"Será um grande desafio para o governo japonês aumentar aos poucos os gastos com a defesa"

Especialista em questões de segurança na Ásia Oriental e professora em Tóquio na Universidade Sophia, Shino Watanabe considera que Quad é mais importante para o Japão do que a inclusão no AUKUS, mas não vê como provável uma guerra com a China.

A aliança de segurança trilateral AUKUS entre os EUA, Austrália e Reino Unido é uma boa notícia para o Japão, porque mostra a vontade ocidental de contrabalançar a China como potência marítima?
O AUKUS é uma boa notícia para o Japão porque os três países envolver-se-ão mais na paz e estabilidade no Indo-Pacífico, especialmente quando a China se está a tornar crescentemente assertiva e as suas atividades no Mar do Sul da China se têm intensificado. A Austrália terá um papel crucial no AUKUS, com a sua localização no hemisfério sul e os seus submarinos nucleares - assim que a Austrália os apresentar no futuro.

Pensa que, um dia, essa aliança de segurança também poderá incluir o Japão e a Índia?
É improvável que o Japão e a Índia adiram ao AUKUS num futuro previsível. O AUKUS é uma aliança militar entre a Austrália, o Reino Unido e os Estados Unidos. Eles pertencem aos Cinco Olhos e podem partilhar informação e, portanto, terão um nível mais alto de cooperação militar entre si. O Japão e a Índia já são membros do "Quad" e é mais importante para o Japão, a Índia, os Estados Unidos e a Austrália tornarem o Quad mais substancial e atraente, do que o Japão e a Índia aderirem ao AUKUS. O AUKUS pode desempenhar um papel diferente do Quad, mas eles complementam-se e trabalham em conjunto.

O Japão está confortável com a aliança tradicional com os EUA contra possíveis ameaças da China ou da Coreia do Norte?
Sim. A aliança Japão-EUA é a base da política externa e de segurança do Japão e assim continuará a ser no futuro. A aliança de segurança com os EUA tornou-se mais vital para o Japão lidar com possíveis ameaças vindas da China e da Coreia do Norte. Em outubro deste ano, o primeiro-ministro Fumio Kishida anunciou no seu discurso político que reveria a Estratégia de Segurança Nacional, a política básica de diplomacia e defesa, que foi formulada originalmente em 2013. A nova Estratégia de Segurança Nacional continuará a basear-se na Aliança Japão-EUA, esta continuará a ser o seu alicerce.

A substituição de Donald Trump por Joe Biden na Casa Branca afetou o Japão de alguma forma?
A Administração Trump favoreceu uma abordagem unilateral para lidar com questões internacionais, incluindo a China. Em contraste, a administração Biden favorece uma abordagem multilateral e pede o apoio dos aliados para lidar com os desafios que os EUA enfrentam. Nesse sentido, o Japão tem mais oportunidades de trabalhar com os EUA em muitas frentes durante o governo Biden. Ao mesmo tempo, o Japão pode ter um desafio mais difícil na manutenção de relações estáveis com a China sob o governo Biden se os EUA pedirem ao Japão que se junte aos EUA para exercer mais pressão sobre a China como, por exemplo, em questões de direitos humanos. No próximo ano, 2022, comemora-se o 50.º aniversário das relações diplomáticas do Japão com a China. Mesmo que seja difícil melhorar drasticamente as relações Japão-China, ambos os lados esperam evitar conflitos e problemas desnecessários. Além disso, o Partido Comunista Chinês provavelmente convocará o 20.º Congresso Nacional do Partido no próximo outono, assim os próximos nove ou dez meses serão críticos para Xi Jinping assegurar o seu terceiro mandato. Os Estados Unidos terão eleições intercalares no próximo outono, e essa é a principal prioridade do governo Biden no futuro imediato. Atualmente, a política interna molda a política externa dos EUA, e é improvável que os fatores internos melhorem as relações EUA-China. Assumir uma postura de linha-dura contra a China é uma das poucas agendas nos Estados Unidos para a qual o governo Biden pode contar, hoje, com o apoio bipartidário. A popularidade do governo Biden nos Estados Unidos pode determinar a sua postura de linha-dura em relação à China. Se o governo Biden usar uma "carta da China" pedindo ao Japão para se sintonizar com os EUA, o Japão poderá enfrentar um desafio difícil. Ao mesmo tempo, a política externa do governo Biden tem sido mais estável e previsível do que a do governo Trump. Nesse sentido, dificilmente o Japão enfrentará uma grande surpresa vinda dos Estados Unidos.

