O rodapé da TV que põe em causa a monarquia e abre guerra política

"Leonor sai de Espanha, como o avô". A frase abriu uma guerra entre direita e esquerda no país vizinho. O PSOE mantém-se em silêncio enquanto PP põe em causa a televisão pública espanhola e o Podemos ironiza: se estão melindrados é porque afinal Juan Carlos é corrupto.

No próximo ano letivo, a princesa Leonor, herdeira do trono de Espanha, muda-se para o País de Gales para iniciar o ensino secundário. A informação partiu da Casa do Rei e a história deveria terminar aqui, mas uma frase - "Leonor vai embora de Espanha, como o avô" - no rodapé de um noticiário do canal público espanhol, durante apenas alguns minutos, abriu uma guerra política entre a esquerda, no poder, e a direita, que a ele quer voltar. Esta quinta-feira,, apesar de comunicados e pedidos de desculpa por parte da RTVE, o tema era capa de jornal - e o debate estava na rua.

Num país muito polarizado politicamente, onde a nomeação do mais alto responsável da televisão pública é da responsabilidade do governo e as forças políticas contam armas para as eleições de domingo na Catalunha, PP e Podemos protagonizaram as críticas mais duras à televisão pública, perante o silêncio dos socialistas, bem colocados nas sondagens.

"A TVE não pode ser o canal oficial do governo", criticou o Partido Popular, alvo de críticas idênticos nos anos de Mariana Rajoy à frente do governo de Espanha. E exigia uma retificação e a demissão do diretor de informação da estação pública. "A TVE cruzou todas as linhas vermelhas", escreveu no Twitter Macarena Montesinos de Miguel, deputada e membro da comissão da RTVE: "A degradação a que Enric Hernández submete a televisão pública não tem limites". O vice-secretário de comunicação do PP, Pablo Montesinos, chamava o primeiro-ministro de Espanha e o líder do Podemos à colação. "A TVE não é a televisão de Sánchez e Iglésias, mas de todos os espanhóis".

No mesmo sentido, Inés Arrimadas, líder do Ciudadanos, exisgiu no parlamento espanhol um concurso público para escolher a direção de informação da RTVE, enquanto fazia uma ligação destes ataques à Coroa espanhola com a presença da Unidas Podemos no governo.

"O Podemos, republicano e parceiro de governo do PSOE de Pedro Sánchez, comentou com ironia: "O banner da TVE não deveria incomodar os monárquicos que acreditam que Juan Carlos é inocente e deixou a Espanha para sair de cena", referiu o partido, citado pela AFP. "Se ficam incomodados é porque reconhecem que, de facto, Juan Carlos é corrupto". Ao mesmo tempo, o partido questionava se Rosa Maria Mateo teria sido pressionada pela Zarzuela para emendar a mão.

Da parte da RTVE não existiu a retificação pedida pelo PP; mas a administradora da RTVE, Rosa María Mateo, apressou-se logo na quarta-feira a difundir um "comunicado de urgência", em que classificava o sucedido de "grave irresponsabilidade" que não podia destruir o "inquebrável compromisso da RTVE com a defesa dos valores constitucionais e as instituições do Estado, e sobretudo, a Coroa". Apesar das palavras, os críticos apressaram-se a lembrar que não é a primeira vez que, sob a sua administração a Coroa espanhola é atacada, como escreve o jornal conservador El Mundo. Por exemplo, no dia em que estreou, o programa dedicou todo o debate entre os participantes à investigação da situação fiscal do rei emérito Juan Carlos, relegando para segundo plano outros assuntos da atualidade do dia, defende o jornal.

Despedimento na televisão pública espanhola

No rescaldo da polémica, esta quinta-feira, a imprensa espanhola noticiava que Bernat Barranchina, o guionista autor da frase, foi afastado do programa. Ele próprio o confirmou no Twitter. "Destituíram-me como ao avô de Leonor". A acompanhar a mensagem, outra frase, também famosa - "Sinto muito. Enganei-me. Não voltará a acontecer" - do próprio rei emérito Juan Carlos, que em agosto de 2020 tomou a decisão de deixar Espanha e ir para Abu Dhabi, na sequência da investigação das suas finanças pessoais, investigadas na Suíça e em Espanha.

Na quarta-feira, a administradora da estação - interina há três anos - garantia que seriam adotadas "medidas imediatas que os responsáveis deste engano sejam substituídos nos seus cargos". Chegava assim ao fim a colaboração com o programa "La Hora de La 1" de Bernat Barranchina, antigo assessor do presidente da câmara de Badalona, Álex Pastor, eleito pelo Partido Socialista da Catalunha, que se demitiu no meio de outra polémica - foi apanhado em estado de embriaguez durante o primeiro estado de emergência.

O guionista não tem vínculo laboral com a TVE, mas com uma produtora contratada pela TVE, e em sua defesa saíram vários elementos do Podemos, parceiro do PSOE e de Pedro Sánchez no governo, mas os apelos foram em vão. O PP pede mais: Barranchina foi despedido ou apenas substituído?

"La Hora de La 1" faz parte de uma reforma de grelha levada a cabo por Rosa Mato e pelo diretor de informação da televisão pública. Esta quinta-feira, o programa arrancou com explicações da sua diretora, Mónica López. "Queremos pedir desculpas publicamente. A Radio Telévision Española lamenta profundamente o que aconteceu e mantém evidentemente o compromisso com o respeito pelas instituições", disse. Tarde demais.

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