Peritos da OMS queriam acesso a mais dados da China. EUA revelam preocupação

Investigadores queixam-se de falta de informação essencial para determinar a origem da pandemia.

Os especialistas da Organização Mundial de Saúde (OMS) voltaram da China "frustrados" com a falta de acesso a dados brutos sobre a origem da pandemia. "Queremos mais dados. Pedimos mais dados", disse Peter Ben Embarek, que chefiou a missão de especialistas da OMS em Wuhan, à AFP.

A trabalhar no fio de uma navalha diplomática entre os EUA, que exigem uma investigação "robusta", e a China, que se queixa da politização da questão, a missão de quatro semanas da OMS para descobrir as origens da SARS-CoV-2, o novo coronavírus, foi encerrada no início desta semana sem descobertas conclusivas.

"Há uma mistura de frustração e expectativas realistas em relação ao que era viável dentro do prazo que tínhamos", admitiu Embarek, confessando esperar que os dados solicitados sejam disponibilizados daqui para frente.

Os especialistas acreditam que a doença - que já matou quase 2,4 milhões de pessoas em todo o mundo (até dia 13 de fevereiro de 2021) - teve origem em morcegos, mas poderá ter sido transmitida a humanos por meio de outro mamífero.

Além disso, apesar do mundo acreditar que o vírus teve origem em Wuhan em dezembro de 2019, os especialistas da OMS determinaram que não havia sinais de grandes surtos de covid-19 nessa província chinesa na altura, embora não tenham descartado a existência de casos esporádicos. Por isso mesmo, queriam ter acesso a dados brutos sobre casos anteriores de doenças, incluindo pneumonia, gripe e febre, que poderiam ter sido provocadas pela covid-19.

Os cientistas chineses, por exemplo, anunciaram que identificaram 72 mil desses casos entre outubro e dezembro e que, depois de aplicarem um conjunto de critérios para determinar se os casos poderiam ser da covid-19, reduziram a lista para apenas 92 casos. E desses, 67 permaneceram disponíveis para realização de testes serológicos e todos eles deram negativo. Depois de ter acesso a esses números, a OMS perguntou sobre os critérios específicos usados. "Estamos a tentar perceber esse processo de passar de 72 mil para 92", disse segundo Ben Embarek.

John Watson, epidemiologista britânico e membro da missão, reconheceu que houve uma "discussão ampla e franca" sobre o acesso aos dados, mas disse que focar muito nesse aspeto seria injusto. Pois, embora eles não tenham partilhado todos os dados brutos solicitados, partilharam "detalhes enormes" sobre o seu trabalho, métodos e resultados. Já outro especialista, Peter Daszak, rejeitou no Twitter a ideia de confrontos entre os especialistas da OMS e os colegas chineses: "Essa não foi minha experiência na missão. Tivemos acesso a novos dados essenciais."

Os Estados Unidos e outros países têm criticado o timing da missão da OMS, que levou mais de um ano para ir a Wuhan. Ben Embarek reconheceu que "teria sido fantástico" ir mais cedo, mas ressaltou que, quando ocorrem surtos de doenças, a primeira reação é tratar os pacientes, não tentar descobrir como aconteceu. Em qualquer caso, disse, "ainda há muito a aprender, muito a descobrir. Não é tarde demais."

As explicações não servem as exigências norte-americanas. A Casa Branca mostrou "profundas preocupações" sobre a resposta inicial da China à crise da covid-19 e quer que Pequim "coloque à disposição os dados que tem desde os primeiros dias do surto", segundo o assessor de Segurança Nacional dos EUA, Jake Sullivan, acrescentando: "É imperativo que este relatório seja independente, com conclusões de especialistas livres de intervenção ou alteração por parte do governo chinês."

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