Violência em Jerusalém. Vem aí a terceira intifada?

Piores confrontos entre israelitas e palestinianos desde 2017. Mais de 300 feridos junto à mesquita de Al-Aqsa. Hamas lançou rockets e Israel respondeu com ataque aéreo.

O movimento islamita do Hamas lançou ontem rockets desde a Faixa de Gaza, fazendo soar as sirenes em Jerusalém, num dia que começou com confrontos entre os palestinianos e as forças de segurança israelitas junto à mesquita de Al-Aqsa. Israel respondeu com um ataque aéreo, que terá resultado na morte de nove pessoas, entre elas três crianças. O escalar da violência, o mais grave em Jerusalém desde o verão de 2017 (quando dois polícias israelitas foram mortos), faz temer o início da terceira intifada.

A violência que começou por causa das restrições que os israelitas tentaram impor no início do Ramadão, mês sagrado para os muçulmanos, e se intensificou pela decisão judicial de expulsar famílias palestinianas das suas casas, parece descontrolada. "Estamos numa luta que se estende por várias frentes: em Jerusalém, Gaza e noutras partes do país", disse ontem o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu. "Quem nos atacar, irá pagar um preço elevado", acrescentou, alegando que os "terroristas" passaram "uma linha vermelha".

Para os analistas, a violência de agora tem os mesmos ingredientes que a segunda intifada, podendo acabar numa terceira rebelião. Em setembro de 2000, uma visita do então líder da oposição israelita Ariel Sharon (chefiaria o governo de 2001 a 2006) ao Monte do Templo ou Esplanada das Mesquitas (onde fica Al-Aqsa) foi o tiro de partida. A violência durou quatro anos e causou mais de quatro mil mortos (três mil do lado palestiniano).

A complicar mais a atual situação está o momento político. "Em Israel temos a possibilidade de um partido de centro, mais secular, menos sionista, formar governo", disse ao DN a professora da Universidade Autónoma, Maria João Tomás. Netanyahu venceu as eleições de março (as quartas em dois anos), mas não conseguiu formar governo. Yair Laid, do Yesh Atid (centro, 17 deputados), está na fase final das negociações da aliança com Naftali Bennett, do Yamina (direita, sete deputados), sendo que este assumiria o poder na primeira parte do mandato. Mas precisam de mais partidos.

"Por outro lado, estamos em vésperas das eleições na Palestina. As eleições foram adiadas, mas hão de acontecer, mais cedo ou mais tarde", lembrou Maria João Tomás. O líder da Fatah, Mahmoud Abbas, que controla a Cisjordânia, adiou o escrutínio (o primeiro em 15 anos) alegando querer garantir a participação dos palestinianos em Jerusalém Oriental (ocupada).

"O que se está a passar é benéfico, se o podemos dizer assim, para os extremista nacionalistas. Quer os sionistas, do lado israelita, do qual Netanyahu é um dos melhores exemplos, quer para o Hamas, do lado da Palestina, que tem interesse em ganhar a Abbas", acrescentou a professora. O Hamas controla a Faixa de Gaza. "Interessa manter este estado de violência latente", referiu Maria João Tomás.

Crescendo de violência

Os choques começaram no início do Ramadão, quando os israelitas quiseram proibir o acesso à porta de Damasco, ponto de encontro popular após as orações da noite no mês de jejum desde o nascer até ao pôr-do-sol. E agravaram-se adias de acabar. Na primeira noite de violência em Al-Aqsa, na sexta-feira, mais de 220 pessoas ficaram feridas - palestinianos atiraram pedras e garrafas contra as forças de segurança, que responderam com balas de borracha e granadas de atordoamento.

No sábado, a situação esteve calma na mesquita, com bolsas de violência noutras zonas da cidade e mais uma centena de feridos. No domingo, houve confrontos, mas ontem a situação descontrolou-se. Era o Dia de Jerusalém, que marca o aniversário da captura da Cidade Velha e de Jerusalém Oriental por parte dos israelitas, na guerra dos Seis Dias de 1967. Nos últimos anos, a data tem sido assinalada com marchas de israelitas, a maioria nacionalistas religiosos, que são consideradas uma provocação pelos palestinianos. Na manhã antes da marcha (que foi desviada para evitar incendiar a situação), novos confrontos irromperam junto a Al-Aqsa, com um saldo de mais de 300 feridos. À noite, havia um incêndio nas árvores do complexo.

A marcha pôs ainda mais fervura numa situação já tensa, por causa da decisão judicial de expulsar uma dezena de famílias palestinianas das casas onde vivem há décadas, no bairro de Sheikh Jarrah. Era esperada ontem uma decisão do Supremo Tribunal, mas foi adiada para evitar mais confusão.

susana.f.salvador@dn.pt

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