O facto de ser natural de Hiroxima afeta as posições do novo primeiro-ministro Fumio Kishida nas políticas externa e de defesa?
Kishida acredita fortemente na não-proliferação. Ele foi o principal arquiteto da visita do ex-presidente americano Barack Obama a Hiroxima em 2016, como ministro dos Negócios Estrangeiros do Japão na época. Servindo como ministro dos Negócios Estrangeiros durante quase cinco anos no segundo governo Abe, Kishida ganhou experiência em diplomacia e política externa, o que o beneficiará muito a partir de agora como primeiro-ministro do Japão. Com base na sua experiência como ministro dos Negócios Estrangeiros, a sua política externa irá dar continuidade aos governos Abe e Suga sem nenhuma mudança radical.

O debate sobre os limites impostos pelo artigo 9.º da Constituição em termos de capacidades militares está encerrado no Japão?
O Partido Liberal Democrata anunciou uma promessa de aumentar a despesa com a defesa para 2% do PIB durante a campanha eleitoral em outubro. O primeiro-ministro pode aumentar gradualmente o orçamento de defesa do Japão, como foi sugerido na promessa de campanha do PLD, mas levará muito tempo, mais de dez anos. Há uma oposição persistente ao aumento do orçamento de defesa no Japão. Será um grande desafio para o atual governo aumentar aos poucos os gastos com a defesa, e o primeiro-ministro Kishida pode ter de consumir o seu capital político para fazer isso.

O Japão está preocupado com uma guerra chinesa em Taiwan?
É improvável que a China faça guerra contra Taiwan num futuro previsível, porque Taiwan não é um inimigo na perspetiva da China. A China quer unificar Taiwan sem antagonizar Taiwan e o seu povo. O uso da força bruta pela China contra Taiwan é contraproducente a esse nível e, portanto, improvável. Ao mesmo tempo, a China tem pressionado militarmente Taiwan. Por outros meios, como operações de influência, a China continuará a fazê-lo até à próxima eleição presidencial em 2024.

A integração económica do Leste Asiático, com a China e o Japão como principais parceiros comerciais, é uma forte barreira contra algum conflito militar?
É improvável que o Japão e a China entrem em conflito militar um contra o outro. Os principais líderes dos dois países têm o interesse comum de manter relações estáveis e evitar conflitos desnecessários. A integração económica e a forte parceria comercial também exigem ambientes pacíficos.

A Rússia é vista como uma ameaça pelo Japão ou agora é apenas um país com diferendos territoriais para resolver?
A Rússia foi a ameaça potencial mais significativa para o Japão durante o período da Guerra Fria até a década de 1980, mas hoje é-o menos. Ao mesmo tempo, o Japão tentou há muito tempo resolver a disputa territorial com a Rússia, mas não teve sucesso. A menos que a questão territorial seja resolvida pacificamente, a perceção do povo japonês sobre a Rússia permanecerá séria. A Rússia está a construir instalações militares nos Territórios do Norte. As relações sino-russas foram fortalecidas nos últimos anos, e a Rússia e a China realizam os primeiros exercícios de guerra conjunta no Pacífico Ocidental em outubro. A este nível, é necessário continuar a prestar muita atenção à Rússia.

Qual a importância para o Japão do surgimento de uma espécie de aliança global das democracias?
Como um dos mais antigos países democráticos da Ásia, o Japão valoriza muito a democracia e a construção de coligações entre países democráticos, como o Quad, é uma medida bem-vinda. Ao mesmo tempo, é fundamental não excluir as não-democracias como parceiras, enfatizando demais o valor democrático. O Japão deve continuar a ter várias oportunidades de cooperar com democracias e não-democracias.

leonidio.ferreira@dn.pt

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