Queda de prédio em Miami. Patricia ficou a ver futebol na TV e isso salvou-lhe a vida

Enquanto socorristas procuram desaparecidos, peritos questionam o que leva um edifício de 40 anos ruir parcialmente.

Há tantas pontas soltas no que respeita à queda parcial do edifício Champlain Towers South, em Surfside, a norte de Miami, que esta é apenas mais uma. Patricia Avilez não informou à reportagem da AP qual era a partida que estava a ver na televisão, mas foi devido ao futebol que decidiu ficar por casa e não ir à do familiar, ausente, na qual pernoitava ocasionalmente, após verificar o correio e tratar de algum assunto do condomínio. "Estava a ver o jogo de futebol, mudei de ideias e fiquei em casa." Na manhã de quinta-feira pôs-se a caminho e ouviu na rádio do que se escapou. "E depois cheguei aqui e foi-se. Um desastre total."

A Avilez juntam-se 127 pessoas que foram contabilizadas vivas pelas autoridades como proprietários ou arrendatários e respetivos familiares dos 55 apartamentos que desabaram. Há um número indeterminado de desaparecidos e que se situa em 159, a juntar-se aos quatro mortos. Segundo a AP os socorristas haviam retirado 35 pessoas entre os escombros.

Durante um evento na Casa Branca, o presidente norte-americano enviou uma mensagem de solidariedade para com os familiares e amigos dos desaparecidos. "É um tempo duro, duro", disse Joe Biden. "Há tanta gente à espera. Estarão vivos? O que vai acontecer?".

Através de imagens de vídeo captadas nas proximidades percebe-se que o centro do edifício de 12 andares terá caído primeiro, com a frente mais próxima do mar a balançar e a desabar segundos depois, enquanto uma nuvem de pó engolia as imediações. As autoridades não disseram o que pode ter causado o colapso.

Segundo o representante legal do condomínio, o edifício de 136 apartamentos acabara de ser objeto de uma inspeção obrigatória, a qual não detetara nada que pusesse em causa a segurança, pelo que o município aprovara, ainda esta semana, a certificação do espaço, confirmou a vice-mayor Tina Paul.

O mayor de Surfside mostrou-se revoltado com o sucedido. "Os edifícios não caem nos Estados Unidos. Este é um país do primeiro mundo. Isso é um fenómeno do terceiro mundo", disse Charles Burkett à Fox News, sem no entanto se mostrar crítico pelo facto de a construção estar a menos de 100 metros da praia e assente em terrenos que eram húmidos antes de ter sido construído, em 1981.

Edifício afundou milímetros

Uma hipótese a verificar relaciona-se com o afundamento da construção. O professor da Florida International University Shimon Wdowinski é co-autor de uma investigação sobre o aumento do nível das águas na área, e no estudo publicado no ano passado referia-se a um prédio que entre 1993 e 1999 afundou dois milímetros por ano. Em declarações ao USA Today soube-se agora que o trabalho mencionava o edifício acidentado. "Meu Deus, nós detetámos isto", comentou. Não se sabe se nos anos seguintes o movimento continuou e Wdowinski diz que, para já, não se pode concluir que o assentamento seja responsável pelo colapso.

"Um milímetro pode parecer um número pequeno, mas quando os somamos durante muitos anos, torna-se num grande número", disse Matthys Levy. Também ouvido pelo USA Today, o engenheiro, co-autor do livro Why Buildings Fall Down (Por que os edifícios caem), explica que há um risco acrescido na construção em terrenos que tenham sido zonas húmidas ou aterros, devido ao comportamento do solo. Sobre este caso, explica que o edifício pode ter ficado vulnerável se o terreno estivesse a afundar-se em ritmos diferentes, causando um assentamento diferenciado.

Albert Slap, gerente da RiskFootPrint, empresa que avalia o risco das estruturas, aponta para a mistura explosiva de águas subterrâneas e marés agravadas pelas alterações climáticas. "A água subterrânea entra nos poros do betão e acaba por enfraquecê-la e corroê-la. Assim, as fundações estão sujeitas a muitas forças geológicas que podem compactar o solo por baixo e causar buracos", diz ao Washington Post.

Da mesma faculdade que Wdowinski, Atorod Azizinamini recusa especular sobre as causas e diz que só a investigação vai responder às dúvidas: "Não vai concluir-se numa questão de dias ou semanas. Vai levar tempo".

cesar.avo@dn.pt

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