O governo Conte salvou-se por um triz. Até quando?

Primeiro-ministro italiano venceu uma moção de confiança no Senado, mas perdeu a maioria de governo. Conte procura reforçar executivo, oposição exige eleições antecipadas.

Pouco depois de conseguir - por apenas quatro votos - a confiança do Senado italiano, o primeiro-ministro Giuseppe Conte tuitava: "O objetivo agora é trabalhar por uma maioria mais sólida". Mas por detrás do otimismo aparente, Conte tem perfeita noção de que ao perder a maioria absoluta após a saída da coligação do Itália Viva, o pequeno partido do ex-primeiro-ministro Matteo Renzi, e apesar deste voto de confiança, sai muito enfraquecido, num momento em que à crise política se soma a crise sanitária provocada pela pandemia de covid-19.

A saída de Renzi da coligação, concretizado através da demissão das duas ministras que tinha no governo Conte, veio mergulhar Itália numa grave crise política. Na votação de terça-feira à noite, os seus 16 senadores abstiveram-se.

Confrontado com a segunda vaga de uma pandemia que já matou mais de 83 mil italianos e infetou 2,4 milhões, o governo Conte tem de apresentar um plano credível para aplicar os 200 mil milhões do fundo de recuperação europeu que cabem a Itália.

"Conte salvou-se mas não se pode governar assim", escreveu o jornal La Stampa. Já o La Repubblica fazia manchete com "Um governo "piccolo, piccolo" [pequeno, pequeno]", retratando a complexa situação política na Itália. "Tanto Conte quanto Renzi estão enfraquecidos. Agora é necessário um pacto legislativo", comentou o diretor do jornal Maurizio Molinari ao canal RaiNews24.

Vitória mas sem maioria

O serão já ia longo quando os senadores votaram a moção de confiança ao governo de Conte, que na véspera tinha vencido por margem confortável a votação na Câmar dos Deputados. Com 156 votos a favor e 140 contra, o primeiro-ministro escapou por triz à queda do executivo pelo Senado, mas não conseguiu os 161 que lhe garantiriam a maioria.

A contagem ficou marcada por protestos e atrasos devido ao encerramento da votação antes do previsto e a presidência do Senado precisou de verificar os dados.

À frente de um governo minoritário, Conte vai ter mais dificuldades em conseguir levar avante a sua agenda no Parlamento. A coligação de governo, agora reduzida ao populista Movimento 5 Estrelas, ao Partido Democrático (PD, de centro-esquerda) e o Livres e Iguais (um pequena formação de esquerda), está a tentar uma manobra de sedução junto de alguns deputados da oposição, tentando convencê-los da necessidade de preservar a estabilidade do país e de evitar eleições antecipadas. Desde 1946, a Itália teve 29 primeiros-ministros e 66 governos.

O próprio Conte, um independente que chegou ao poder em junho de 2018, começou por liderar uma coligação composta pelo Movimento 5 Estrelas e pela Liga (de extrema-direita), mas em setembro de 2019, após uma moção de não confiança apresentada pela Liga de Matteo Salvini, o seu próprio vice-primeiro-ministro, voltou a ser encarregue pelo presidente Sergio Mattarella de formar novo executivo. Foi o que fez, mantendo-se como líder de uma coligação agora composta pelo Movimento 5 Estrelas, o Partido Democrático e outros pequenos partidos, como o Viva Itália, criado por Renzi após ter saído do PD.

Agora, sem maioria, é com ceticismo que este terceiro executivo Conte está a ser recebido. "O resultado desta votação não põe fim à crise política" na Itália, disse à AFP Wolfgango Piccoli, da consultoria Teneo, pouco antes da votação.

"Será difícil para uma coligação tão fraca e complexa tirar a Itália da crise económica mais profunda que vem enfrentando desde a Segunda Guerra Mundial e em plena pandemia", acrescentou.

Inicia-se agora uma fase de negociações e diálogo, inclusive com Renzi, para aprovar algumas medidas-chave e encontrar uma solução mais sólida com alguns setores da direita moderada do Força Itália, partido do ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi.

Discutir de tudo com todos

O próprio Renzi já se disse disposto a discutir sobre tudo com todos. Até mesmo avaliar a hipótese de um "governo de unidade nacional". "Obviamente estamos sempre a pensar no interesse do país e dispostos a dar uma mão, fazendo sentir a nossa presença", escreveu na sua newsletter. E Ivan Scalfarotto, outro membro do partido, sublinhou que "O governo já não existe: está aritmeticamente vivo, mas politicamente morto".

Dentro da coligação, o Movimento 5 Estrelas vê na saída do Itália Viva a oportunidade para acelerar "a atividade do governo, que foi muitas vezes travada pelos obstáculos levantados pelos ministros da IV, de forma a dar respostas mais eficazes ao país", afirmaram fontes próximas do partido antissistema citadas pela agência ANSA.

Já o líder do PD, Nicola Zingaretti, garantiu no Twitter que a votação de terça-feira "evitou um salto no escuro. Agora podemos voltar a ocupar-nos dos problemas dos italianos. Enfrentar as emergências, gerir o plano de vacinação, avançar com o plano de recuperação e com a agenda das coisas a fazer. Os italianos não devem ser deixados sós".

Opinião bem diferente, como seria de imaginar, tem a direita e o centro direita. Logo no final da votação, tanto Salvini como Georgia Meloni, a líder dos Irmãos de Itália (pós-fascistas) anunciaram que vão pedir a demissão do Executivo ao Presidente da República, o único que pela Constituição pode convocar eleições antecipadas.

Ao final do dia de quarta-feira, Conte encontrou-se com Mattarella para comunicar ao presidente o seu desejo de chegar à maioria, com a construção de um novo grupo centrista no Senado.

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