Vitória dos aliados de Bolsonaro no Congresso custou 500 milhões de euros

Palácio do Planalto disponibilizou verbas milionárias a deputados e senadores em troca do voto nos candidatos preferidos do presidente. Dessa forma, os pedidos de impeachment continuarão na gaveta

Para as vitórias dos preferidos de Jair Bolsonaro nas eleições das duas casas do Congresso Nacional do Brasil contribuíram as verbas, em torno de três mil milhões de reais, ou cerca de 500 milhões de euros, colocadas à disposição de 250 deputados e 35 senadores pelo governo às vésperas da eleição. Parte desses parlamentares pertence ao bloco que, à última hora, declarou apoio a Arthur Lira, na Câmara, e Rodrigo Pacheco, no Senado, em detrimento dos candidatos oposicionistas. Com isso, o presidente deve ficar a salvo dos cerca de 60 pedidos de impeachment parados no parlamento, pelo menos até ao final do seu mandato, em 2022.

Aquelas quantias, chamadas de "emendas constitucionais", são obrigatórias por lei para a realização de obras dos deputados e senadores nos seus municípios - mas o momento da transferência delas é prerrogativa do Palácio do Planalto. Nunca tanto dinheiro havia sido liberado do poder executivo para o poder legislativo num só mês de janeiro, como o de 2021, segundo o "Siga Brasil", sistema oficial de informações sobre o orçamento.

O jornal O Estado de S. Paulo, entretanto, detalhou os números totais - os tais 500 milhões de euros - quem foram os contemplados - os tais 285 parlamentares - e de onde veio o dinheiro - do Ministério do Desenvolvimento Regional.

Não ficou por aí a generosidade de Bolsonaro: o presidente deve dar de bandeja o Ministério da Cidadania aos deputados que o apoiaram e equaciona criar três novos ministérios para encaixar outros correligionários.

O presidente, aliás, admitira na última semana que "se Deus quiser, ia participar e influir na eleição para a presidência da Câmara".

O expediente de disponibilizar verbas a deputados é comum no Brasil. Perante duas denúncias criminais que poderiam levar ao seu afastamento, o ex-presidente Michel Temer também liberou emendas constitucionais a parlamentares, uma vez que cabia à Câmara permitir ou impedir a continuidade do processo.

No primeiro governo de Lula da Silva rebentou o escândalo do Mensalão, no qual o governo, em troca de votos para aprovação de projetos, pagava a deputados.

Bolsonaro, entretanto, embora tenha feito sempre parte do baixo clero do Parlamento que pactuava com o que na gíria de Brasília se chama de "toma lá, dá cá", elegeu-se com o discurso de pôr fim à prática - prometeu "uma nova política".

"Quero um governo sem toma lá dá cá, sem acordos espúrios, um governo formado por pessoas que tenham compromisso com o Brasil e com os brasileiros", disse em agosto de 2018, a dois meses da sua eleição.

"Toda a imprensa me pergunta: 'Mas como você vai governar sem o "toma lá, dá cá"?' Eu devolveria a pergunta: existe outra forma de governar, ou é só essa? Se é só essa, eu estou fora!", afirmou em novembro de 2017.

A diferença entre o que prometeu o candidato Bolsonaro e o que faz o presidente Bolsonaro levou Hélio Schwartsman, colunista do jornal Folha de S. Paulo, a escrever "se eu fosse bolsonarista estaria na rua quebrando tudo, é que há um limite para o número de vezes que uma pessoa se pode deixar enganar sem comprometer a autoimagem".

Para Bernardo Mello Franco, articulista de O Globo, "fragilizado, Bolsonaro se rendeu ao "centrão" e decidiu abrir os cofres para comprar proteção parlamentar, o investimento em Lira representa a contratação de um seguro contra o impeachment", sendo que "centrão" é o nome atribuído ao grupo de partidos que se aliam a qualquer governo em troca de cargos e verbas.

Lira, que ao longo da carreira foi acusado de corrupção, enriquecimento ilícito e violência doméstica, conquistou 302 votos de um universo de 513 - Baleia Rossi, o candidato da oposição que prometera analisar os pedidos de impeachment, ficou-se por 140. No Senado, Pacheco somou 57 votos e a concorrente Simone Tebet, 21.

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