Marchas Populares canceladas. As coletividades de Lisboa fazem-se ouvir

Havia quem defendesse o contrário, mas já é oficial: as Marchas Populares de Santo António estão canceladas e só voltam em 2021. Agora, é necessário encontrar uma solução para os gastos já assumidos pelas coletividades. Responsáveis pelas marchas do Alto do Pina, Alfama, Bairro Alto e Voz do Operário revelam as preocupações.

Em tempos de pandemia Lisboa vai abrir mão dos seus santos populares. A Câmara Municipal de Lisboa anunciou este sábado o cancelamento dos Arraiais e das Marchas Populares de Santo António. Este é o primeiro ano, desde 1988, que Lisboa não vai ver as suas Marchas desfilar em junho, o clássico mês de festas na cidade: bairros sem manjericos nem sardinhas, a Igreja de Santo António sem casamentos - e a Avenida da Liberdade despida de música e coreografia. Em comunicado, a autarquia avança que a decisão conjunta com a Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural (EGEAC) resulta da extensão do "confinamento e distanciamento social", que impediu os ensaios para o evento.

Face à inclinação de algumas associações para manter as Marchas em 2020, Pedro Franco, presidente da Associação de Colectividades do Concelho de Lisboa (ACCL), aplaude o veredicto da autarquia. "Imaginemos que, em julho, [o surto de covid-19] estava normalizado. Os grupos começavam a trabalhar", para uma apresentação em setembro ou outubro. "Não teriam férias nem tempo para a entrega total que a Marcha exige. E as pessoas, creio eu, não estão muito para aí viradas."

E se o cancelamento dissolveu o dilema, por resolver está o problema dos gastos já assumidos pelas coletividades. Pedro Franco levou a matéria à vereadora da cultura da Câmara, Catarina Vaz Pinto, e garante esse apoio. "Ou irão receber o subsídio de 30 mil euros [entregue a cada coletividade]", tendo em mente o próximo ano, "ou serão cobertas as verbas já pagas". Certo é que o trabalho desenvolvido, subordinado ao centenário da fadista Amália Rodrigues, transita para 2021.

O primeiro encontro das Marchas com o vírus

Quando o bairro do Alto do Pina venceu as Marchas de 2019, este era um cenário inimaginável. Para 2020, "o foco era renovarmos o título e tentarmos conseguir tantos prémios de especialidade como no ano passado", assevera Pedro Jesus, que preside ao Ginásio Alto do Pina. O mau presságio veio em janeiro, depois do grupo de marchantes ter sido convidado a desfilar em Macau, nas comemorações do Ano Novo Chinês. A atuação nunca chegou a acontecer, devido ao surto da covid-19: "Ao chegarmos, soubemos que todos os eventos tinham sido cancelados".

Já num Portugal paralisado pelo novo coronavírus, o Alto do Pina não encarou com surpresa o estado de emergência. Com música, letra e figurinos prontos, o próximo passo seriam os ensaios - suspensos em março, por ofício da EGEAC, ao invés de começarem no mês seguinte. "Obviamente que o sentimento é de tristeza", afirma Pedro Jesus, que contudo se agarra à esperança. "As Marchas servem para as pessoas brincarem e dançarem. Depois deste isolamento social, a malta devia poder desanuviar da tristeza que nos assola."

Contactado pelo DN antes do anuncio do cancelamento das marchas, o coordenador defendia a realização do desfile ainda este ano. Reunidas as condições de segurança, "porque não fazer-se em outubro, quando se assinala o falecimento da Amália?" Propunha também o mês de janeiro, para a devoção de São Vicente, padroeiro principal do Patriarcado de Lisboa. De qualquer forma, a posição do Alto do Pina é "solidária" com a decisão das entidades oficiais.

"Isto não são as Marchas de São Vicente, nem da Amália"

Alfama partilha dessa flexibilidade, mas não subscreve a opinião. Para o coordenador da Marcha de Alfama, João Ramos, "não faz sentido celebrar o Santo António noutra época. Isto são as Marchas de Santo António, não são as Marchas de São Vicente, nem da Amália".

A Conferência dos Oceanos da ONU já tinha obrigado à transferência das pré-apresentações das Marchas - a 5, 6 e 7 de junho - do Altice Arena para o Campo Pequeno. "Para aí decorrer", explica o tesoureiro do Centro Cultural Dr. Magalhães Lima, "era preciso apetrechá-lo de infraestruturas que não tem." A falta de tempo, somada à impossibilidade de ensaiar e sair à rua tão cedo, justificam-lhe a opção de passar um ano em branco. João Ramos dá o exemplo da suspensão das Festas do Espírito Santo, nos Açores, onde se encontra durante a conversa com o DN. "Nunca em três séculos se deixou de fazer essa tradição. As Marchas Populares são muito pequeninas, em termos de história e importância, ao lado de eventos como este."

