"Voltar seria perigoso para mim e para a minha família". Os estudantes italianos que escolhem ficar em Lisboa

Enquanto a pandemia alastra por Portugal, em Itália o coronavírus assume dimensões catastróficas. Entre estas duas realidades, encontramos estudantes italianos isolados em Lisboa e que seguem à distância o que se passa com as suas famílias.

Escolhem não regressar. "A viagem é muito longa e complexa", conta Francesco, estudante de medicina, de Turim. Chiara Furlan, também da mesma cidade, concorda: "Voltar para Itália seria mais perigoso, para mim e para a minha família". Confinados às suas casas temporárias, em Lisboa, Francesco e Chiara passam os seus dias a lidar com o medo e a ansiedade de estar longe de casa.

As famílias em Itália, apesar de em segurança, estão preocupadas. Uma vez que a situação por lá começou mais cedo e rapidamente escalou, Francesco começou o isolamento voluntário antes de o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa ter declarado o estado de emergência em Portugal. "Como um gesto de responsabilidade individual para a comunidade portuguesa que me acolhe como estudante", acrescenta.

Francesco apercebeu-se imediatamente da dificuldade de cumprir todas as regras da quarentena num apartamento que partilhava com nove pessoas: pessoas que trabalhavam, sendo uma delas médica. Apesar de ter direito a uma casa de banho privada, não se sentia seguro: "Toda a gente usava a cozinha, muito pequena, onde todos tocavam nas superfícies". Por isso, há seis dias decidiu mudar-se para casa de uma amiga, onde agora vive com ela e com a mãe.

"Diz-se que Erasmus é uma oportunidade de encontro entre diferentes povos e culturas: para mim está a revelar-se a descoberta de sermos todos uma única comunidade humana, graças à generosidade de uma família que me abre as portas no meio da maior pandemia do pós-guerra", explica.

Por sua vez, Chiara Furlan, também estudante de medicina, vive num apartamento com três outras pessoas, sente-se segura, uma vez que ninguém sai de casa. Mesmo assim, a situação não tem sido fácil. Ambos têm frequentado as aulas online, ocupando o seu tempo com os estudos. "Sou uma pessoa muito ativa, tenho muita ansiedade", revela Chiara Furlan - não só por estar em isolamento, mas pelas notícias que vai recebendo de Itália. "A minha família está bem, mas não sabemos com certeza, porque há a questão dos assintomáticos" (pessoas que não têm sintomas, mas que são portadoras do vírus).

Chiara Bongiovanni, outra estudante de medicina, também da região de Turim, está há cerca de quinze dias a cumprir quarentena, por escolha pessoal, saindo apenas para fazer compras necessárias. A família está bem. "Acho que em Itália, este período vai acabar em breve. Em Portugal, a situação ainda vai piorar", diz.

Apesar do Ministério das Relações Exteriores de Itália ter ativado um voo direto de Portugal para Itália, como explica Francesco, regressar não é uma opção para nenhum dos três. "A viagem expõe o risco de contrair o vírus e infetar a minha família", diz Francesco.

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