaram de acompanhar os mais desfavorecidos. Ainda para mais quando no espaço de quatro dias houve um aumento dos sem-abrigo nas ruas, indica a instituição.

Dos 600 voluntários, apesar de alguns terem abandonado a iniciativa por motivos de "quarentena e de saúde", foram ainda muitos os que continuaram. Aliás, desde que soou o alarme do coronavírus já se juntaram mais 54.

Estabelecido um plano de contingência, todas as noites continuam a realizar-se as quatro voltas que passam por 90 a 95 lugares de Lisboa. As equipas, geralmente constituídas por seis a oito elementos, foram reduzidas a três, quatro pessoas, como medida de prevenção. O grande objetivo continua a ser "não baixar a nossa presença nas ruas", sublinha Celestino.

Na noite passada, as equipas, munidas de 425 ceias, andaram pela cidade. Graças ao contributo das associações Casa e Fatima Noor, que confecionam alternadamente refeições, os sem-abrigo tiverem direito a uma sopa, a um prato de arroz de frango, uma sandes e fruta para além do habitual -dois pães e um copo de leite. O número de refeições foi reforçado, mas "não foi suficiente", conta Guilherme Fontes. Contudo, diz que não houve desespero. Os sem-abrigo, solidários uns com os outros, aceitaram de bom grado a partilha das suas refeições. "Foi um momento muito bonito neste quadro infeliz", revela o voluntário.

Mas os problemas parecem não ter fim. Começam a faltar luvas, máscaras e gel desinfetante. "Os equipamentos estão a esgotar-se", revela Renata Alves, presidente da comunidade. Além disso os donativos têm diminuído. "Temos trabalhado só com os recursos da instituição". Um dos próximos passos, conta, é lançar uma campanha de sensibilização para obter mais donativos.

"Não, vocês não estão esquecidos" - foi o que os voluntários asseguraram às pessoas ontem à noite. "Vão voltar amanhã?", perguntaram muitos, assombrados pelo panorama que se vive diariamente. Sim, regressam hoje, já com 500 ceias e refeições.

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