Oposição do Brasil une-se em manifestações contra Bolsonaro

Cerca de 100 atos registados no Brasil e mais 16 países em protesto contra a falta de vacinas, a inflação, o desemprego e a fome. Parte dos presidenciáveis, da direita à esquerda, apareceram e discursaram num ato que se pretendeu "o mais ecuménico possível"

A oposição do Brasil uniu-se contra o governo de Jair Bolsonaro em mais de 100 manifestações espalhadas por todos os estados do Brasil e por 16 países, incluindo Portugal, ao longo deste sábado, dia 2 de outubro. Líderes políticos, incluindo pré-candidatos à presidência da República no próximo ano, como Ciro Gomes e Alessandro Vieira, de centro-esquerda, ou Luiz Henrique Mandetta e João Amoedo, de direita, compareceram ou enviaram mensagens. O líder das sondagens, Lula da Silva, apesar de ser o mais aguardado, até ao fecho da edição não havia comparecido.

Os principais atos ocorreram em São Paulo, na Avenida Paulista, ao longo da tarde e pela noite dentro, e no Rio de Janeiro, na Cinelândia, durante a manhã.

O impeachment de Bolsonaro, o caos sanitário na crise da covid-19, a falta de vacinas, os 14 milhões de desempregados, os quase 40 milhões de trabalhadores na informalidade e o regresso do país ao mapa da fome serviram de mote aos protestos.

As palavras de ordem mais ouvidas foram "tá caro, a culpa é do Bolsonaro", a propósito da inflação galopante, "genocida", em referência aos crimes cometidos pelo governo no combate à pandemia desvendados por uma Comissão Parlamentar de Inquérito, "rachadinha", numa alusão aos escândalos de corrupção em torno de toda a família do presidente, e "penso, logo sou contra Bolsonaro", numa crítica aos seus apoiantes.

Os atos foram organizados pela campanha Fora Bolsonaro, um coletivo que reúne centrais sindicais e movimentos populares, pela entidade civil Direitos Já! e por lideranças dos nove partidos de esquerda e centro-esquerda que assinaram pedidos conjuntos de impeachment, o PSOL, o PCdoB, o PSD, o Rede, o PV e o Solidariedade, além do PT, de Lula, do Cidadania, do pré-candidato e senador Alessandro Vieira, e do PDT, do pré-candidato Ciro Gomes.

"Estou aqui de peito aberto apesar das diferenças numa altura em que há brasileiros, novamente, obrigados a comer restos de carne", disse Ciro, no Rio.

Sobre as eleições, defendeu que "o que está sendo discutido no Brasil é um choque de personalidade ou de modelo". Para o candidato, ele é "o único nome preparado para discutir o modelo nas áreas política e económica".

Ato ecuménico

Setores de outros 11 partidos, como o conservador DEM, onde milita o também pré-candidato Luiz Henrique Mandetta, foram-se juntando a um protesto que todos quiseram tornar "o mais ecuménico possível", de acordo com os organizadores. João Doria, candidato à presidência pelo PSDB, só não participou por estar em campanha, em Minas Gerais, nas primárias do seu partido. O rival nessas primárias, Eduardo Leite, gravou vídeo. João Amoêdo, candidato em 2018 pelo liberal Novo, também, assim como senadores e deputados da esquerda à direita, incluindo Junior Bozella, do PSL, a formação pela qual Bolsonaro concorreu à presidência há três anos.

O "ecumenismo" chegou ao cúmulo das claques organizadas dos arquirrivais Corinthians, clube pelo qual Lula torce, e Palmeiras, clube preferido de Bolsonaro, desfilarem juntas pela Avenida Paulista.

Mas o ato foi "ecuménico" também no sentido literal, uma vez que o pontapé de saída nos discursos em São Paulo foi dado por padres católicos, pastores evangélicos e espíritas que defenderam uma leitura mais progressista da Bíblia. Budistas Zen também participaram.

No entanto, apesar da união pretendida, houve escaramuças como quando um membro do Partido da Causa Operária, de extrema-esquerda, chamou Ciro de "canalha" para irritação dos apoiantes do terceiro mais votado em 2018.

O único ato violento registado até ao fecho desta edição, entretanto, foi o do atropelamento de uma manifestante, no Recife. Ela foi arrastada por 50 metros por um condutor que fugiu sem prestar socorro. Não se conhecem mais informações sobre o seu estado de saúde.

Protestos anteriores

O protesto surge depois de no dia 12 de setembro, o Movimento Brasil Livre, um dos grupos que organizou os atos pelo impeachment de Dilma Rousseff, em 2015 e 2016, ter tentado unir as oposições a Bolsonaro. Sem êxito: apenas alguns milhares de pessoas de centro e de direita compareceram, entre as quais os presidenciáveis Ciro, Mandetta ou Doria, por nas semanas que antecederam a manifestação os organizadores terem afastado a esquerda ao distribuírem material com os dizeres "nem Lula, nem Bolsonaro".

E surge também depois das manifestações de dia 7, data da independência do Brasil, quando apoiantes do governo encheram a Avenida Paulista para receber Bolsonaro. Na ocasião, o presidente atacou um juiz do Supremo Tribunal Federal (STF) para, apenas dois dias depois, acabar a pedir-lhe desculpa em carta escrita a quatro mãos com o ex-presidente Michel Temer. No final dessa manifestação, camionistas fecharam cerca de duas dezenas de vias do país no intuito de obrigar ao fecho do STF. Porém, para grande decepção daqueles profissionais, Bolsonaro pediu-lhes para desmobilizarem.

dnot@dn.pt

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