Republicanos castigam Liz Cheney por fazer frente a Trump

Até hoje terceira na hierarquia da Câmara dos Representantes, a dirigente rompeu com o presidente e com a sua campanha de mentiras - e o partido rompeu com Cheney.

Perdeu as eleições presidenciais, a maioria na Câmara dos Representantes e no Senado, foi destituído por duas vezes pela Câmara e é alvo de várias investigações judiciais. Porém, e ainda que sem o megafone das redes sociais, Donald Trump continua a ser o líder dos republicanos na sombra. Poucos membros do partido ousam criticá-lo. E quem o tem feito de forma consistente, como Liz Cheney, acaba por sofrer as consequências.

A representante pelo Wyoming era até hoje a mulher no Partido Republicano com o terceiro cargo mais alto na Câmara, como presidente da conferência republicana, a seguir ao líder da minoria, Kevin McCarthy, e ao chefe da bancada, Steve Scalise. Foi substituída pela representante de Nova Iorque, Elise Stefanik, que se destacou pela fidelidade a Donald Trump durante os processos de impeachment. E, como tal, recebeu o aval do ex-presidente.

"Liz Cheney é uma tola belicista que não tem nada a ver com a liderança do Partido Republicano", disse Trump num comunicado, na semana passada. "Queremos líderes que acreditem no movimento Make America Great Again e que deem prioridade aos valores da America First. Elise Stefanik é uma escolha muito superior, e ela tem o meu apoio completo e total", afirmou o homem que se retirou para a Florida, não sem antes concluir que "Elise é uma comunicadora dura e inteligente".

Ato contínuo, Steve Scalise defendeu a despromoção de Cheney. No fim de semana, Kevin McCarthy disse "estar farto" de Cheney e de ter perdido a confiança nela, e na segunda-feira enviou uma carta aos colegas da Câmara a anunciar a eleição antecipada para presidente da conferência. "Infelizmente, cada dia passado a remexer no passado é um dia a menos para conquistarmos o futuro", pelo que há que cortar cerce. "Tendo ouvido muitos de vós nos últimos dias, é claro que temos de fazer uma mudança", escreveu, para de seguida, e de forma paradoxal, defender que o partido é um "grande guarda-chuva" e que, "ao contrário da esquerda", acolhe o "pensamento livre e o debate".

"Se tentássemos expulsá-lo, ele levaria metade do partido consigo", diz o senador Lindsey Graham sobre Trump.

Kevin McCarthy é o protagonista de uma das maiores cambalhotas políticas da política norte-americana. Nas horas que se seguiram à invasão ao Congresso, o seu pensamento estava alinhado com o de Liz Cheney. "O presidente é responsável pelo ataque de quarta-feira ao Congresso por parte da multidão de desordeiros. Deveria ter condenado imediatamente a multidão quando viu o que se estava a desenrolar. Estes factos exigem uma ação imediata do presidente Trump", disse então, apesar de discordar da destituição do homem que recusou aceitar a derrota eleitoral.

Palavras parecidas teve Cheney então, mas defendeu e votou pela condenação de Trump. E não mudou de ideias, o que a deixou numa posição vulnerável, a começar pelo seu lugar como representante do Wyoming nas próximas eleições. Já McCarthy reuniu-se ainda em janeiro com Trump e foi modulando o discurso ao ponto de deixar cair qualquer crítica ao ex-presidente.

"O Partido Republicano é basicamente o Titanic no meio deste lento naufrágio", comparou o representante Adam Kinzinger, outro raro crítico da liderança do partido. "Quando McCarthy deu os remos a Donald Trump, ressuscitou-o no partido", concluiu o eleito pelo Illinois. Kinzinger revelou na segunda-feira que avisou McCarthy de que o comportamento de Trump iria acabar em violência, advertência que o líder da minoria na Câmara "desconsiderou".

Liz Cheney, filha do ex-vice-presidente Dick Cheney, tem uma agenda política mais conservadora do que a da sua sucessora e do que Trump. Mas essa não é a incompatibilidade. "Temos de afastar Liz Cheney porque ela obriga-me a responder a questões que eu sei serem falsas", é uma frase que Kinzinger garante ter ouvido de colegas, porque, diz, só 10 entre os 212 eleitos na Câmara são burros para acreditarem nas teorias da "grande mentira".

A outra questão é a de que as alegações infundadas de Trump fizeram o seu caminho entre os eleitores republicanos, ao ponto de 70% acreditarem que as eleições foram de alguma forma fraudulentas, pelo que acreditam no potencial de vitória de se manterem ao lado do antecessor de Joe Biden.

"Podemos continuar sem o presidente Trump? A resposta é não", disse o senador Lindsey Graham, outro republicano que engoliu as palavras proferidas após o ataque ao Capitólio. "[Cheney] decidiu que o Partido Republicano não pode crescer com Trump. Eu concluí que não podemos crescer sem ele", disse à Axios. Graham admitiu algo mais grave, segundo a Bloomberg: "Se tentássemos expulsá-lo, ele levaria metade do partido consigo."

Num texto publicado no Washington Post na semana passada, Cheney defendeu o Estado de direito e declarou: "Nós, republicanos, temos de defender princípios genuinamente conservadores e afastar-nos do perigoso e antidemocrático culto da personalidade de Trump." Para já, é uma voz minoritária.

cesar.avo@dn.pt

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