Oposição intensifica protesto após vídeo de palácio que Putin nega ser seu

Aumenta pressão internacional para a libertação de Alexei Navalny, com Joe Biden e G7 a juntarem-se à UE. Recurso do ativista vai a tribunal na quinta-feira, três dias antes de nova jornada de manifestações.

Um tribunal russo vai apreciar um recurso sobre a detenção de Alexei Navalny na quinta-feira, numa altura em que o Kremlin é pressionado pela comunidade internacional para libertar o opositor de Vladimir Putin e o regime não dá sinais de abertura aos protestos que se avizinham no próximo domingo.

O presidente dos EUA, Joe Biden, no primeiro telefonema ao homólogo russo desde a sua tomada de posse, manifestou preocupação sobre o envenenamento do líder da oposição, comunicou a Casa Branca, sem mais pormenores sobre este tema.

Já os ministros dos Negócios Estrangeiros do G7, que junta alguns dos países mais industrializados do mundo, apelaram à libertação de Navalny e condenaram a repressão no dia 23 de janeiro em todo o país, as maiores manifestações antigovernamentais desde 2013.

O G7 qualificou a detenção de Navalny de "deplorável" e lembrou que a Rússia está "vinculada pelas suas obrigações nacionais e internacionais de respeitar e assegurar os direitos humanos", declararam os ministros dos Negócios Estrangeiros da Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido.

O braço direito de Alexei Navalny, Leonid Volkov, anunciou no Twitter o agendamento do recurso. "Ontem as rodas dentadas da 'justiça' começaram a girar, os documentos começaram a ser redigidos, e hoje os advogados foram notificados de que o recurso contra a detenção estava agendado para 28 de janeiro - depois de amanhã. De repente", escreveu no Twitter.

Através do Facebook, Volkov e a equipa de Navalny convocaram uma manifestação para domingo nas praças Lubyanka, junto à sede do FSB, e Staraya, sede dos gabinetes da administração presidencial.

A partir dessas artérias separadas por um quilómetro, os ativistas preveem a realização de uma marcha pela capital russa. No sábado a polícia deteve cerca de 3900 pessoas em protestos em 110 cidades por todo o país, nos quais os manifestantes pediam a libertação de Navalny.

Mas as autoridades não estão preocupadas só com Moscovo. Como escreve o Financial Times no seu editorial, "o alcance geográfico dos protestos sugere que o ressentimento da classe média que fervilhou em Moscovo e São Petersburgo há nove anos - mas foi em parte 'comprado' pelo investimento em infraestruturas em ambas as cidades - é cada vez mais correspondido pelo descontentamento nas províncias".

"Não poupar balas"

O regime, porém, não mostra qualquer abertura para com o movimento de oposição. O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, disse que não pode haver "diálogo algum" com aqueles que se juntaram aos protestos "ilegais" e que "fizeram parte de motins".

Já o secretário do Conselho de Segurança, Nikolai Patrushev acusou o líder da oposição, referido como "esta figura", de ter violado "repetida e grosseiramente a legislação russa, envolvendo-se em fraudes relativas a grandes quantias" de dinheiro. "E como cidadão da Rússia, deve assumir a responsabilidade pela sua atividade ilegal, em conformidade com a lei", disse Patrushev ao Argumenty i Fakty.

Como parte do discurso propagandístico do Kremlin, alegou que "o Ocidente precisa desta figura para desestabilizar a situação na Rússia, para convulsões sociais, greves e novas Maidans", uma referência aos protestos europeístas na Ucrânia que culminaram com a fuga do presidente Viktor Ianukovich, pró-russo.

Nos canais de TV, os participantes das manifestações foram chamados de "pedófilos políticos" e Navalny foi comparado a um piaçaba pelo pivô do Russia 1, Dmitri Kiselyov. Num site nacionalista, Tsargrad, o autor do texto intitulado "Não disparar pólvora seca, não poupar balas - A receita para salvar a Rússia", apelou para o "máximo de firmeza e de crueldade" para com os manifestantes, mostra a página Eu vs Disinfo, financiada pela UE.

Palácio? "Lavagem ao cérebro"

Vladimir Putin também reagiu à raiva causada pela investigação publicada no canal de YouTube de Navalny, que o acusa de ter o maior palácio privado da Rússia, em terrenos arrendados pelo FSB junto do Mar Negro. Para o presidente russo, não é mais do que uma tentativa de "lavagem ao cérebro" dos russos. "Nada do que aí é mostrado como propriedade minha pertence-me, ou aos meus parentes próximos, e nunca pertenceu. Nunca", disse.

Já o seu porta-voz, Dmitri Peskov, disse que "um ou vários [empresários] possuem direta ou indiretamente" a propriedade, e afirmou que o Kremlin "não tem o direito de revelar os nomes destes proprietários".

O vídeo Um palácio para Putin mostra a até agora secreta propriedade avaliada em 1,12 mil milhões de euros, à qual não falta um heliporto, um campo de hóquei em gelo, uma estufa, vinhas e uma ponte de 80 metros que liga o palácio a uma casa de hóspedes.

O vídeo de quase duas horas já conta com mais de 93 milhões de espectadores e alega que a propriedade pertence a Putin através de uma complexa teia de empresas.

Navalny foi preso no dia 17 ao regressar à Rússia oriundo da Alemanha, onde tinha estado a recuperar de um envenenamento por um agente nervoso em agosto. Quando saiu do coma, o declarado inimigo número um de Putin responsabilizou-o pela tentativa de homicídio.

Um tribunal prolongou a detenção de Navalny por 30 dias para permitir que um outro tribunal decida, no dia 2 de fevereiro, se vai converter em pena efetiva de prisão uma pena suspensa de três anos e meio. Navalny foi condenado num caso de desvio de fundos que é considerado internacionalmente como fabricado e motivado politicamente.

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