"O que é insuportável hoje é que a UE se constrói sem os povos"

Em Portugal para apoiar a candidatura de André Ventura às presidenciais, a líder da extrema-direita francesa diz acreditar que o Chega vai chegar ao poder. Numa conversa com o DN após um almoço na Quinta da Marinha, Le Pen criticou a gestão da UE da pandemia, atacou Emmanuel Macron e defendeu uma Europa das nações.

Esteve em Portugal para apoiar a candidatura presidencial de André Ventura. Que valores partilha com o Chega e com o seu líder?
O primeiro valor que partilhamos é um apego incondicional à soberania dos povos. Consideramos que os nossos povos devem poder decidir o seu destino e que, de forma alguma, lhes podemos impor algo diferente daquilo que desejam. Em segundo lugar, partilhamos o apego aos valores tradicionais, os valores de civilização, que em certos casos estão hoje a ser postos em causa. E estamos apegados à nação, com todos os seus atributos. Uma nação com fronteiras, com uma democracia que funcione, uma nação com uma cultura e uma identidade que desejamos defender, porque pensamos que a riqueza vem da diversidade. É esse o princípio da Europa. E não a uniformização. Hoje a União Europeia é uma ferramenta de uniformização. E nem uns nem outros o desejamos. Queremos que os portugueses sejam portugueses, os franceses sejam franceses e os italianos sejam italianos.

O Chega - tal como a Frente Nacional (hoje Rassemblement Nacional) quando surgiu - é um pequeno partido que parece estar a crescer. Até onde acha que pode chegar?
Até ao poder! É um pequeno partido que está a crescer muito rapidamente, a acreditar nas sondagens. Acho que André Ventura tem uma verdadeira espessura de chefe de Estado e soube, incontestavelmente, criar uma dinâmica e juntar pessoas em torno de um projeto, que é um projeto entusiasmante. E para tal apoia-se em aliados sólidos e poderosos. O Rassemblement National é um movimento poderoso em França, a Liga é um movimento poderosos em Itália. E há muitos outros. Todos juntos estamos a trabalhar para defender a Europa das nações e não a Europa tecnocrática tal como nos é imposta hoje. Eu penso, portanto, que ele pode ir muito longe e que provavelmente será a surpresa destas eleições presidenciais.

Que características são essas de chefe de Estado que vê nele?
Em primeiro lugar, capacidade para unir o povo português ao propor-lhe uma visão clara do que deseja. A transparência, a clareza e a visão são o que determina um chefe de Estado. E pareceu-me corajoso. Porque, como muitos movimentos populistas, confrontou-se com uma forma de violência, de contestação, mas isso não parece impedi-lo de avançar, nem perturbá-lo. O líder não se deve deixar desviar do seu objetivo. Parece-me que o André tem essa solidez.

Dizia há uns meses que a Europa acelera em direção à parede. Até 30 de junho é Portugal que está ao volante. O que espera desta presidência portuguesa da UE?
Não espero grande coisa. O que ouvi dos dirigentes portugueses deixa-me extremamente preocupada. Parecem submeter-se totalmente a esta loucura migratória que se apoderou da UE e que faz com que o único objetivo seja relocalizar os migrantes, de forma obrigatória, forçada, num momento em que os nossos países estão confrontados com uma crise sanitária. E por isso também a uma crise económica, que nos devia levar a pensar primeiro nos nossos. E a não importar mais desempregados. Lamento falar assim, mas é a realidade. O desemprego vai aumentar em todos os países europeus e em vez de nos empenharmos em tornar menos dura a vida das pessoas que perderam o emprego, para que voltem a arranjar um, continuamos a importar centenas de milhares - e se ouvíssemos a UE, milhões - de migrantes. Não faz sentido. Estou preocupada porque vejo que os dirigentes portugueses vão acompanhar esta política migratória em vez de a travar.

Defende que a Europa não precisa dessa imigração. Mas há muitos portugueses que emigraram para França. A comunidade portuguesa é diferente dos novos migrantes?
Não tem nada a ver. Os tempos são diferentes. A imigração só pode funcionar com determinadas condições. Primeiro é preciso um desejo individual de assimilação, isto é, o respeito pelo país ao qual chegamos. Os indivíduos assimilam-se. Mas não podemos assimilar grupos inteiros, não podemos assimilar pedaços de países. E é o que nos estão a pedir para fazermos hoje. Em segundo lugar, é claro que culturalmente os portugueses eram muito mais próximos da cultura francesa do que as vagas de imigração atuais, que são magrebinas, africanas, etc. Os portugueses, quando chegaram, tinham um enorme respeito pela França, não exigiam nada, não tinham qualquer reivindicação. Trabalharam com lealdade, com coragem. E são reconhecidos hoje como uma comunidade que se integrou perfeitamente. O seu comportamento devia ser um orgulho para Portugal. Quando se comportam tão bem e dão tal contributo, quando trazem uma reputação tão boa ao país, é motivo de orgulho.

