Os inimigos de Lukashenko: um canal de mensagens e dois ativistas

Fazendo uso da tecnologia, dois jovens exilados que sonham em conhecer outro líder escaparam ao controlo do regime - até agora. A líder da oposição Svetlana Tikhanovskaya comparou o regime de Lukashenko à Coreia do Norte.

No dia em que o presidente bielorrusso defendeu a legalidade do desvio do avião que transportava o ativista Roman Protasevich para Minsk, onde foi detido tal como a companheira Sofia Sapega, a líder da oposição no exílio acusou Alexander Lukashenko de "transformar o país na Coreia do Norte da Europa, não transparente, imprevisível e perigosa". Uma diferença crucial entre os dois países é a atividade dos exilados que conseguem difundir notícias e vídeos sem censura, como é o caso do canal Nexta, onde Protasevich foi chefe de redação.

O canal Nexta ("alguém" em bielorrusso) nasceu em 2015 no YouTube pela mão de Stepan Svetlov, pseudónimo de Stepan Putilo, que aos 23 anos não conheceu outro líder no seu país além de Lukashenko, tal como o amigo Protasevich. Putilo começou por fazer vídeos de humor com a família, até que mudou de rumo e passou a dar "informação honesta sobre a realidade da Bielorrússia" com a participação do amigo Roman Protasevich. Três anos depois o meio de comunicação passou a ter um canal no Telegram, a rede de mensagens encriptadas fundada por um russo, e um documentário sobre Lukashenko atraiu milhões de pessoas.

O outro e enorme salto deu-se no ano passado, com a nova onda repressiva, iniciada com a prisão de possíveis candidatos presidenciais, caso de Sergei Tikhanovsky (marido da candidata surpresa Svetlana Tikhanosvskaya) e que atingiu o auge nos protestos pós-eleitorais. Com a sede da Nexta em Varsóvia e uma equipa de apenas quatro a cinco pessoas, recolhe e publica vídeos, fotografias e textos enviados pelos utilizadores, com todos os riscos que a falta de filtro acarreta. "Se me sinto responsável pelo que publicamos? Apenas em termos de levar as pessoas a aproximarem-se da vitória e do fim da ditadura", disse Protasevich à BBC quando trabalhava no Nexta.

O jornalista e ativista, que arrisca a pena capital caso seja acusado de terrorismo, desempenhou um papel chave ao enviar mensagens para os subscritores do canal (cerca de 1,2 milhões) não só a convocar protestos mas também, durante os mesmos, a aconselhar os locais de reunião, a informar sobre as movimentações policiais e a oferecer conselhos sobre como evitar os ataques e as detenções por parte da polícia, e contactos de advogados. "Ele estava mais interessado em organizar ações de rua" do que em divulgar notícias, diz Svetlov ao The New York Times. "Não diria que era mais radical, mas tornou-se definitivamente mais resoluto", e ressalvou que Protasevich defendeu sempre protestos pacíficos.

Foi aos 16 anos que Protasevich foi preso pela primeira vez. Estava sentado num banco de jardim a observar um protesto em favor da oposição, o qual se limitava a que os participantes batessem palmas. Não só foi detido, acabou expulso da escola e para que pudesse ser inscrito noutra a mãe teve de se demitir de professora na academia militar. Desde o verão passado que os pais do jornalista estão exilados na Polónia. Roman Protasevich entretanto rumara à Lituânia para se juntar à equipa de Svetlana Tikhanosvskaya, tendo deixado o Nexta. "O regime de Lukashenko considera Roman um dos seus principais inimigos. Talvez esteja certo", disse Svetlov, que diz receber "centenas de ameaças de morte" e que teme pela sua vida e dos seus colaboradores, mas que vai "continuar o combate".

Dirigindo-se aos deputados, o autocrata disse na quarta-feira que agiu "de forma legal e para proteger o povo", para depois lançar ataques à oposição e ao Ocidente. Lukashenko declarou que a Bielorrússia é vítima de uma "guerra híbrida moderna", um "teatro experimental para depois ir para leste". Moscovo disse não ter motivos para duvidar da versão de Minsk sobre os acontecimentos de domingo.

Tikhanovskaya pede protesto solidário

A ex-candidata presidencial e agora líder da oposição no exílio Svetlana Tikhanovskaya apela para que no sábado, 29, um ano depois da prisão do seu marido, haja uma jornada global de solidariedade para com os bielorrussos, o que inclui manifestações nas ruas, envio de cartas aos presos políticos e doações às famílias dos opositores detidos.

cesar.avo@dn.pt

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