Países menos desenvolvidos fartos de esperar por dinheiro prometido para adaptação

Os países menos desenvolvidos pedem ainda transparência no cálculo das contribuições para a adaptação.

Os países menos desenvolvidos afirmaram esta quarta-feira "não poder esperar mais" pelo dinheiro prometido pelos países mais ricos há mais de uma década para se adaptarem aos efeitos das alterações climáticas, considerando que a evolução tem sido "desapontante e assustadora".

Numa conferência de imprensa à margem da 26.ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, o secretário do grupo que reúne os 47 países mais pobres do mundo, o butanês Sonam Wangdi, afirmou que estas nações, que representam mil milhões de pessoas, precisam de "mais apoio para adaptação", os 100 mil milhões de dólares anuais que em 2009 os países mais desenvolvidos se comprometeram a contribuir anualmente até 2020.

"Até agora, o progresso tem sido desapontante e assustador. Esta é a 26.ª COP, o compromisso dos 100 mil milhões foi feito há mais de uma década e não foi cumprido. Não estamos a receber mais do que 10 a 15 por cento e não podemos esperar mais. Os governos dos países responsáveis por mais emissões têm que parar de se furtar às suas responsabilidades", salientou.

Estes países, cuja "sobrevivência depende dos compromissos e políticas" que sejam definidos em Glasgow, esperam ainda por ajuda para enfrentar as "perdas e danos" provocados pelos impactos das alterações climáticas, para o que "nunca houve financiamento dedicado".

"Uma coisa são as promessas, mas o que queremos ver são provas, sob a forma de contribuições determinadas nacionalmente e estratégias de longo prazo que nos levem no caminho da neutralidade carbónica. Sem isso, será muito difícil verificar ou autenticar" o cumprimento dos compromissos.

Os países menos desenvolvidos pedem ainda transparência no cálculo das contribuições para a adaptação.

Mesmo para o financiamento climático que existe, o acesso "é um problema enorme" para os países mais pobres, salientou.

"Demora quatro a cinco anos a conseguir um empréstimo. A maior parte das iniciativas de financiamento tem requisitos diferentes e devia haver um processo mais simplificado. Quando se enfrenta um desastre climático, demora cinco anos a conseguir um empréstimo, isso não faz sentido e vamos ficando numa armadilha de dívidas. O dinheiro está lá, não se consegue aceder-lhe e isso é muito frustrante", indicou.

"Contribuímos para menos de 1% das emissões globais, mas sofremos de forma desproporcionada", afirmou.

Sonam Wangdi notou que a cimeira de líderes mundiais no âmbito da COP foi "a maior dos últimos anos" e que "a maior parte das declarações" foi no sentido de manter o aumento da temperatura média global até ao fim do século em 1,5 graus centígrados, um sinal de que "o vento está a soprar na direção certa".

Mais de 120 líderes políticos e milhares de especialistas, ativistas e decisores públicos reúnem-se até 12 de novembro, em Glasgow, na Escócia, para atualizar os contributos dos países para a redução das emissões de gases com efeito de estufa até 2030.

A COP26 decorre seis anos após o Acordo de Paris, que estabeleceu como meta limitar o aumento da temperatura média global do planeta a entre 1,5 e 2 graus celsius acima dos valores da época pré-industrial.

Apesar dos compromissos assumidos, as concentrações de gases com efeito de estufa atingiram níveis recorde em 2020, mesmo com a desaceleração económica provocada pela pandemia de covid-19, segundo a ONU, que estima que, ao atual ritmo de emissões, as temperaturas serão no final do século superiores em 2,7 ºC.

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