Volta a ser candidata às presidenciais francesas de 2022, o que podemos esperar de diferente em relação à sua candidatura de 2017?
Muitas coisas. Não há duas presidenciais iguais. Penso que muitos dos meus compatriotas e dos europeus, no geral, perceberam que os grandes males que analisámos há muitos anos estão hoje a agravar-se a uma velocidade espantosa. Estamos numa encruzilhada: ou voltamos a um funcionamento nacional ou mergulhamos numa mundialização que se revelou infeliz para os povos. E vai ser muito difícil recuar. Vou tentar explicar isso ao povo francês. Focando-me mais em explicar o que seríamos capazes de fazer do que no mal que os meus adversários fizeram. Talvez seja esta a novidade de 2022.

Que mal considera ter sido feito nos anos de presidência Macron?
Tudo. Vê-se que Emmanuel Macron criou uma divisão profunda na sociedade francesa, que esmagou com o seu desprezo as classes populares, as classes médias. Na verdade foi o líder sem complexos da mundialização a qualquer custo. Esta mundialização selvagem beneficia apenas um pequeno número de privilegiados. Mas deixa à beira da estrada milhões e milhões de franceses que estão hoje mais frágeis. A insegurança nunca foi tão grave em França. Houve um tumulto dia sim, dia não. E não estou a falar de homicídios, tentativas de homicídio, tráfico de droga, violações. Vivemos num país que se tornou num verdadeiro perigo. O terrorismo islamita nunca esteve de tão boa saúde, a pressão dos islamitas é impressionante e Macron não tem capacidade para responder a isto. A concorrência desleal dos países de fora da Europa é cada vez mais forte e Macron não deseja responder-lhe. Chegou a hora de mudar de rumo porque senão a França vai deixar de ser a França.

O Brexit acaba de se concretizar, num momento em que a Marine Le Pen abandonou a ideia de Frexit, de a França sair da UE. Como poderia funcionar essa Europa feita de nações nacionalistas que defende?
Podia funcionar muito bem. O que é insuportável hoje é que a UE se constrói sem os povos. Ou mesmo contra os povos. Procura impor-se em áreas em que nunca esteve em cima da mesa ter poder. Começaram a interessar-se pela imigração, querem colocar migrantes por todo lado, querem impor aos países receber pessoas segundo critérios que eles estabeleceram. Agora também se ocupam da saúde. Mal. Acabam de gastar mil milhões de euros para comprar doses de remdesivir, quando se sabia não ser eficaz [contra a covid-19]. Sempre que a UE se envolveu num assunto, foi um fracasso. Eu penso que as nações devem estabelecer os dossiers nos quais querem trabalhar em conjunto à la carte. Sempre que se força uma nação a fazer o que não quer, estamos a enfraquecer a estrutura. Tudo o que funcionou, foi fora da UE, na prática: a Interpol, a cooperação na luta contra a droga, na luta contra o terrorismo. Isto funciona porque é feito com o coração, com vontade, sem ser forçado. Não queremos mais uma UE que força, que sanciona, que faz chantagem.

A resposta europeia comum à pandemia tem sido elogiada. Também acha que não funciona?
Não vejo benefícios nisso. O que vejo é que os países que vacinaram mais rapidamente são os que agiram de fora da UE. Beneficiaram do contrato da UE, mas assinaram os seus próprios contratos com os laboratórios. É o caso da Grã-Bretanha, da Alemanha. Nós franceses, que ficámos passivamente à espera que a UE nos desse 400 mil doses, falhámos o início da campanha de vacinação. E isso é grave, Porque depois, alguns países vão sair da crise antes de nós e são concorrentes naturais em termos económicos. Terão uma vantagem sobre nós. E as consequências podem ser pesadas. A UE foi péssima. Da mesma forma que no início da crise nos disse para não fecharmos as fronteiras, deixarmos a circulação continuar. É uma aberração. Como qualquer pessoa com bom-senso percebe, quando há uma pandemia - seja vegetal, animal ou humana - a primeira coisa a fazer é tentar isolar os focos de contaminação. Ora aqui fizemos exatamente o contrário. E ainda hoje a França tem as fronteiras abertas aos países da UE. Tudo porque há um dogma e estão dispostos a correr todos os riscos para não pormos em causa esse dogma.

Criticou o ataque dos apoiantes de Trump ao Capitólio. Como vê o que se passa nos EUA, uma democracia que França ajudou a nascer?
É uma democracia que está doente. A prova é o que aconteceu no Capitólio, mas também a supressão das redes sociais do presidente. Quando grandes grupos privados começam a determinar o que podemos dizer, quem tem o direito de o dizer, e a censurar líderes políticos que conseguiram 64 milhões de votos, é muito grave. E devia fazer pensar todos os que defendem a democracia. A sociedade americana está profundamente dividida. Politicamente hoje, etnicamente ontem. Há quem lance achas para a fogueira destas divisões. Estou muito preocupada. E tanto os media, como as redes sociais, como os gigantes das novas tecnologias, como Trump e Biden, todos são responsáveis por estas divisões. Todos têm nas mãos a capacidade de voltar a uma forma de união, de serenidade nos EUA. Não há bons e maus neste caso. Todos têm responsabilidades.

Não tem grandes expectativas em relação à Administração Biden?
Biden surfou esta onda da divisão. E quando vejo que os seus amigos procuram hoje a destituição de Donald Trump, a dias do fim do mandato, acho que tudo isto parte de uma vontade de humilhar. Não podemos esquecer que atrás do político há 64 milhões de eleitores. E se forem humilhados, se forem encostados às cordas, podem reagir mal. É irresponsável brincar com isso.

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