Vídeos Tesla nas redes sociais: uma perigosa tendência

Uso errado do sistema de condução autónoma tem levantado várias questões de segurança. Acidentes sob investigação

Uma viagem de automóvel festiva e embriagada capturada para a rede social TikTok com uma banda sonora a cargo de Justin Bieber e com um Tesla em condução autónoma como "Motorista Designado" para a noite.

Neste curto vídeo, três jovens aparecem a dançar nos seus lugares, dentro do automóvel, com cervejas à mão, enquanto o veículo se matém a circular na estrada lado a lado com outros carros, a 105 quilómetros por hora, conforme mostrado no velocímetro. Sem ninguém atrás do volante.

Este videoclipe, com quase dois milhões de gostos e compartilhado 105.000 vezes, é apenas um dos muitos vídeos semelhantes a circular nas redes sociais, conforme pesquisa da agência da AFP.

O comportamento é totalmente ilegal e desrespeita as instruções do fabricante, que afirma no seu site que o sistema de assistência ao motorista da Tesla "se destina ao uso com um motorista totalmente atento, que tenha as mãos no volante e esteja preparado para assumir a condução a qualquer momento."

Além do sistema "Autopilot" da Tesla, que combina a velocidade do veículo com a do tráfego circundante e auxilia na direção dentro de uma pista claramente demarcada, a Tesla oferece o que chama de "capacidade total de direção autónoma".

Os recursos desse programa incluem ajuda a estacionar um carro ou manobrar um veículo para dentro e fora de um lugar de estacionamento apertado. O Tesla alerta o condutor e, por fim, desliga o sistema autónomo se o cinto de segurança do não estiver colcoado ou se as mãos do motorista não forem detetadas no volante.

Enganar o sistema

No entanto, essas proteções são pouco inibidoras para condutores de carros Tesla determinados a fazer um mau uso dos veículos. A revista Consumer Reports divulgou um vídeo no qual um jornalista se mostrava incrédulo, durante um teste, sobre quão facilmente podia enganar o sistema do Tesla para que ele dirigisse sem ninguém ao volante.

"Os idiotas serão sempre idiotas, vão sempre encontrar uma maneira de enganar o sistema e isso não é culpa da Tesla. Eles podem inventar um monte de outras coisas, mas as pessoas vão simplesmente arranjar formas de as ludibriar", disse um utilizador, que se autodenomina como Dirty Tesla (Tesla Sujo) num vídeo publicado na sua página no YouTube, que tem 55.000 subscritores ("Dirty Tesla" descreveu-se a si mesmo como o presidente de um clube de proprietários de Tesla em Michigan, nos EUA, mas recusou fornecer o seu nome real).


Mas a própria Tesla tem sido menos do que clara, recomendando aos utilizadores que sigam as instruções, mesmo quando emprega terminologia confusa nos seus programas de assistência ao motorista, e o seu líder, Elon Musk, faz constantemente declarações genéricas sobre as potencialidades da tecnologia.

Musk previu no início deste ano que os veículos da empresa alcançariam o nível 5 de autonomia, ou condução totalmente autónoma, em 2021. Ainda assim, em 2015, o multimilionário tinha dito que a meta seria alcançada em apenas dois anos.

"Algumas empresas são mais cuidadosas do que outras na forma como anunciam", nota Andrew Kun, especialista em interações homem-computador e professor da Universidade de New Hampshire, consultado pela reportagem da AFP.

"O problema é o excesso de confiança, pensar que o sistema pode fazer mais do que realmente é capaz", considera Kun. "Esse é o problema de chamar 'piloto automático' a algo que na verdade não o é."

Acidentes mortais

A reforçar a gravidade do tema está já uma série de acidentes fatais que levantaram suspeitas de que a tecnologia da Tesla pode ter sido mal utilizada.

A 17 de abril, duas pessoas morreram perto de Houston (Texas, EUA) após um Tesla ter embatido numa árvore.
Um relatório preliminar do National Transportation Safety Board não conseguiu avaliar se alguém estava ao volante, mas a polícia local reportou que não havia ninguém no banco do condutor.

Num outro acidente fatal em maio, perto de Los Angeles, também sob investigação, o condutor tinha publicado imagens nas redes sociais a dirigir o Tesla sem as mãos no volante.

Apesar dos muitos milhões gastos até agora, as marcas ainda não conseguiram produzir um veículo com total autonomia. O sistema da Tesla atingiu o Nível 2 de autonomia na escala da Society of Automotive Engineers, ainda longe da autonomia total e exigindo uma pessoa no lugar do condutor que possa assumir o controlo se necessário.

No estado norte-americano da Califórnia, as entidades reguladoras anunciaram que estão a analisar se o marketing da Tesla engana os consumidores - especificamente, se violou uma lei que "proíbe uma empresa de anunciar veículos para venda ou aluguer como autónomos, a menos que o veículo atenda à definição legal e regulamentar de veículo autónomo", disse o Departamento de Veículos Motorizados à AFP.

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