Talibãs dizem controlar 85% do Afeganistão

Grupo islamista promete não abrigar organizações terroristas e diz querer uma solução negociada com o governo de Cabul.

Numa conferência de imprensa realizada na capital russa, os talibãs afirmaram que já controlam 85% do território afegão, uma alegação que não foi desmentida de imediato pelas autoridades de Cabul. Na última vez que o grupo islamista havia comunicado sobre os ganhos territoriais, a contagem ia num terço dos 421 distritos do país, agora dizem ter tomado 250 distritos. Este anúncio dá-se horas depois de o presidente norte-americano ter voltado a defender a retirada total das tropas daquele país.

Os talibãs são considerados como uma organização terrorista para a Rússia, mas isso não impediu Moscovo de receber uma delegação. A missão dos talibãs tinha como objetivo declarado tranquilizar os russos e seus aliados na região: nesta semana cerca de mil militares afegãos fugiram para o Tajiquistão na sequência de combates, da tomada de território e da passagem fronteiriça para o país onde a Rússia tem uma base militar.

Os anteriores ocupantes do Afeganistão, aquando da União Soviética, voltaram a ter um papel importante na região, agora como mediadores. Nos últimos meses receberam várias rondas negociais, a última das quais em março, com talibãs. Para o porta-voz do Kremlin, o facto de a organização estar etiquetada como terrorista é agora secundário e ter os talibãs como interlocutores é "necessário, dada a intensidade com que a situação no Afeganistão se está a desenvolver, como se está a desenvolver a situação na fronteira entre o Afeganistão e o Tajiquistão", disse Dmitri Peskov.

Em Moscovo, os talibãs prometeram cumprir o acordo firmado com os Estados Unidos de que "não permitirão que ninguém, nenhum indivíduo, nenhuma entidade utilize o solo do Afeganistão contra um país vizinho, um país da região ou um país do mundo, incluindo os Estados Unidos e os seus aliados". A invasão dos EUA ao Afeganistão e consequente expulsão dos talibãs do poder deveu-se ao facto de os fundamentalistas afegãos manterem boas relações com a Al-Qaeda.

A nível interno, os talibãs prometeram poupar as capitais de província da guerra e expressaram a esperança de uma "resolução política" com Cabul. "Não vamos capturar capitais de província para não infligir a morte a cidadãos afegãos", disse o negociador talibã Mawlawi Shahabuddin Delawar. Em troca, o grupo extremista exige a libertação de mais prisioneiros talibãs. "Não queremos lutar". Queremos encontrar uma resolução política através de negociações políticas", disse o porta-voz talibã Mohammad Sohail Shaheen.

Na quinta-feira, Joe Biden voltou a falar sobre a retirada dos EUA, tendo antecipado para 31 de agosto a saída dos últimos militares (à exceção do contingente na embaixada). "Não enviarei outra geração de americanos para a guerra no Afeganistão, sem qualquer expectativa razoável de alcançar um resultado diferente", disse. Sobre o futuro do país asiático, comentou que "não é inevitável" que o Afeganistão caia nas mãos dos talibãs, e que depende dos seus líderes.

cesar.avo@dn.pt

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