Princesa Latifa pede à polícia para reabrir caso da irmã raptada há 20 anos

A filha do emir do Dubai, que disse ter sido feita "refém" pelo pai, pediu às autoridades britânicas para que seja reaberto o caso sobre o rapto da irmã mais velha, que terá ocorrido numa rua de Cambridge, há cerca de duas décadas.

A princesa Latifa, filha do emir do Dubai, que disse ter sido feita "refém" pelo pai, pediu à polícia britânica para que seja reaberto o caso do rapto da sua irmã mais velha, Shamsa, que desapareceu numa rua de Cambridge, há cerca de 20 anos, quando tentava fugir. Um caso que será semelhante ao da princesa Latifa.

Numa carta partilhada com a BBC, que terá sido escrita em 2019, Latifa disse que a reabertura do processo pode ajudar a libertar a princesa Shamsa, que terá sido capturada por ordem do seu pai, Mohammed bin Rashid al-Maktoum, governante do Dubai e primeiro-ministro dos Emirados Árabes Unidos, .

A princesa Shamsa, agora com 39 anos, nunca foi vista em público desde que tinha 18. A emissora britânica tentou ter uma reação do governo do Dubai à cata enviada pela princesa Latifa, mas não obteve respostas.

"Este é um assunto muito complexo e sério", reage a polícia britânica que está a analisar a carta de Latifa

Em 2019, um tribunal superior determinou que o emir Mohammed bin Rashid al Maktoum raptou as duas filhas e manteve-as presas contra a sua vontade.

À BBC, a polícia de Cambridgeshire disse ter recebido a carta de Latifa, revelando que esta "será analisada", como sendo parte de uma investigação que está em curso.

"Este é um assunto muito complexo e sério e, como tal, existem pormenores do caso que seria impróprio discutir publicamente", lê-se ainda no comunicado da polícia. O Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico fez saber que este é um assunto provado e que não tem qualquer intervenção na investigação.

Escreve a BBC que parte do crescimento da princesa Shamsa aconteceu no Reino Unido e que recebeu uma educação ocidental.

O primo Marcus Essabri recorda que Shamsa "queria fazer a diferença para as mulheres, especialmente no mundo árabe". Terá sido nessa altura que começou a enfrentar problemas.

A princesa escreveu ao primo, em setembro de 1999, nove meses antes da sua fuga, a contar que não tinha autorização do pai para prosseguir os estudos na universidade e que estava a pensar em fugir.

Foi o que tentou fazer no verão de 2000, mas sem sucesso. Terá sido capturada por um grupo de homens associados ao emir. Desde então nunca mais foi vista em público.

Refira-se que, recentemente, foi divulgado um vídeo pelo programa Panorama, da BBC, e também pelo jornal britânico The Guardian, no qual Latifa afirma que se encontra sequestrada pelo seu pai. "Eles sequestraram-me numa mansão que foi transformada em prisão. Todas as janelas estão pregadas e não consigo abri-las. Estou em confinamento solitário, sem acesso a cuidados médicos", afirmou a xeique de 35 anos, que tem enviado gravações clandestinas a vários amigos, que acusam o pai de mantê-la enclausurada.

Em 2018, Latifa já tinha tentado escapar da sua família com a ajuda de um ex-agente secreto francês e de uma amiga finlandesa, mas não conseguiu. Nas mensagens que tem enviado, explicou que quando tentou fugir de barco, os militares enviados pelo pai a drogaram com um tranquilizante, ficou inconsciente e foi levada de volta para os Emirados Árabes Unidos (EAU), num avião particular que aterrou no Dubai. Ainda assim, garante que ofereceu resistência, "dando-lhes pontapés", tendo inclusive mordido um deles num braço.

Desde essa altura, Latifa está isolada na mansão, vigiada por duas agentes da polícia dentro de casa e mais cinco do lado de fora. "Não consigo sair para apanhar ar fresco. Estou a gravar este vídeo na casa de banho porque é o único sítio onde consigo trancar a porta", contou numa outra gravação.

O programa Panorama, da BBC, identifica os amigos que foram os veículos transmissores do vídeo como sendo o seu primo materno Marcus Essabri, a sua treinadora finlandesa Tiina Jauhiainen, que a ajudou na tentativa de fuga, e o ativista David Haigh. Todos são os promotores da campanha "Libertem Latifa" e tomaram agora a iniciativa de divulgar os vídeos depois de terem perdido contacto com a xeque, além de terem igualmente pedido a intervenção da ONU.

Aliás, em 2018, a antiga presidente da República da Irlanda, Mary Robinson, nas funções de Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos já havia tentado intervir neste caso, tendo visitado mesmo Latifa, com as autoridades dos EAU a usarem as fotos desse encontro para descreverem a princesa como "uma jovem problemática", mas que se encontrava bem.

Ao programa da BBC, Mary Robinson admite que na altura se sentiu "terrivelmente traída" pela família e que continua preocupada com sua situação. "Acho que deve ser investigado", assume.

"Não sei se vou sobreviver a isto", diz a princesa Latifa que terá sido feita refém pelo pai

O pai de Latifa, o xeque Mohamed Bin Rashid al Maktoum, não fez qualquer comentário até ao momento sobre este caso, mas a princesa Haya, na sua batalha judicial contra o emir pela custódia dos filhos depois de o ter abandonado, invocou o sequestro de Latifa e da sua meia-irmã Shamsa (que também tentou fugir alguns anos antes) para fortalecer seu caso, sendo que o tribunal britânico que julga a custódia dos filhos aceitou esse argumento.

Refira-se que o emir de Dubai é um dos homens mais ricos do mundo, tendo aproveitado a projeção da sua cidade-estado para se intitular como o líder mais liberal do mundo árabe.

Só que a realidade das mulheres da sua família trai essa ideia de líder liberal e Latifa é um pouco um símbolo dessa contradição. "A cada dia que passa preocupo-me mais com a minha segurança e com a minha vida. Não sei se vou sobreviver a isto. A polícia ameaçou-me, dizendo que vou passar o resto da minha vida trancada e que nunca mais verei a luz do sol. Estou a chegar a um ponto em que estou tão cansada. Só quero ser livre. Não sei o que pensam fazer comigo. A situação está a ficar cada vez mais desesperante", diz Latifa noutro vídeo clandestino agora revelado.

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