Violência entre árabes israelitas e judeus revela "barril de pólvora" à espera de explodir

As cidades mistas israelitas foram palco de motins durante o conflito entre Israel e o Hamas, com o presidente Rivlin a alertar para o risco de "guerra civil". Apesar de terem os mesmos direitos, os árabes queixam-se de discriminação.

O cessar-fogo entre Israel e o Hamas parece intacto, mas o conflito de 11 dias pode ter deixado marcas para além dos mais de 250 mortos e da destruição na Faixa de Gaza. "O Hamas desferiu um golpe na democracia israelita ao mostrar que pode fomentar violência étnica entre os árabes israelitas e os judeus", escreveu o The Wall Street Journal num dos editoriais desta semana. Além dos rockets lançados desde Gaza e dos bombardeamentos de Israel, a violência chegou desta vez às cidades israelitas onde judeus e árabes vivem lado a lado. Uma situação que levou o presidente Reuven Rivlin a alertar para o risco de "guerra civil".

Cerca de 21% dos mais de 9 milhões de israelitas são árabes, mais de 80% dos quais muçulmanos (há ainda cerca de 9% de cristãos e 9% de drusos). São herdeiros dos quase 160 mil palestinianos que permaneceram dentro das fronteiras do Estado de Israel, após a sua criação em 1948, quando 750 mil optaram por fugir ou foram expulsos das suas terras.

Na Constituição de Israel os árabes são chamados a "participar na construção" do Estado, "com base numa cidadania plena e igualitária", pelo que os árabes israelitas têm os mesmos direitos do que os restantes cidadãos - a principal diferença é que não têm de fazer o serviço militar obrigatório. Contudo, há muito que se queixam de discriminação. Apesar de não haver uma segregação institucional, judeus e árabes vivem praticamente separados exceto em algumas cidades, apelidadas "mistas", sendo que as zonas árabes normalmente recebem menos financiamento do que as restantes, o que tem um impacto ao nível de educação, infraestruturas ou serviços sociais.

"Existe o mito recorrente de que estas comunidades são faróis de esperança", escreveu Nasreen Haddad Haj-Yahya, diretora do Programa de Relações entre Árabes e Judeus do Instituto de Democracia de Israel, num artigo de opinião. "Na realidade, os residentes árabes das cidades mistas vivem quase completamente vidas separadas da maioria judia. Bairros, e até quarteirões completos, estão claramente delineados entre os residentes judeus e os árabes, e nem é preciso dizer que quase todas as escolas são completamente separadas", disse. "Eu cresci em Ramla, uma cidade mista com residentes árabes e judeus. Não tive interação com os residentes judeus e não falei hebraico até ter feito 18 anos e ter o meu primeiro emprego", indicou.

O facto de os árabes israelitas não fazerem o serviço militar obrigatório também tem um impacto socioeconómico, visto que os veteranos têm benefícios e acesso a outros empregos. O desemprego entre os cidadãos árabes entre os 18 e os 24 anos é de 30%, comparado com 13% dos judeus na mesma faixa etária. Para piorar a situação, em 2018, Israel aprovou a polémica lei do Estado-nação que, entre outras coisas, retirou o árabe de língua oficial (é só língua reconhecida) e declarou o direito à autodeterminação nacional como "exclusivo do povo judeu".

21% Dos cerca de nove milhões de israelitas, quase 21% são árabes, herdeiros dos palestinianos que ficaram após a criação do Estado de Israel em 1948. Destes, 80% são muçulmanos.

Os motins que irromperam em várias cidades mistas, começando com Lod nos arredores de Telavive (onde um árabe e um judeu acabaram por morrer), não surpreendeu quem lá vive. "Uma tempestade perfeita estava há muito tempo a desenvolver-se", escreveu Nasreen Haddad Haj-Yahya. "O desemprego jovem com poucas perspetivas no horizonte junta-se ao crime crescente nas comunidades árabes. O governo e os municípios esbanjam dinheiro em projetos e políticas que beneficiam os residentes judeus, muitas vezes às custas dos residentes árabes de longa data. Tudo isto criou um barril de pólvora pronto para ser incendiado no final do Ramadão", referiu.

Um dos rastilhos da violência das últimas semanas foi a decisão judicial (a aguardar o parecer final do Supremo Tribunal) de expulsar um grupo de palestinianos do bairro de Sheikh Jarrah, em Jerusalém Oriental, num processo que já se arrasta há décadas. Em causa está um grupo de refugiados palestinianos, expulsos das suas terras em 1948, que foram alojados em Sheikh Jarrah (onde antes havia uma pequena comunidade judia) com o apoio do governo jordano (que controlava então a Cisjordânia e Jerusalém Oriental).

Israel anexou o território após a Guerra dos Seis Dias, em 1967, e as famílias judias reclamam o direito às propriedades onde alegadamente viviam antes de 1948. As famílias palestinianas queixam-se de discriminação, já que não podem elas próprias reclamar o direito às propriedades de onde foram expulsas nessa altura, dentro do que é agora Israel. O Supremo suspendeu a decisão final sobre o caso, e esta arrisca voltar a incendiar a situação.

"Não existe ameaça maior agora do que estes motins e é essencial voltar à lei e à ordem", disse o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, depois de visitar Lod, dias após os confrontos começarem e de ter sido decretado o estado de emergência. Mais de 400 pessoas, entre judeus e árabes israelitas, foram detidas. A situação acalmou, mas a questão é saber até quando.

Os motins surgiram numa altura em que um partido árabe israelita - o Ra"am de Mansour Abbas - surgia como fundamental para a formação de governo, o que lhes daria um poder maior do que alguma vez tiveram. Num parlamento com 120 lugares, há apenas 12 deputados árabes israelitas. O conflito das últimas duas semanas, deixou em suspenso a negociação para a formação de um governo, que poderia ditar a saída de Netanyahu. Yair Lapid, do partido Yesh Atid, tem até 2 de junho para conseguir negociar um acordo, sendo que estava à beira de o conseguir fazer com o Yamina, de Naftali Bennett.

susana.f.salvador@dn.pt

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