Talibãs querem entrar em Cabul, estrangeiros ficar e afegãos fugir

Fundamentalistas avançam no terreno enquanto procuram reconhecimento de russos e chineses. Turcos querem controlar aeroporto pelo qual milhares anseiam exilar-se.

Um polícia de guarda ao edifício da missão das Nações Unidas em Herat foi uma das mais recentes vítimas dos talibãs, os quais atacaram as forças governamentais às portas daquela cidade, a terceira mais povoada do Afeganistão. Centenas de pessoas fugiram, juntando-se às 300 mil deslocadas desde o início do ano, numa tendência galopante desde que os Estados Unidos anunciaram a saída das suas forças até ao fim de agosto.

Agora que o movimento extremista controla mais de metade dos distritos do país e seis postos fronteiriços com o Paquistão, Irão, Turcomenistão e Tajiquistão, na capital teme-se que a história se repita e que os "estudantes" voltem a aterrorizar os habitantes de Cabul. Sair do país é uma opção a ter em conta para quem pode.

222 distritos em 407 estão sob controlo dos talibãs, segundo o Long War Journal. Um avanço que parece imparável: no início de julho haviam tomado um terço dos distritos.

Na sexta-feira, os Estados Unidos acolheram cerca de 200 afegãos do primeiro voo da Operação Refúgio Aliado, a qual prevê o acolhimento de intérpretes e tradutores afegãos, bem como as respetivas famílias, um número que pode ascender a cem mil pessoas. "Hoje é um marco importante, uma vez que continuamos a cumprir a nossa promessa aos milhares de cidadãos afegãos que serviram lado a lado com tropas e diplomatas americanos ao longo dos últimos 20 anos no Afeganistão", disse Biden numa declaração divulgada pela Casa Branca.

Milhares de afegãos sujeitam-se todos os dias a filas de horas para tratar do passaporte. Um polícia disse à AFP que agora há cerca de dez mil pessoas atendidas por dia, cinco vezes mais do que há um par de meses. A repressão imposta pelo regime fundamentalista acabou há duas décadas com a chegada das tropas norte-americanas e britânicas, mas mesmo quem não tem memórias desse tempo sabe o que fizeram.


1659 civis. Um relatório da missão das Nações Unidas no país indica que os talibãs mataram 1659 civis e feriram outros 3254 nos primeiros seis meses do ano.

"A única coisa que sei é que os talibãs têm o rosto do terror - lutas, atentados suicidas e massacres", disse Zeenat Bahar Nazaria, de 23 anos, na fila para o passaporte. A estudante de ciências informáticas também teme pelo seu futuro pois sabe que os talibãs eram "violentos para com as mulheres, não permitiam que fossem educadas e privavam-nas dos seus direitos básicos", o que é incompatível com as aspirações de qualquer mulher, ainda mais as instruídas. "Quando se vai à escola ou à universidade espera-se um futuro brilhante, mas se os talibãs tomarem o poder essa esperança desaparecerá."

Para onde irão os afegãos, mesmo que tenham dinheiro para vistos, é outra questão: a maior parte dos países exige documentação que, na prática, acaba por impedir a viagem.

10 000 estrangeiros. Segundo o presidente afegão Ashraf Ghani, contam-se mais de dez mil combatentes e mercenários de outras nacionalidades ao lado dos talibãs.

Uma viagem que só teve ida é a dos combatentes estrangeiros que lutam ao lado dos talibãs. O presidente Ashraf Ghani apontou o dedo em especial aos paquistaneses, os quais são "membros de redes radicais, de movimentos terroristas transnacionais e de organizações criminosas" que em conjunto com os talibãs acusa de estarem ligados ao narcotráfico. Ghani e o seu negociador chefe Abdullah Abdullah mostram-se pouco otimistas em relação às conversações com os talibãs, que acusam de querer apenas tomar o poder pela força e exortou a comunidade internacional "a rever a narrativa da vontade dos talibãs e dos seus apoiantes em abraçar uma solução política".

As declarações de Ghani surgiram num momento em que os talibãs procuram reconhecimento internacional. Foram recebidos pelo governo chinês, três semanas depois de visita semelhante a Moscovo. A uns e outros, os fundamentalistas garantiram que uma vez no poder não deixarão que o Afeganistão seja usado como base para outras organizações extremistas - no fundo o compromisso que assinaram com a administração Trump. Mas há diferenças significativas: Rússia e China têm ou tiveram no seu território movimentos separatistas de inspiração islamista. E, por outro lado, ao assistirem à retirada dos Estados Unidos, querem preencher esse vazio. Os analistas indicam que Pequim terá todo o interesse em alargar a iniciativa Uma faixa, uma rota até a um Afeganistão estável e os talibãs verão na China um potencial financiador.

Nos próximos dias, a Rússia vai realizar exercícios militares em conjunto com tropas do Usbequistão e Tajiquistão neste último país, fronteiro ao Afeganistão, e no qual Moscovo mantém uma base militar. O ministro da Defesa russo Sergei Shoigu visitou a capital tajique, Duxambé, tendo responsabilizado a retirada "apressada" dos EUA pela deterioração da segurança na região e ofereceu "qualquer ajuda necessária aos amigos do Tajiquistão".

Também a Turquia está interessada em desempenhar um papel relevante no Afeganistão. O presidente Erdogan ofereceu os serviços do seu exército para manter seguro o aeroporto de Cabul. Uma jogada em vários tabuleiros geopolíticos sobre a qual, antes de mais, Ancara terá de convencer os talibãs.

cesar.avo@dn.pt

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