Wuhan, a cidade da covid-19 saiu à rua para festejar o Ano Novo

Milhares de pessoas, com máscara mas sem distanciamento social, celebraram a chegada de 2021.

A cidade chinesa de Wuhan, que há cerca de um ano reportou o primeiro caso de covid-19, comemorou a chegada do Ano Novo sem quaisquer restrições o que levou milhares de pessoas às ruas, nomeadamente junto ao principal monumento, a Torre do Relógio.

É certo que todas as pessoas usavam máscara, mas a verdade é que não foi cumprido o distanciamento social. A única limitação foram umas barreiras em redor da torre para limitar a circulação de pessoas naquela zona.

As autoridades de Wuhan, na província de Hubei, quiseram dar um sinal ao mundo de que a vida está a voltar ao normal, depois de um ano em que a cidade teve os olhos do mundo sobre ela por ter sido onde nasceu a pandemia que provocou a morte a milhões de pessoas.

"2020 foi um ano muito difícil para nós porque passamos pela epidemia, especialmente em Wuhan, uma experiência inesquecível", afirmou um Xu Du, habitante de Wuhan, em declarações à AFP.

"A China controlou a epidemia muito bem", disse, por sua vez, Li Yusu, um dos habitantes que saiu à rua para festejar o Ano Novo. "Mas ainda existem outros países a sofrer com o vírus. Espero que possam superar esta dificuldade o mais rápido possível", adiantou.

De referir que esta cidade chinesa, com 11 milhões de habitantes, esteve fechada, em quarentena total, entre 23 de janeiro e oito de abril, tendo diagnosticado, segundo os dados oficiais, 50 354 casos de covid-19. Mas de acordo com um estudo do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças chinês, o número de infetados com a doença poderá ter sido 10 vezes superior ao relatado, noticiou a CNN a 29 de dezembro.

As imagens que chegam da festa de final de ano em Wuhan - cidade que não regista novos casos de covid-19 desde maio -, contrastam com o que se passou em vários pontos do mundo, em que a grande maioria das pessoas deu as boas-vindas a 2021 em casa. Muitos países proibiram festas e concertos, e mantiveram as restrições para travar o aumento de infeções na Passagem de Ano.

De acordo com os números oficiais divulgados pela China, Wuhan foi a cidade do país mais afetada pela covid-19, com quase quatro mil mortos.

Presidente chinês fala de 2020 como "um ano extraordinário"

E se os milhares que festejaram nas ruas de Wuhan mostraram um regresso a uma normalidade que o resto do mundo deseja, o presidente chinês fez um discurso de vitória sobre o ano que acabou de terminar.

Dirigindo-se ao país, Xi Jinping falou de 2020 como tendo sido "um ano extraordinário". Sublinhou que a China, "com solidariedade e resistência" escreveu uma "epopeia no combate à pandemia". Jinping elogiou ainda "o heroísmo de cada cidadão".

Ao mesmo tempo que o presidente chinês destacava o sucesso do país no combate ao vírus, a televisão estatal transmitia imagens de hospitais para doentes de covid-19, construídos em tempo recorde, instalações médicas do exército e pacientes a receber alta.

A China foi acusada de encobrir o surto de covid-19 em Wuhan e de ter permitido que o vírus se propagasse pelo mundo.

Na segunda-feira, a jornalista independente Zhang Zhan foi condenada a quatro anos de prisão pelas informações que recolheu sobre o surto inicial do novo coronavírus em Wuhan. A União Europeia e a ONU apelaram à libertação da jornalista .

Zhang Zhan viajou para Wuhan, em fevereiro passado, para recolher informações sobre o surto inicial da covid-19, ocorrido no final de dezembro de 2019, e a subsequente campanha de prevenção contra a doença e tratamento dos pacientes, mas desapareceu, em maio, sendo mais tarde revelado que tinha sido detida pela polícia em Xangai, no leste da China.

O tribunal considerou que Zhang Zhan tinha "provocado distúrbios" e "procurado problemas" com as notícias que fez sobre o surto em Wuhan.

A jornalista independente recusou-se a reconhecer as acusações, tendo considerado que as informações publicadas por si em plataformas chinesas como o WeChat ou nas redes sociais Twitter e YouTube não deveriam ter sido censuradas.

As perguntas sem resposta

Ainda há muitas perguntas sem resposta sobre o coronavírus, que foi relatado em Wuhan como uma "doença pulmonar misteriosa" em 31 de dezembro de 2019 , na primeira comunicação chinesa à Organização Mundial de Saúde. A 1 de janeiro de 2020 , Li Wenliang , médico convencido de que a china estava perante um regresso do coronavírus SARS, foi convocado pela polícia e advertido por "espalhar boatos". Em fevereiro , Li Wenliang foi infetado com o novo coronavírus e morreu mesmo, o que acabou por obrigar as autoridades chinesas a reconhecer que ele foi o primeiro herói incompreendido da guerra contra a epidemia.

Wuhan, com 11 milhões de habitantes, fechou oficialmente a fase mais crítica do contágio com 50.000 casos confirmados e 4.000 mortes. Com base nesses dados, apenas 0,44% dos habitantes de Wuhan teriam sido infetados. Há poucos dias, no entanto, foi publicada uma investigação epidemiológica realizada em abril que aponta a deteção de anticorpos em 4,4% da população. Ora, isso significa que os casos de cidadãos que entraram em contato com o coronavírus seriam dez vezes mais do que o oficial, pelo menos 500.000 .

Enquanto Wuhan comemora, o resto do mundo continuaa a pedir à China uma investigação independente por especialistas da Organização Mundial de Saúde, que neste início de janeiro têm chegada prevista a Pequim para começasr a investigar a origem da pandemia.

Atualizado às 20:00

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