Países Baixos. Governo diz que não recua perante a "escumalha"

O governo holandês não vai recuar no recolher obrigatório apesar de três noites de tumultos cometidos por "escumalha", garantiram dois ministros, durante a maior agitação nas ruas em quatro décadas.

"Não se capitula a pessoas que destroem montras das lojas", disse o ministro das Finanças Wopke Hoekstra à agência noticiosa ANP. "A escumalha faz isto", e não os verdadeiros manifestantes, acrescentou. O ministro da Justiça Ferd Grapperhaus acrescentou que o governo iria manter o recolher obrigatório. Deverá durar pelo menos até 9 de fevereiro, uma medida essencial para baixar os casos de covid-19, segundo o governo demissionário.

O primeiro-ministro Mark Rutte disse no Twitter que "a violência criminosa tem de acabar".

A polícia holandesa prendeu 184 pessoas durante a noite, totalizando mais de 400 o número de detidos depois de os Países Baixos terem imposto o seu primeiro recolher obrigatório a nível nacional desde a Segunda Guerra Mundial.

Pelo menos 10 polícias foram também feridos nos últimos confrontos de segunda-feira à noite, que deixaram um rasto de lojas saqueadas e carros queimados em cidades como Roterdão, Amesterdão e Den Bosch.

Várias cidades concederam poderes extra à polícia no meio de notícias de que estavam a ser organizados novos protestos nas redes sociais para a noite de terça-feira contra o recolher obrigatório das 21.00 às 4.30.

Os sindicatos da polícia dizem que são os piores distúrbios em quatro décadas, referindo-se a confrontos com ocupas na década de 1980. O chefe da polícia holandesa Henk van Essen condenou a violência, tendo dito que "já não tem nada a ver com o direito de manifestação".

O governo anunciou o recolher obrigatório na semana passada, tendo sido apoiado por uma maioria de deputados. São permitidas exceções, por exemplo para pessoas que tenham de trabalhar, para assistir a funerais ou passear os seus cães, na condição de apresentarem um atestado.

Os protestos começaram em pequena escala no sábado à noite, com um único motim na aldeia de Urk, no "Cinturão Bíblico" protestante conservador. Mas no domingo espalharam-se pelo país, com a polícia a usar canhões de água, gás lacrimogéneo e cavalos contra revoltosos em Eindhoven e em Amesterdão.

A polícia voltou a utilizar canhões de água em Roterdão, na segunda-feira à noite.
O presidente da câmara da cidade, Ahmed Aboutaleb, chamou aos desordeiros "ladrões sem vergonha", informou a emissora nacional NOS.

"Sabe bem acordar esta manhã com uma mala cheia de bens roubados ao seu lado?" perguntou aos desordeiros numa mensagem de vídeo.

O populista Geert Wilders, líder do Partido pela Liberdade, pediu a intervenção do Exército nas ruas.

O país já estava sob as suas medidas mais duras desde o início da pandemia, com bares e restaurantes fechados em outubro, e escolas e lojas não essenciais fechadas desde dezembro.

Mais de 13.600 pessoas morreram nos Países Baixos desde o início da pandemia de Covid-19.

Génio fora da lâmpada

Os meios de comunicação holandeses disseram que os manifestantes são uma mistura de ativistas anticonfinamento em conjunto juntamente com outros, em grande parte jovens frustrados com as medidas cada vez mais duras num país que até há pouco tempo tinha algumas das restrições mais frouxas sobre a pandemia na Europa.

Em algumas cidades, adeptos de clubes de futebol, como os do FC Den Bosch, formaram grupos para defender os estádios e hospitais dos saqueadores. Peritos alertaram no entanto que tais ações poderiam inflamar uma situação já de si tensa. "Neste momento, o génio está fora da lâmpada", disse Carsten de Dreu, professor de psicologia social na Universidade de Leiden, à AFP.

Dreu disse que o governo podia ter previsto que medidas mais duras como o encerramento de clubes, lojas e a introdução de um recolher obrigatório poderiam levar a motins. "Sabíamos isso de antemão e vimo-lo chegar", disse ele. "Talvez se devesse ter pensado há meses que não só deveríamos ter um confinamento, mas também fazer questão de devolver algumas das funções sociais que agora nos foram retiradas".

A vizinha Bélgica, que também se encontra sob recolher obrigatório, temeu entretanto um alastramento da agitação após os apelos lançados nas redes sociais para protestos no sábado. "Levamos isto muito a sério porque estamos perto da fronteira holandesa", disse Paul Van Miert, o presidente da câmara da cidade belga de Turnhout, à emissora VRT.

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