"Os porta-aviões da China não representam uma ameaça séria para o Japão"

Académico japonês Tetsuo Kotani analisa tensão militar na Ásia Oriental, sobretudo o esforço estratégico de Pequim para perturbar a liberdade de ação dos Estados Unidos no oceano Pacífico

Investigador sénior do Instituto Japonês de Relações Internacionais, Tetsuo Kotani foi um dos participantes na conferência Oceano que Pertence a Todos, organizada dias 22 e 23 pelo Clube de Lisboa. Integrou o painel intitulado "A extensão das plataformas continentais"em que a principal questão a ser debatida foi se a diplomacia e a lei dos mares têm sido eficazes na resolução de disputas sobre fronteiras marítimas. O tema é especialmente pertinente na Ásia Oriental, onde as marinhas nacionais estão em franco crescimento, numa espécie de competição entre as potências.

Os porta-aviões estão de volta à Ásia Oriental, primeiro pela China, agora pelo Japão e num futuro próximo provavelmente pela Coreia do Sul. Qual o significado desse investimento num tipo de navio muito caro?
Hoje em dia os porta-aviões são uma plataforma vulnerável. Os porta-aviões da China não representam uma ameaça séria para o Japão, pois são fáceis de afundar por mísseis e submarinos. A China está a mostrar os seus porta-aviões principalmente por motivos de orgulho nacional, embora possam ser uma ameaça para as pequenas nações do Sudeste Asiático. O Japão, por seu lado, está a converter os porta-helicópteros em porta-aviões leves, já que, apesar de tudo, as bases aéreas fixas em terra são mais vulneráveis ​​aos mísseis chineses. A Coreia do Sul vai introduzir porta-aviões leves, mas isso não faz sentido militarmente, novamente está a fazê-lo apenas por orgulho nacional.

Imaginando a China como uma futura superpotência, quão importante para a segurança do Japão é a aliança com os Estados Unidos?
A China está a desenvolver rapidamente as suas capacidades militares para perturbar a liberdade de ação dos militares dos Estados Unidos no Pacífico, isto quando o Japão continua a depender fortemente da capacidade dissuasivas estendida dos Estados Unidos. Se os Estados Unidos estivessem um dia impedidos de ajudar o Japão, isso prejudicaria a própria base da estratégia de segurança japonesa.

Índia, Austrália, Japão. Quão profunda é a cooperação militar entre estes países que compartilham uma preocupação com as atividades da China nos oceanos Índico e Pacífico?
A Índia está mais preocupada com as atividades militares da China no Oceano Índico e na fronteira terrestre nos Himalaias, enquanto a Austrália está preocupada com a presença militar da China no Pacífico. O Japão está preocupado com a presença da China nos oceanos Pacífico e Índico.

O artigo 9 da Constituição sobre o pacifismo e a limitação de 1% do PIB para investimento no orçamento militar é uma desvantagem para o Japão em comparação com outros países? Vê terreno para mudanças na opinião pública em direção a um país "normal", a fim de lidar de forma mais dissuasiva com China, Rússia e Coreia do Norte?
O Artigo 9 não proíbe a legítima defesa. E a limitação de 1% não é uma política, pois o principal obstáculo para aumentar os gastos com defesa é a necessidade de responder às despesas da segurança social. O público em geral não está pronto para mudar drasticamente a política atual.

Em todo o mundo podemos ver disputas entre diferentes países por causa de pequenas ilhas ou da definição de zonas económicas exclusivas. Isso acontece porque os recursos do oceano podem determinar a riqueza futura de um país?
No caso da Ásia Oriental, trata-se sobretudo de questões políticas e estratégicas. Mar livre vs. mar fechado.

Mais Notícias

Outras Notícias GMG