Ressarcir as coletividades pelos gastos efetuados

A Marcha do Bairro Alto reuniu "metade dos arcos, a música e a logística há muito tempo", conforme conta o coordenador Vítor Silva. O Lisboa Clube Rio de Janeiro, ao qual preside, "conseguiu arranjar dinheiro para avançar com um processo moroso" - ameaçado com a suspensão inicial dos ensaios, que iriam decorrer em espaço público. "Podíamos ensaiar por teleconferência, está na moda agora", gracejou.

Todavia, manteve-se o prazo de 31 de março para submeter à EGEAC o tema, as letras e músicas, a equipa técnica e outros elementos. No seio da incerteza recente, aguardava ordens para poder voltar ao trabalho com os marchantes. "Se houver condições para fazer neste ano, a Marcha vai para a frente", afirmava. Agora, com a notícia do cancelamento, Vítor Silva diz-se "apanhado na onda". A mudança de rumo suscita um novo debate: "Que compromissos serão ressarcidos? Temos que nos sentar todos e desenvolver essa situação. E já nem falo dos gastos emocionais."

Vítor Agostinho, líder da Marcha Infantil da Voz do Operário (do qual é diretor-geral), expressa a sua preocupação. Apesar de dispor de uma "equipa de voluntários que confeciona os fatos", a associação teve despesas com os materiais adquiridos, que espera serem comparticipadas.

Ao imaginar um prognóstico favorável, duvidava de que houvesse espaço de manobra. "Montar um arraial é mais fácil, arranja-se um pouco de festão e luz, e está a andar. Uma Marcha Popular obriga a um trabalho mais rigoroso", defende Vítor Agostinho. Por não serem bailarinos, as crianças e os adultos participantes requerem mais tempo de aprendizagem, para corresponder às expectativas "nacionais e internacionais. Eu acho que não há condições para nada disso."

"Não sabemos ainda como esta tragédia vai acabar", reconhece João Ramos, da Marcha de Alfama. "O país vai precisar de muito dinheiro para fazer face a muita coisa; não seria de mau tom poupar em questão de festejos." Além disso, o inventário que reuniram até agora "não é pão nem manteiga": pode ser reaproveitado.

Pedro Duarte, timoneiro da Marcha da Bica, apoia a continuação da homenagem a Amália em 2021, assim como o uso de materiais sustentáveis (alusivo ao prémio Capital Verde Europeia, ganho em 2020 por Lisboa). "Há muita gente que já tem os seus projetos em andamento. Seria injusto para com essas marchas que os temas não se mantivessem."

As coletividades por detrás do "folclore"

A maior injustiça, para Vítor Silva, do Bairro Alto, é reduzir as coletividades ao "folclore" das Marchas Populares: "Temos as componentes social, cultural, recreativa e desportiva. É um trabalho enorme", que se engrossa em alturas vulneráveis como esta. O responsável pelo Lisboa Clube Rio de Janeiro, fundado em 1938, fala com o DN após uma manhã a distribuir alimentos por casas de moradores - interrompido pelo ribombo dos voluntários, os bons-dias da típica cortesia bairrista.

"É muito importante estarmos na rua a fazer pela população", pro bono, "para a sociedade que muitas vezes nos renega." Talvez este interregno sirva para refletir sobre o papel das coletividades: "Se não houver instituições, não há marchas." Estão ao serviço das pessoas - e é nisto que as coletividades se encontram em uníssono.

"Lisboa está triste", observa Vítor Agostinho. A conversar com as crianças do Voz do Operário, o coordenador tratava o possível cancelamento como tabu: "Dizemos-lhes que, assim que isto se levantar, a primeira coisa que vamos fazer é a marcha." Para Pedro Duarte, isso não destoa da verdade. Será necessário "reerguer Lisboa" e, no seu caso particular, prestar tributo aos participantes da Bica que trabalham em hospitais como o Curry Cabral ou o IPO, "na linha da frente do combate a esta pandemia".

O fundamental, pontifica Vítor Silva, é que as coletividades estejam "prontas para a luta - não a competição, mas fazer o melhor pela comunidade, que vai precisar de nós. Da nossa alegria e jovialidade, do sentimento de pertença ao bairro". A mensagem ecoa do Alto do Pina: "Não é altura de pensarmos em festas," concede Pedro Jesus. "Mas depois disto passar, e se Deus quiser, vamo-nos abraçar novamente."

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