Oposição venezuelana está de volta ao boletim de voto e joga o seu futuro

Eleições regionais e municipais são apontadas como ponto de partida para uma reivenção da oposição, numa altura que Juan Guaidó já não é uma força agregadora e em que as divisões são cada vez mais visíveis.

Após três anos de boicotes eleitorais e apelos ao voto em branco e apesar de reconhecer que estas eleições "não serão justas nem convencionais", a oposição venezuelana volta às urnas nas regionais e municipais deste domingo. Pela frente terá a máquina do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), do presidente Nicolás Maduro, e o desafio de conseguir pelo menos manter o poder nas cinco regiões que governa desde 2017. Um mau resultado obrigará a oposição, marcada pelas divisões, a reinventar-se.

Essa divisão torna-se patente pelo facto de o líder opositor Juan Guaidó, que chegou a ser reconhecido como "presidente interino" da Venezuela, não ir votar - mas também não apelou à abstenção como nas presidenciais e legislativas de 2020, quando o PSUV conseguiu conquistar 92% dos deputados. O ex-presidente da Assembleia Nacional, que defende que só umas presidenciais podem resolver a situação na Venezuela, já não é contudo a figura agregadora que foi em 2019 ou 2020. Muitos daqueles que estiveram ao seu lado, acabaram agora por se afastar e até concorrer.

Outro dos líderes opositores, Henrique Caprilles, ex-governador que foi duas vezes candidato presidencial, já tinha defendido a ida às urnas nas legislativas do ano passado (que a maior parte da oposição boicotou). "Nas forças democráticas tem que haver um relançamento e uma reorganização e uma nova etapa, de olhos postos no futuro, porque virá aí uma eleição presidencial, mais cedo do que tarde, virá uma nova eleição para a Assembleia Nacional. Isso virá", disse numa conferência de imprensa.

Em 2022, Maduro chega a metade do mandato e, segundo a Constituição, pode ser alvo de um referendo revogatório. Para tal a oposição terá que fazer uma recolha de assinaturas, em duas fases, num processo complicado que já falhou em 2016. As presidenciais normais estão marcadas só para 2024.

Maduro joga sanções

O regresso da oposição aos boletins de votos dá-se depois do início das negociações para tentar encontrar uma saída para o bloqueio político no país, que envolveram delegações de opositores e do governo. O diálogo estava a decorrer no México, com a mediação da Noruega, mas foi suspenso a 16 de outubro. A decisão partiu de Maduro, depois de Cabo Verde extraditar para os EUA o empresário colombiano Alex Saab, que é acusado de lavagem de dinheiro para o regime, já desde os tempos de Hugo Chávez.

Há contudo a esperança de que possa haver um regresso às negociações após as eleições, com o governo venezuelano a esperar que o diálogo possa resultar no levantar das sanções norte-americanas - em especial as aplicadas contra o setor petrolífero - e europeias. Até agora, as sanções não conseguiram debilitar o presidente venezuelano. Para acelerar esse processo, também será importante aquilo que os observadores internacionais disserem - pela primeira vez desde 2006, a União Europeia enviou uma missão para a Venezuela, liderada pela eurodeputada Isabel Santos.

A missão é avaliar até que ponto as eleições respeitam os compromissos internacionais e regionais, assim como a lei venezuelana, sendo que desde maio que o Conselho Nacional Eleitoral (por pressão da comunidade internacional) inclui entre os seus cinco membros dois que são da oposição. A União Europeia não reconheceu os resultados das últimas presidenciais nem das legislativas, considerando que não foram "livres" ou "justas", sendo que este conselho era acusado de ser controlado pelo regime. No terreno estarão também observadores do Centro Carter e das Nações Unidas.

Neste domingo, está em jogo a eleição dos 23 governadores e 335 presidentes de câmara, além de representantes regionais e vereadores, num total de três mil cargos. Cerca de 21 milhões de eleitores são chamados a votar em mais de 14 mil centros de votação. Mas tudo aponta para uma participação reduzida - desde logo, estima-se que 20% dos eleitores tenham deixado o país devido à crise política, económica e humanitária. Mais de 350 mil membros das Forças Armadas estão mobilizados para garantir a segurança.

susana.f.salvador@dn.pt

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