O neto de açorianos à frente do porta-aviões que desafia a China

Antepassados do comandante do USS Theodore Roosevelt vieram de Pico, Flores e São Miguel e o almirante nasceu em Falmouth, onde há mais de um século existe uma comunidade luso-americana.

Batizado com o nome de um presidente americano do início do século XX , o porta-aviões USS Theodore Roosevelt está neste momento no mar da China do Sul em missão de proteção da liberdade de navegação. E quem comanda o navio é o almirante Doug Verissimo, nascido no Massachusetts, um luso-descendente.

"Depois de algumas pesquisas, pude confirmar a ancestralidade açoriana de Doug Verissimo. A família veio de Pico, Flores e São Miguel para Falmouth no virar do século XX, via New London e New Bedford", diz o antropólogo Miguel Moniz. Foi por sugestão de Onésimo Teotónio Almeida, professor na Brown e grande figura dos estudos luso-americanos, que contactei o investigador do ISCTE, professor visitante FLAD/Brown no Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros em 2019-2020.

Falmouth fica bem perto de New Bedford, uma das cidades mais portuguesas do Massachusetts. E New London, situada no Connecticut, também não é longe. Tal como Providence, onde fica a Brown, e que faz parte do estado de Rhode Island. Como os antepassados de Verissimo, a maioria da comunidade portuguesa na Nova Inglaterra tem raízes nos Açores, mas há continentais, por exemplo algarvios em Provincetown, outra terra americana onde não faltam bandeiras verde e vermelha nas fachadas.

"Com dois terços do tráfego mundial a passar por esta importante região, é vital que mantenhamos a nossa presença e que continuemos a promover a ordem baseada nas regras que nos permitem prosperar a todos", declarou o almirante Verissimo, cujo início de missão coincidiu com o primeiro fim de semana de Joe Biden como presidente (tomou posse a 20 de janeiro) e também com a entrada de aviões chineses no espaço de defesa aérea de Taiwan. A ilha, separada da China há sete décadas, tem um acordo de defesa com os Estados Unidos, que data de 1979, quando Washington passou a reconhecer Pequim (República Popular da China) e não Taipé (capital da República da China desde a derrota do Kuomintang frente aos comunistas). O chamado Taiwan Relations Act foi a forma de os Estados Unidos manterem-se leais a um aliado mesmo cortando relações diplomáticas, e Biden, então senador, foi um dos que votaram a favor. Esse facto, e o pormenor de o representante de Taiwan ter sido convidado para a posse, contraria os receios em Taipé de abandono depois da saída de Donald Trump, que, sempre desafiador de Pequim, foi grande apoiante da ilha, hoje um colosso económico e uma sólida democracia, muito diferente de quando serviu de refúgio em 1949 a Chiang Kai-Shek, derrotado por Mao Tsé-tung.

Certamente o almirante Verissimo (perdeu o acento no primeiro i mas também há Pereiras que ficaram Perry e Silvas que passaram a Silver) sabe que Taiwan também se chama Formosa, nome dado pelos navegadores portugueses do século XVI. Leslie Ribeiro Vicente, professora de Português em New Bedford, que também ajudou o DN a comprovar a origem portuguesa do militar, conseguiu apurar que a família chegou a viver perto do Salão da Irmandade do Espírito Santo de Fresh Pond em Falmouth. Mas o almirante não terá envolvimento com a comunidade, como prova o facto de ter vivido em San Diego, base dos porta-aviões do Pacífico, e não ser conhecido por Idalmiro da Rosa, cônsul honorário nessa cidade onde há muitos luso-descendentes (filhos e netos de atuneiros) e onde fica a estátua de João Rodrigues Cabrilho, o descobridor da Califórnia.

Falmouth, ao contrário de New Bedford, onde existe um museu baleeiro, e de Provincetown, onde ainda há traineiras com nomes portugueses, não atraiu os portugueses para uma vida no mar, mas sim para serem operários agrícolas, sobretudo na apanha do arando, esclarece o antropólogo Miguel Moniz, que lá nasceu. Muitos compraram um pedaço de terra e tiveram algum sucesso económico, financiando até a construção de uma igreja, além dos salões da Irmandade. A família Verissimo fez parte da comunidade de pickers (colhedores) e viveu, sim, em Fresh Pond, mas quando o almirante nasceu essa época pertencia ao passado. O historiador da comunidade portuguesa Lewis White, que Miguel Moniz me referenciou, escreveu sobre o pai do militar, um apaixonado por vela e dono de um barco. Provavelmente está aí a explicação da atração do filho pela Marinha, onde começou por ser aviador, depois de se formar, em 1987, no Cape Code Community College (estudou Matemática mais tarde na Califórnia e fez também mestrado).

Verissimo comanda o Grupo de Ataque Nove, que além do USS Theodore Roosevelt inclui dois destroyers e um cruzador. Ao comando do USS Carl Vinson, navegara já no mar da China do Sul. E apesar de ter declarado ao Stars and Stripes não notar a nível operacional grandes diferenças em relação a 2017 e 2018, o jornal das forças armadas sublinha que desde então a China de Xi Jinping, que reivindica aquelas águas, acrescentou 30 navios à frota, incluindo um porta-aviões, um submarino nuclear e nove destroyers.

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