Três pessoas mortas "por causa de música". Não foram "verdadeiros talibã", diz governo

Homens armados que se apresentaram como talibã abriram fogo num casamento por causa de haver música, matando pelo menos três pessoas, anunciou hoje o Governo afegão, que garante que atiradores não são talibã.

"Os jovens puseram música numa sala à parte, três talibã chegaram e abriram fogo sobre eles. Os dois feridos estão em estado grave."

Este é o relato de uma testemunha do ataque, perpetrado durante um casamento, citada pela agência noticiosa francesa AFP. Mas o porta-voz do governo talibã do Afeganistão, Zabihullah Mujahid, já veio negar que se tratasse de "verdadeiros talibã" ou alguém a agir em nome do grupo que tomou o poder no Afeganistão na sequência da retirada das forças ocidentais no final de agosto; garante até que dois dos três atacantes foram detidos.

O que se passou realmente, segundo Mujahid, foi que "na noite passada, no casamento de Haji Malang Jan, na aldeia de Shamspur Mar Ghundi, em Nangarhar [uma das 24 províncias do país, junto à fronteira com o Paquistão], três pessoas apresentando-se como talibãs entraram na cerimónia e exigiram que parassem a música." A seguir, dispararam. "Em resultado dos disparos", informa o porta-voz talibã, "pelo menos três pessoas morreram e várias outras ficaram feridas. Dois suspeitos foram detidos pelos talibã e um, que fugiu, está a ser procurado."

Diz ainda Mujahid que os atacantes "utilizaram o nome do Emirado Islâmico para resolver os seus problemas pessoais" e por esse facto "enfrentarão a lei da Sharia".

Qazi Mullah Adel, porta-voz do governo da província de Nangarhar, confirmou o incidente, sem fornecer mais pormenores.

A versão do governo está no entanto a ser contestada. O jornalista afegão Bashir Ahmad Gwakh escreveu na noite deste sábado no Twitter que as vitimas são primas de outro jornalista afegão, Hafiz Gardesh, e que "o porta-voz do governo agora garante que os atiradores se estavam a fazer passar por talibãs, mas isso não é verdade."

Segundo Gardesh, que Gwakh cita, os talibã apreenderam os telemóveis dos presentes no casamento. E que estes tentaram, em protesto, levar os cadáveres para a sede do governo mas não lhes permitiram fazê-lo.

Recorde-se que toda a música considerada profana foi proibida pelos talibãs no seu anterior regime (1996-2001). Apesar de o novo Governo talibã não ter ainda legislado sobre essa matéria, já disse considerar a audição de música não religiosa contrária à sua visão da lei islâmica.

Numa conferência de imprensa realizada anteriormente, Zabihullah Mujahid garantira: "Se alguém decidir matar uma pessoa, mesmo que se trate dos nossos homens, é um crime e nós levá-lo-emos a tribunal e terá de enfrentar a lei".

Também nesta sexta-feira, um jornalista foi alvo de disparos em Cabul, ficando ferido sem gravidade.

O ataque surge dias após uma organização de jornalistas afegões ter reportado mais de 30 casos de violência ou de ameaças violentas contra jornalistas afegãos durante os últimos dois meses, sendo a esmagadora maioria - quase 90% - da responsabilidade de talibãs.

Mais de 40% dos casos corresponderam a agressões físicas; outros 40% foram ameaças de violência. Os restantes 20% corresponderam a detenções. Um jornalista, Sayed Maroof Sadat, foi assassinado no início de outubro, juntamente com um primo e dois talibã, num ataque reivindicado pelo grupo que se identifica como um braço local do Daesh. Dois outros jornalistas morreram no ataque suicida no aeroporto de Cabul.

As autoridades talibã têm repetidamente dito que os media devem seguir as "leis islâmicas" sem porém explicitar o que querem dizer com isso. .

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